Projecto iniciado no Porto Formoso leva turistas a pescar na costa norte de São Miguel

A paixão pelo mar vem desde a infância que Bruno Raposo e Paulo Silva partilharam no Porto Formoso, mas apenas em 2016, nessa mesma freguesia, nasceria o projecto Há Mar, que proporciona aos turistas com um espírito mais aventureiro uma experiência de pesca artesanal em tudo semelhante àquela que se vive diariamente no “Américo”, nome da embarcação que homenageia o pai de Paulo Silva, também pescador.
Para além de permitir que os clientes experimentem na primeira pessoa as artes de pesca artesanais típicas dos Açores, o projecto Há Mar inclui também uma forte componente de passeio e de paisagem ao longo da costa norte da ilha de São Miguel, na qual, ocasionalmente, é possível visitar algumas grutas ou zonas mais recônditas nas proximidades do Porto Formoso, tal como é o caso do portinho da Ribeirinha que, apesar de degradado, é um dos “melhores lugares para um banho de mar”, diz Bruno Raposo.
Ao contrário de Paulo Silva, que faz do mar a sua segunda casa e que abraçou a herança familiar ao tornar-se pescador artesanal, saindo regularmente no “Américo” para garantir o seu sustento, Bruno Raposo acabou por se afastar do mar para estudar psicologia em Lisboa, mas hoje, depois de regressar à terra, é o braço direito do amigo de infância, e acompanha sempre que possível os clientes que querem conhecer a verdadeira experiência que proporciona o Há Mar.
Ali, naquela embarcação criada com o exclusivo propósito de capturar pescado, vive-se “uma experiência original e verdadeira”, aponta Bruno Raposo, tendo em conta que o papel do turista será o de acompanhar esta dupla “num dia de pesca que seria idêntico a outro em que não houvesse turistas a bordo”.
Embora a aceitação do projecto fosse um pouco incerta aquando da sua iniciação, principalmente devido à exigência imposta pelos horários alusivos à pesca (iniciando às 05h00 ou às 06h00 da madrugada, dependente da altura do ano), a verdade é que os dois sócios ficaram surpresos com o sucesso do mesmo, tendo em conta que na era “pré-Covid” chegaram a ter mais de 100 clientes por ano, sobretudo no Verão, já que esta é uma actividade marcada pela sazonalidade e, também, pelas condições meteorológicas.
Em relação aos aspectos que diferenciam o Há Mar de outros projectos turísticos, Bruno Raposo salienta que há, sobretudo, três aspectos que são muito valorizados pelos clientes: “Em primeiro lugar, nós praticamos uma pesca sustentável, não há redes, não há palanques de fundo que apanham todo o tipo de pesca indiscriminada. Ali cada pessoa tem uma linha e cada linha tem um ou dois anzóis e nós sabemos o que estamos a pescar, sabemos quais as espécies que vamos pescar e não apanhamos indiscriminadamente. As pessoas valorizam isso cada vez mais e com a falta de peixe que há em São Miguel o mais importante é a pesca sustentável. Temos a nosso favor também a nossa identidade, que permite a pessoa participar numa experiência verdadeira, com um pescador verdadeiro, numa pequena vila, etc., e em terceiro lugar temos um serviço personalizado. Se um casal ou três ou quatro pessoas reservarem para ir pescar connosco, naquele dia é garantido que não vai mais ninguém pescar com ele. A pessoa vai ter uma experiência personalizada, sem confusões de filas ou de bilheteiras, entra no barco e é como se fosse um pescador normal que vai pescar connosco”, explica.
Em acréscimo, há ainda a vantagem de, no final da experiência, os clientes poderem levar peixe consigo, seja para o alojamento local onde se encontram, seja para os restaurantes da zona onde se encontram alojados. Há também a hipótese de ficar mesmo pelo Porto Formoso e de levaram o peixe fresco até à Casa de Pasto o Amaral, onde pode ser cozinhado e servido ao cliente do Há Mar.
Conforme explica Bruno Raposo, um projecto como este só é possível graças ao decreto-lei publicado em 2008 relacionado com a Pesca Turismo, que legalizou a “oferta de serviços marítimo-turísticos de natureza cultural, de lazer, de pesca e actividades acessórias complementares, mediante a utilização de embarcação registada no exercício da pesca comercial, podendo incluir a observação e participação na actividade de pesca comercial, bem como actividades acessórias complementares, designadamente alojamento e restauração, incluindo a correspondente transformação do pescado, a bordo das embarcações”, conforme se lê no próprio.
Porém, embora “a ideia tenha sido muito boa” e embora seja um complemento “importante para os pescadores”, conforme adianta o sócio deste projecto, até ao ano de 2016 “ninguém tirou uma licença que fosse”, o que fez com que o Há Mar fosse pioneiro neste domínio, já que os projectos semelhantes que existiram entretanto ocorreram todos depois do referido ano.
Embora outros pescadores tenham aderido entretanto a projectos semelhantes, tanto em São Miguel como noutras ilhas, o sócio deste projecto explica que, por norma, os pescadores “gostam muito da sua liberdade, ou seja, querem ir para o mar às horas que lhes apetecer e estar no mar até quando lhes apetecer, não ter ninguém a bordo a dar mais trabalho do que aquele que já têm”. Para além disto, também “a logística complicada das reservas e a barreira linguística, já que 90% dos clientes são estrangeiros” dificultam também a criação de mais projectos semelhantes nos Açores, adianta Bruno Raposo.
Por outro lado, tal como a pesca, esta actividade tem também um carácter imprevisível, havendo também nela “dias melhores e dias piores”, incluindo dias em que as pescas nem se concretizaram.

Projecto tem despertado a atenção
da comunicação social

Outro factor que tem vindo a demonstrar o sucesso deste projecto passa pelas participações que têm feito com a comunicação social em diversos meios: “Temos participado em coisas que nunca nos passariam pela cabeça, como programas de televisão, mais do que um, inclusive do continente. Já participámos em filmagens para uma cadeia internacional de hotéis Hilton, já fizemos filmagens para spots publicitários de turismo dos Açores, já fizemos também uma reportagem na qual fomos pescar com uma jornalista da revista Forbes a nível internacional para um artigo sobre os Açores. Ou seja, apareceram-nos coisas quando não fazíamos ideia que teríamos tanto interesse e dá-nos prazer participar nessas filmagens. Participámos numa série que ainda vai sair acerca de vários chefes de cozinha, portugueses e não só, num episódio que é passado em São Miguel. Nesse episódio, um chef vai connosco pescar, apanha peixe e depois faz o jantar com o peixe”, conta Bruno Raposo.

Os impactos da pandemia

Porém, a pandemia trouxe também grandes entraves ao desenvolvimento desta actividade, tendo em conta que o ano de 2020 resultou numa perca de “80% ou mais dos clientes”. Felizmente, acrescenta Bruno Raposo, nenhum dos dois sócios dependia única e exclusivamente deste projecto a nível financeiro, o que permitiu que os dois mantivessem alguma estabilidade ao longo dos últimos dois anos.
“Em 2021 já houve uma recuperação muito boa no Verão, até porque trabalhamos muito mais no Verão do que no Inverno, dadas as condições do tempo, e quando o tempo está adverso nem passa pela cabeça das pessoas ir pescar. Mas foi horrível porque vínhamos a crescer desde 2016 e em 2020 voltámos atrás”, diz.
Apesar de não estarem previstos clientes para os próximos dias, a agenda de 2022 está receptiva a marcações, sendo esta também “uma actividade que se enquadra bastante nas restrições da pandemia”, tendo em conta que esta se desenvolve ao ar livre e que são sempre esperados grupos pequenos e que convivem entre si, tais como casais, famílias ou grupos de amigos. O facto de não terem reservas para os próximos tempos não assusta esta dupla, até porque as marcações surgem sempre com pouca antecedência em relação ao dia da actividade, explica Bruno Raposo. Em acréscimo, o desejo dos sócios é o de manter o projecto o mais sustentável possível, o que se tornaria incomportável ao aceitar grandes grupos ou até vários passeios diários.
“Nós não queremos todos os dias ter pessoas à nossa procura e à nossa espera. Queremos fazer isto com prazer e não queremos ganhar dinheiro à força toda. Queremos que as pessoas venham connosco e queremos também ter vontade de os receber, queremos manter isto ao ritmo da natureza e ao nosso ritmo. Não queremos transformar isso numa actividade puramente comercial, porque aí perderá a essência, e se isso acontecer não temos nada para dar de diferente dos outros, passamos a ser um negócio como outro qualquer. Queremos ganhar dinheiro, claro, mas ao mesmo tempo queremos proporcionar uma experiência inédita e especial às pessoas que nos procuram”, explica ainda.
Porém, deixa um alerta em relação ao estado actual do mar dos Açores, nomeadamente à falta de peixe que é cada vez mais evidente nos oceanos, criticando a postura de vários pescadores, a ausência de fiscalização e, também, o facto de não se tomarem medidas para proteger as espécies que se estão a reduzir em número.
“Não há fiscalização, usam técnicas de rede e outras que apanham todo o tipo de peixe, seja grande, pequeno, ou de que espécie for, e nós vemos diferença em cinco anos, desde que existimos, notamos que há menos peixe. (…) O que vale é que o peixe tem ficado mais caro, apanha-se menos peixe e fica mais caro, mas isto a longo prazo não é sustentável se continuarmos a pescar da maneira que estamos a pescar. É preciso serem criadas reservas onde não se possa pescar e é preciso haver uma fiscalização às artes de pesca ilegais que dão cabo de tudo, senão daqui a alguns anos temos que ir para as Flores ou para o Corvo para pescar, pois embora este impacto seja sentido lá também, em São Miguel estamos num estado mais avançado”, conclui Bruno Raposo.

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