Plano da Vitivinicultura para a Região encontra-se em consulta pública até dia 24 deste mês

Especialistas defendem para os Açores a criação do Instituto e do Observatório da Vinha e do Vinho e do “Livro Branco” do Enoturismo

A Secretaria Regional da Agricultura e do Desenvolvimento Rural colocou em consulta pública, até dia 24 do corrente mês, o Plano Estratégico da Vitivinicultura na Região Autónoma dos Açores, elaborado por uma grupo de trabalho de várias instituições e agora, como diz o Secretário António Ventura, “pretende receber novos contributos públicos, ou seja, de todos que queiram com o seu pensamento crítico colaborar para melhorar o trabalho e, assim, realizar uma consistente orientação produtiva no sector da vitivinicultura nos Açores”.  A vitivinicultura tem nos Açores largas tradições e especial importância, tendo alguns dos seus vinhos sido exportados para vários países, onde conquistaram merecida fama, pelo que, para a defesa da qualidade dos vinhos regionais, se impõe a criação de zonas vitivinícolas na região. No plano, com 168 páginas, que recebeu o contributo de vários especialistas dos Açores, dada a complexidade do tema e a impossibilidade de nele registar todos os elementos essenciais neste sector, é sugerido que o documento seja revisto dois anos após a sua aprovação, assim como é proposto que haja planos específicos para cada uma das ilhas. As ilhas das Flores e do Corvo não têm qualquer actividade vitivinícola.
No que respeita aos incentivos para o sector é defendido que deve haver uma revisão “e considerar maior diferenciação, de acordo com as características de implantação da cultura em cada ilha”.
Relativamente ao posicionamento oficial da Região quanto à continuidade do cultivo de castas Produtores Directos e Híbridos Produtores Directos e produtos delas resultantes (uvas consumidas em fresco, vinhos e outros sub-produtos),  é sugerido no documento pelos autores do mesmo que a Região deve assumir que estes produtos fazem parte do património histórico, social, económico e cultural e da identidade do povo açoriano (são cultivadas nas ilhas há mais de 150 anos, correspondente aos períodos pós oídio). Estas castas devem ser preservadas, criando-se uma forma de protecção que permita a produção e comercialização destes produtos, desde que salvaguardados os requisitos analíticos obrigatórios. São vinhos de baixa qualidade, apreciados na população local e no mercado da saudade. Deve promover-se a mudança para vinhos de melhor qualidade.
Como medidas significativas a tomar conducentes à mais sólida estruturação do sector vitivinícola regional é defendida a criação do Instituto da Vinha e do Vinho dos Açores, a criação do “Livro Branco” do Enoturismo na Região e a criação do Observatório da Vinha e do Vinho dos Açores (OVVA).  
Um dos acontecimentos relevantes destacados no Plano, como dá conta Manuel Paulino Costa, Gestor da Paisagem Protegida da Cultura da Vinha da Ilha do Pico entre 2011-2021,  no que respeita ao sector vitivinícola regional foi o forte impulso verificado no âmbito da reestruturação da vinha por consequência dos apoios disponibilizados no âmbito do programa VITIS, e desde 2009 até 2019 a área total reestruturada na Região foi de 998,01 ha, sendo que desta 91% foi reestruturada na ilha do Pico; 3,11% na ilha Terceira; 1,78% na ilha Graciosa; 1,04% na ilha de São Miguel; 2,07% na ilha do Faial; 0,64% na ilha de São Jorge e 0,38% na ilha de Santa Maria. Paralelamente ao que aconteceu ao nível da produção vitícola, também no sector da transformação assistiu-se a um salto qualitativo quer na modernização das estruturas existentes (cooperativas e produtores-engarrafadores privados), bem como no surgimento de um vasto  leque de produtos vitivinícolas certificados pela entidade competente – CVR Açores que tiveram  como consequência um aumento significativo do volume exportado, bem como um acréscimo considerável dos destinos de exportação que passam por, ordem decrescente, a saber: EUA,  Alemanha, Noruega, Suíça, Bélgica, Espanha, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, França, Irlanda e República da Coreia.
Para a organização do sector, segundo refere o Plano, por via legislativa, foi criado e aprovado nos anos idos de 1994 o estatuto das Zonas Vitivinícolas dos “Biscoitos”, na ilha Terceira; Pico e Graciosa, assim como ficou estabelecido as competências da Comissão Vitivinícola Regional dos Açores (CVR Açores),” alvo de actualizações ao longo do tempo”, que passa, entre outras por Controlar e fiscalizar todos os produtos vínicos, com indicação de proveniência regulamentada das zonas vitivinícolas.
 Susana Mestre, engenheira agrónoma, refere que “a existência de castas tradicionais açorianas, únicas no encepamento nacional, e algumas até a  nível europeu e mundial, constituem uma enorme mais-valia para a região e um factor de  identidade para os vinhos açorianos. Adicionalmente, as condições edafo-climáticas onde se  desenvolve a cultura na região, também elas raras no contexto nacional e europeu, contribuem  para imprimir uma tipicidade marcada aos vinhos açorianos. (...) “Apesar das enormes potencialidades do sector na região, são reconhecidos também diversos desafios, alguns de carácter estrutural e de mais difícil resolução, como seja a reduzida dimensão das parcelas e das explorações, pequena escala, pulverização da estrutura produtiva  ou condicionantes edafo-climáticas. A estes juntam-se ainda outros factores de constrangimento  ao desenvolvimento do sector, como a elevada exigência em mão de obra e dificuldade de mecanização, elevada pressão de pragas e doenças, falta de material vegetativo de propagação, abandono das vinhas existentes e perda de direitos de produção, entre outros”.
Também refere Susana Mestre: “As questões de índole sanitária e a sua vigilância continuam a ser de grande importância, quer ao nível das doenças do lenho quer de viroses, nomeadamente do vírus do urticado (...) . Artur Machado, Professor da Universidade dos Açores defende que (...) “urge implementar um programa de melhoramento das castas regionais,  pelo saneamento de vírus, de modo a garantir plantio de qualidade para a instalação de novas  vinhas, precaver a importação de novas castas, preservando e favorecendo a peculiaridade do  germoplasma garantindo a autenticidade dos vinhos tradicionais da regional e sobretudo  potenciar a produtividade e qualidade das produções, que será refletida na rentabilidade do  sector vitivinícola da RAA».   

Vinhos dos Açores representam apenas 0,45%  da produção nacional, mas o preço por litro é em média superior em 55%

Uma portaria do Governo datada de 2004 reconheceu a menção «Vinho regional» seguida da indicação geográfica «Açores» para o vinho de mesa tinto e branco, tendo o documento despoletado “o surgimento de novos vinhos certificados para além dos à época, VLQPRD e VQPRD”. A área geográfica de produção de vinho regional Açores abrange todas as ilhas do arquipélago onde há actividade vitivinícola.  E neste contexto, o Laboratório Regional de Enologia (LRE) disponibiliza aos vitivinicultores dos Açores vários serviços desde análises físico-químicas a produtos vitivinícolas, análises organoléticas, assistência técnica em Enologia e assistência técnica em Viticultura. Actualmente o LRE possui acreditação em 15 ensaios com descrição flexível intermédia, o que significa que o laboratório tem capacidade para implementar novas versões de documentos no âmbito da acreditação. A par com o trabalho técnico o LRE também se preocupa com a formação dos seus viticultores, promovendo anualmente sessões de esclarecimento em temas específicos de viticultura e de  enologia.
Com um volume de aproximadamente 487.000 litros produzidos na campanha de 2020/2021, aptos na certificação como DOP e IG, os vinhos certificados dos Açores representam apenas 0,45%  do total de vinhos certificados transaccionados no mercado nacional. A evolução das áreas de vinha, especialmente na Ilha do Pico, aponta para um crescimento a médio prazo da produção anual para um patamar de cerca de um milhão de litros de vinho certificado. Este aumento de 105% na quantidade produzida, apesar de muito expressivo a nível  regional, ainda assim não permitirá à Região atingir os 1% da totalidade do vinho certificado vendido no mercado nacional. O preço médio dos vinhos certificados vendidos  pelos operadores económicos do sector na Região, calculado para o período de 2020 a 2021, foi de 10,92€ por litro, muito superior aos 4,88€ por litro registados no mercado nacional. Relativamente ao vinho certificado DOP, o preço médio de venda apurado para as campanhas de 2020 e 2021, foi de 14,22€ por litro, o que o coloca no topo da tabela dos preços de venda unitários para este tipo de certificação.
O mesmo sucede com o vinho certificado IGP dos Açores, o qual é comercializado a um valor médio por litro de 9,09€, cerca do dobro do preço médio nacional apurado para este tipo de certificação.
A procura internacional dos vinhos dos Açores, e mesmo em Portugal continental, segundo Paulo Barros, do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, IP, “não  está condicionada pela qualidade indiscutível dos vinhos certificados que são produzidos nos  Açores, mas sim pelos custos decorrentes da insularidade e da sua posição geográfica ultraperiférica”. E, por isso defende que O futuro da vitivinicultura nos Açores, deverá ter, como fulcro de qualquer opção de desenvolvimento, a sustentabilidade económica, ambiental e social subjacente a todo o processo produtivo»                                            

N.C.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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