“Sinais positivos” de 2021 levam empresários a avançar com projecto de unidade hoteleira nas Termas das Caldeiras da Ribeira Grande

Luísa Pereira é natural da ilha Terceira e é a actual Presidente da Associação Termas dos Açores, fundada no ano passado, no sentido de fazer ouvir as preocupações de um sector que foi severamente prejudicado com as medidas restritivas aplicadas em 2020. Apesar de os prejuízos sentidos não terem ainda sido totalmente recuperados, a sócia-gerente da empresa que explora as Termas das Caldeiras da Ribeira Grande conta que, graças aos “sinais positivos” que têm sido dados, a mesma empresa decidiu avançar com o projecto que prevê a construção de uma unidade hoteleira termal naquele local.

Correio dos Açores: Que balanço faz do ano de 2020?
Luísa Pereira: O ano de 2020 foi um ano histórico, não só para o sector termal, mas para todos os sectores, com excepção do sector alimentar porque diz respeito a bens de primeira necessidade e porque continuou a laborar.
No caso dos outros sectores, em específico no sector do turismo, este foi de imediato aquele que sofreu com o impacto inicial devido às restrições que o mundo foi sofrendo nas deslocações e até na privação dos direitos e da liberdade individual. (…) Penso que vamos aprender qualquer coisa com esta pandemia, pelo menos assim espero, porque em 2020 nós comprometemos empresas que estavam financeiramente saudáveis, comprometemos empresários com projectos e com sonhos, e no caso específico do sector termal, este foi o sector mais afectado, porque esteve cinco meses consecutivos parado. Estivemos encerrados desde Março até Agosto do ano de 2020.
Abrimos, com exactidão, a 3 de Agosto de 2020. Continuámos com restrições, passámos os tanques termais do exterior para metade da sua lotação, e obviamente que as restrições continuam a existir, porque continuamos exactamente com as mesmas medidas de contenção desde que retomámos a nossa actividade. No interior, felizmente, como as salas são individuais não houve esta necessidade porque só há uma pessoa por cada sala.

Tendo em conta o dia 3 de Agosto de 2020, considera que esta reabertura do sector termal foi tardia ou que ocorreu no tempo certo?
Talvez na altura tenha considerado, numa fase inicial, que o encerramento fosse necessário, embora quando começámos a chegar a Julho já houvesse uma retoma de vários sectores, o sector termal deveria de imediato ter retomado a sua actividade à semelhança dos restantes sectores, porque, por exemplo, os Spa’s abriram e algumas das termas na Região também têm esta valência, então não fez sentido nenhum manter as termas encerradas e abrir outros sectores semelhantes ao da actividade termal.
Portanto, penso que optámos por uma abertura tardia do sector, prejudicámos algumas empresas de uma forma severa talvez por algum desconhecimento, e também pela falta de representatividade que o sector tinha àquela época, e foi por isso que um grupo de cidadãos se juntou para formar a Associação de Termas dos Açores.

Com as restrições que existem é difícil atingir o exponencial máximo que as termas permitem?
Quando começámos a chegar ao Verão de 2021 começámos a sentir alguma retoma também decorrente de alguma da retoma turística sentida nos Açores, obviamente bastante limitada até pelas restrições mundiais que ainda estão impostas, mas já se conseguiu ter um Verão muito mais aproximado da normalidade do que no ano de 2020, comparando inclusive com o mês de Agosto.
O sector termal contou com o mercado local desde que foi reaberto e este tem-se verificado como uma fonte importante. Ele sempre existiu, e o sector termal tem o privilégio de ser transversal a todas as idades e de ser transversal a todas as pessoas, não é só direccionado ao turismo, é também direccionado ao mercado local, que se tem afirmado como um mercado de extrema importância para o nosso sector.
Ou seja, os locais já usufruíam das termas, no entanto, com todas as limitações, com o facto de não viajarem e com o facto de não haver muitas coisas para fazer, talvez tenham procurado mais as termas como um momento de relaxamento, porque as pessoas também tiveram essa necessidade decorrente de todas as emoções que viveram durante a pandemia. Acho que houve um aumento da necessidade de relaxamento e isso beneficiou o sector termal. Importa referir que, apesar dos sinais positivos, o sector não conseguiu recuperar dos meses em que esteve encerrado em 2020, mas que houve aqui algumas afirmações importantes para o sector, disso não há dúvidas.

Entre a época alta e a época baixa existem muitas oscilações?
Sim, a época baixa foi muito mais acentuada. Nos últimos anos nos Açores, face ao aumento turístico que vínhamos a sentir desde meados de 2015/2016, deixámos de ter uma época baixa e passámos a ter uma época média e época alta. Na altura deixámos de ter uma época baixa, mas agora já se notam estas oscilações muito mais acentuadas em relação à fase pré-pandémica.

Em que fase está agora o projecto para a construção da unidade hoteleira termal que previam antes da pandemia?
No final de 2021, com os sinais que a pandemia foi trazendo, nós decidimos fazer a retoma deste projecto e avançar. Temos o projecto concluído e iremos dar início ao seu processo de licenciamento para que se dê início à sua construção. É uma unidade de alojamento termal, onde existem quartos com acesso directo para as termas, e temos também um aumento dos tanques termais exteriores que serão localizados na parte superior da antiga moradia que nós adquirimos. É um projecto para colmatar a falha da falta de alojamento anexo às termas, porque há um mercado que procura tratamentos termais aliados ao alojamento e não tínhamos essa oferta, e vem também acrescentar ao concelho da Ribeira Grande mais uma valência no que diz respeito às dormidas.
(…) Será uma unidade muito pequena, contará com entre oito a 12 quartos, temos o piso superior e inferior, e isso dá-se porque o Plano Director Municipal (PDM) não nos permite aumentar a área total de construção. Vamos ter que construir dentro dos limites existentes que não eram muito grandes, mas é uma unidade que pretende primar pela diferença na oferta que irá fazer e que pretende ser uma referência como alojamento termal regional. (…) A conclusão do projecto vai depender também do tempo do licenciamento, pois o decorrer deste período é bastante importante, mas com certeza penso que em 2023 deverá estar pronto.
(…) Acredito que o ideal é chegar a todos, mas sendo que temos uma capacidade limitada, temos que ter uma oferta mais apelativa no que diz respeito aos serviços que vamos oferecer, temos que primar pela diferença e pela parte de sermos uma unidade pequena. Há uma estimativa mas ainda não é possível precisar o custo por noite, até porque vivemos num momento de inflação, e não sabemos bem como é que o mercado económico mundial se irá comportar.

Apesar do registo do aumento de casos positivos nos Açores, está confiante para este ano ou teme que possam existir novas restrições que possam afectar novamente o sector termal?
2022 é um ano que depende, uma vez mais, do nosso comportamento e depende também da eficácia da vacinação face ao surgimento de novas variantes. O problema desta pandemia é ser imprevisível, não temos certezas de absolutamente nada, embora creio que estejamos a entrar na fase de endemia e que todos os indicadores respeitantes ao comportamento do vírus indicam que o vírus veio para ficar, por isso acho que vamos ter que conviver e saber viver com esta normalidade, embora este seja um conceito bastante diferente daquele que outrora existiu, até porque as pessoas mudaram.
No início da pandemia eu falava da onda de solidariedade a que se assistia, mas agora assistimos a uma onda de contestação, de intolerância e falta de compreensão porque as pessoas acusam um cansaço que está ligado ao medo e às privações a que fomos todos sujeitos.
 

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