Astrofísico açoriano Pedro Mota Machado

“Façam com que os açorianos sintam que o porto espacial é uma coisa sua...”

Como foram os seus primeiros passos no ensino nos Açores?
Pedro Mota Machado – Eu estive, no primeiro ciclo, no colégio “A Colmeia”. Frequentei, depois a Escola Preparatória Roberto Ivens e estive no Liceu, conhecido agora por Escola Secundária Antero de Quental.
Vim para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde tirei o curso de Física Teórica,

O gosto pelo Espaço começou a surgir muito cedo na sua vida?
Na verdade, sim, este gosto nasceu muito cedo. Segui na televisão, na altura, a série “Cosmos”, do Carl Sagan. E se puder partilhar uma coincidência enorme consigo, eu ontem (Quarta-feira) estive a receber, no Instituto de Astrofísica, no Observatório Astronómico de Lisboa, a actual Directora do Instituto Carlos Sagan, na Universidade de Cornell, em Nova Iorque. Basicamente, ela é uma sucessora de Carlos Sagan. É incrível. Foi um gosto enorme como pode imaginar receber Lisa Kaltenegger.
Mas, sim, o meu gosto pelo Espaço nasceu nos Açores. Tanto é que lembro-me que ajudava o meu avô com as tarefas que ele tinha lá na quinta e ele dava-me sempre uma moedinha. Eu juntei estas moedinhas e comprei o meu primeiro livro, que era um livro sobre o Sistema Solar. Como vê, eu não tinha maneira de fugir (sorriso).

Cursou, então, Física Teórica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa…
…Depois, fiz um mestrado já em Astronomia e, a seguir, fiz um doutoramento em Astrofísica no Observatório de Paris, em França.

E regressou Lisboa.
Sim, regressei a Lisboa. Fiz vários pós-doutoramentos, contratos de investigação. Neste momento, sou investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e sou também professor da Faculdade de Ciências onde aprendi há alguns anos atrás. Agora, estou do outro lado.

Diz que foi investigador de alguns projectos. Quais os que gostaria de distinguir?
Neste momento, estou ligado a várias missões espaciais. Sou co-investigador e sou representante português na missão espacial em preparação chamada ARIEL, que vai estudar os exoplanetas. Estou a liderar um dos objectivos científicos da missão.  
Basicamente, será o estudo de outros mundos que estão a orbitar outras estrelas que não o Sol. Esta é uma das questões em que Portugal está na linha da frente em termos internacionais. O líder do meu grupo temático, Nuno Santos, ganhou uma bolsa do European Research Council (ERC) de 2.5 milhões de euros exactamente para estudar o Espaço, outra terras, outros mundos.
Há uma outra missão em que sou co-investigador. É uma missão que está na órbita de Marte e que se chama Mars Express e que é da Agência Espacial Europeia (ESA).
Estou também ligado, sou também co-investigador, a uma outra missão que está a ser desenvolvida e que irá orbitar o planeta Vénus e que se chama EnVision.

Esta missão EnVision tem que objectivos?
O objectivo é estudar se existe vulcanismo activo em Vénus hoje. Esta é uma questão em aberto. E vamos procurar identificar plumas vulcânicas. Como açoriano vou dar-me muito bem neste assunto. O vulcanismo já está nos nossos genes. Tenho que ir umas horas às Furnas para inspirar-me para a missão (sorriso).
Este é o objectivo mais importante da missão. O outro objectivo é estudar a dinâmica da atmosfera no planeta Vénus. Este é um trabalho que já venho fazendo neste momento com dados de outras missões, algumas das quais já acabaram. Por exemplo, estive ligado à missão Vénus Express da Agência Espacial Europeia
Neste momento, sou cientista convidado de uma missão japonesa Akatsuki.
Também faço observações, usando os grandes telescópicos do mundo. Vou muitas vezes ao Chile, observar com o Very Large Telescope (VLT) no deserto do Atacama, Chile. Ou a La Palma (onde houve agora o vulcão) nas ilhas Canárias. É um telescópio que utilizo muitas vezes. Ainda há pouco tempo escrevi um artigo científico com dados de observações que fiz com o telescópio Galileu, em La Palma.
E vou muitas vezes à Big Island, no Havai, para observações no Observatório de MaunaKea. E, a propósito, não resisto em contar-lhe uma peripécia que tem muito a ver com nós, açorianos. Ficamos muito amigos com as pessoas locais, com as que trabalhavam connosco. Basicamente, os astrónomos locais, os técnicos e com as pessoas que fazem a limpeza. Damo-nos bem com toda a gente ao longo da nossa missão. E, então, acabamos lá o nosso projecto, que correu muito bem. Chegamos ao último dia e um grupo de pessoas locais disse-nos que tínhamos de comemorar e fazer uma festa. Estávamos lá já nos escritórios, por debaixo da montanha, e um deles veio ter comigo e disse-me em inglês: “Eu sei que o senhor não conhece isto. Este é um doce típico daqui”. Eu olho para o doce e exclamei que se tratava de malassadas que têm origem nos Açores e foram levadas para lá pelos nossos emigrantes há muitas gerações. Mas isto é fantástico, uma coisa maravilhosa. Quero dizer, estou aqui do outro lado do mundo a comer malassadas como fosse um doce típico local.Claro que respondi que se tratava de um doce típico, mas dos Açores. E eles sabem. Há no Havai muitos descendentes de açorianos com nomes portugueses.
Senti-me em casa no Havai. São ilhas muito bonitas, mas eu prefiro os Açores.

Qual a importância da ESA em Santa Maria?
Há sempre um bocado de lume nestas questões. Como especialista nesta área, devo dizer que fui ainda há pouco tempo ao centro de lançamento dos foguetões, no Japão. O centro fica numa ilha pequena a Sul do Japão que se chama a ilha de Tanogashima, basicamente muito semelhante ao que querem fazer em Santa Maria. E esta ilha é luxuriante, apesar de ter o centro de lançamento de foguetões há mais de 50 anos. A ilha, em termos da natureza, é lindíssima, com uma natureza extremamente pura. Não vi nenhuma consequência negativa em termos da natureza.
Devido às normas de segurança, quando os foguetões são lançados com um pequeno ângulo de modo que ao subirem, saem de cima da ilha. O risco é relativamente pequeno, é muito pequeno mesmo. Falei com familiares de colegas meus, astrofísicos, e as pessoas diziam-me: “A sorte que eu tenho é que o meu filho é engenheiro electrónico e pode trabalhar aqui nesta ilha que é tão pequena. Portanto, o centro de lançamento de foguetões ajudou a segurar os filhos e até os netos dessas famílias que puderam fazer estudos já mais desenvolvidos, e que assim têm a possibilidade fazer um trabalho ao nível dos estudos que fizeram e continuarem a viver na mesma ilha que as suas famílias.
Uma última questão que também gostava de partilhar e que é, na minha opinião, uma história lindíssima. Imagine que a ilha – que é mais pequena que Santa Maria – tem uma coisa incrível na sua história que é: por uma grande coincidência, esta foi a ilha onde há 500 anos chegaram os portugueses ao Japão pela primeira vez. Eu pensei: É incrível, há 500 anos os nossos antepassados chegaram aqui com os ventos que os trouxeram e eu, 500 anos depois, estudo também os ventos mas é noutros planetas e não na Terra.
Mas, voltando à questão concreta de Santa Maria, vejo com muito bons olhos. Entendo que é uma excelente oportunidade. Mas as pessoas locais e da Região devem sempre ser tidas em conta em todos os passos antes de qualquer decisão.
Entendo que se deve partilhar toda a informação com as pessoas. E estas devem decidir em conjunto. Como cidadão, que também tem alguma experiência nesta área, a minha opinião pessoal é que um Centro de Lançamento de Foguetões em Santa Maria pode ser muito positivo. Não vai fazer com que Santa Maria perca nada da sua beleza que tem e da natureza pura que tem. E a ilha pode ganhar com o facto de as famílias conseguirem reter ou atrair jovens que queiram seguir também uma componente mais tecnológica.
Pelo que eu vi na ilha de Tanogashima, não há a imagem de uma zona industrial enorme em que toda a ilha é afectada. Não se trata disso. É uma zona muito localizada onde chegam os foguetes desmontados que são montados lá e são lançados. Mas não é nenhuma infra-estrutura industrial que fosse desfigurar a ilha.
Só para finalizar, porque entendo que este é um assunto muito sério e, se calhar, nem sempre foi bem feito, entendo que as pessoas da ilha devem ter sempre a informação toda, todas as evidências e todos os factos. Em todos os estudos, os locais devem ser ouvidos e os Açores devem ter uma palavra final sobre este assunto.

O Porto Espacial de Santa Maria deve ser uma infra-estrutura para a qual a Região deve avançar rapidamente?...
Entendo que não se devem saltar etapas. Deve-se ir nem a correr nem a passo. Digo é que se deve ir a passo de marcha, aquela modalidade olímpica da marcha. Não tirar os pés do chão, e realizar todos os estudos de impacto ambiental, para as pessoas terem a certeza de estarem salvaguardadas e seguras, para terem a certeza que não há problemas.
Entendo que não se deve ir a correr. Deve avançar-se com cuidado mais em termos sociais para os açorianos gostarem, quererem e sentirem que é um projecto seu. Atrevo-me a dizer que é a nossa casa – e eu também sou açoriano – e na nossa casa devemos sempre ter uma palavra a dizer.
Estando as pessoas de acordo, é bom que as coisas avancem porque entendo que o Centro é uma mais-valia que não tem um impacto negativo. Eu já ouvi alguns profetas do apocalipse dizerem que “isto vai ser o fim do mundo, que é uma coisa horrível”. Eu não vi nada disso na ilha japonesa de Tanogashima... antes pelo contrário. Portanto, sou favorável ao projecto.

Olhando para trás, quais os momentos mais relevantes da sua acção enquanto investigador?
Uma das questões em que contribui de uma forma mais directa: Fiz, pela primeira vez, a medição do vento meridional em todo o planeta Vénus. Foi uma descoberta que até poderia ter um nome açoriano (sorriso). Outra questão que também tem a ver com a minha contribuição mais directa tem a ver com o estudo da dinâmica no planeta Júpiter e em que utilizamos, pela primeira vez, um método que foi desenvolvido e aperfeiçoado por mim, que se chama método de velocimetria Doppler.
Uma das outras questões em que estive ligado foi no estudo da exosfera, que é uma atmosfera muito pouco densa em Plutão. Nós estivemos a fazer observações na altura em que Plutão passa mais perto do Sol, nessa altura há uma sublimação importante dos gelos de Nitrogénio. E forma-se então uma atmosfera que não se mantém ao longo do tempo. Assim, tivemos a oportunidade de fazer um estudo inovador em relação a isto.
Há outra história interessante sobre o trânsito de Vénus, que é quando Vénus passa em frente ao Sol visto a partir da Terra. Do nosso ponto de vista, vemos uma bolinha preta a passar em frente ao Sol. Estivemos a fazer uma investigação muito profunda, na altura, à escala mundial com telescópios que foram fabricados exactamente para aquele dia. Eu estive na Índia, a fazer a observação do trânsito a Vénus.
E a propósito, vou contar uma história a que os leitores poderão achar piada. Estava quase a chegar a Monção à Índia (que chega quase como se fora uma tromba de água) e estava a fazer as observações num observatório que fica no meio de um lago no Rajastão (Udaipur). E, então, fiz uma aposta com um colega meu: Se nós fizéssemos a observação bem-feita antes de chegar a monção, tínhamos que levar o telescópio para cima de um elefante. E, não é que tivemos sorte. Conseguimos fazer a observação perfeita e, no mesmo dia à tarde, chegou a Monção e caiu-nos o céu em cima da cabeça. Claro que um dia depois, o prometido é devido. E lá levei o telescópio para cima do elefante. Claro que esta imagem correu o mundo. Conclusão, a página de abertura da NASA (Agência Espacial Norte Americana) dois dias depois do trânsito de Vénus, tinha a toda a largura esta minha fotografia com um açoriano em cima de um elefante com um telescópio. A minha ciência já esteve na NASA mas nunca com este destaque na abertura da página da NASA. Não foi a ciência, mas foi a doidice (risos). Mas pronto!

A partir de amanhã vai estar em São Miguel e vai fazer conferências em escolas da ilha. Vai dizer o quê?
As conferências vão ser um pouco diferentes. Vou adaptar, obviamente, os temas à idade e ao currículo dos alunos que me vão ouvir. Eu vou partilhar com eles que Portugal pertence à  Agência Espacial Europeia e ao Observatório Europeu do Sul. E estas ferramentas estão disponíveis para qualquer aluno que tenha vontade de singrar na Engenharia, na Electrónica, na Física, na Química, na matemática, etc.
Vou-lhes mostrar também alguma da investigação que nós fazemos e também vou falar sobre porque é que Marte, Vénus e a Terra são tão diferentes uns dos outros, vou falar sobre a forma como fazemos a investigação sobre se, por acaso, há vida em outros planetas. E vou também falar dos exoplanetas, dos tais outros planetas que orbitam em outras estrelas, os tais outros mundos. E vou partilhar um pouco sobre como fazemos este trabalho e como preparamos missões espaciais.

Astrofísico açoriano Pedro Machado
vai proferir esta semana cinco
conferências em São Miguel

 O astronauta Danny Oliver, em missão na Estação Espacial Internacional) vai proferir uma conferência pelas 10h15 de Segunda-feira na Escola Secundária da Lagoa, destinada a alunos do ensino secundário. Este evento é promovido pelo Governo Regional dos Açores e presidido pelo Presidente do Governo, José Manuel Bolieiro.
Na Terça-feira, pelas 10h15, o comandante João Vaz da ANACOM-Açores, vai proferir uma conferência na Escola Secundária da Lagoa destinada a alunos do ensino secundário intitulada “Um Dia Sem Satélites’. O evento é promovido pela Secretaria da Educação e Cultura e presidida pela tutelar, Sofia Ribeiro.
Durante a tarde de Terça-feira (Dia Internacional do Sol), será feita no pátio da Escola Secundária da Lagoa uma observação solar. Em simultâneo, vai realizar-se o evento ‘Geocachig ‘Community Cellebration’, evento promovido pelo OASA.
Pelas 20 horas de Terça-feira, o austronauta Danny Oliver vai proferir a conferência ‘Viver e trabalhar no Espaço’, na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, presidida pelo Presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro.
Na Quarta-feira, pelas 10h15, o austronauta Danny Olivier e Pedro Garcia, da OASA vão proferir as conferências ‘Tudo o que tu queres saber sobre o Espaço mas tinhas medo de perguntar…” e ‘Estação Espacial Internacional: Da ficção passada à esperança futura”.
Pelas 10h15 de 5ª feira, 5 de Maio, o astrofísico açoriano Pedro Machado vai proferir uma conferência na Escola Secundária Antero Quental sobre ‘Realidade e ficção: espaço no século XIS’. Este evento é promovido pela Escola Secundária Antero Quental.
A actividade principal de Pedro Mota Machado é focada nas ciências planetárias, mais concretamente no estudo da dinâmica atmosférica dos planetas do Sistema Solar.
Pelas 14h30 de Quinta-feira, Pedro Machado vai proferir uma conferência na Escola Secundária Domingos Rebelo intitulada ‘Daqui observa-se a Lua’.
No mesmo dia, pelas 21h00, Pedro Machado que é investigador do Observatório Astronómico de Lisboa e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, vai proferir uma conferência no Centro Natália Correia, em Ponta Delgada, intitulada ‘Planetas: do Sistema Solar aos Exoplanetas”, uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Pelas 14h00 de Sexta-feira, Pedro Machado vai proferir uma conferência na Escola Secundária das Laranjeiras sobre ‘Astronomia e Astrofísica”.
Pelas 21h00 do mesmo dia o astrofísico de origem açoriana vai falar no Cine Teatro da Lagoa sobre ‘Espaço: a Próxima Fronteira, um evento promovido pela Câmara Municipal da Lagoa.
Durante as primeiras duas semanas de Maio vai realizar-se a Feira da Ciência na Escola Secundária da Lagoa.
Todas estas actividades inserem-se na Semana ISU – In the search off the unterpain, promovida pelo Clube Geocaching da Escola Secundária da Lagoa.

              

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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