Jovem engenheiro mecânico açoriano seleccionado entre 1.200 candidaturas para estágio internacional

Henrique Vieira da Silva tem 24 anos e é natural da freguesia da Matriz, na Ribeira Grande, onde estudou e viveu até ingressar no ensino superior. Exerce, neste momento, a profissão de engenheiro mecânico na indústria automóvel através de um estágio internacional no Brasil, integrando a equipa da PTC Group, em Belo Horizonte.
A inclinação para uma profissão ligada às engenharias, conforme conta, existia desde sempre, dada a sua curiosidade para tentar entender o funcionamento das coisas. “Desde sempre que senti curiosidade em saber o porquê e como as coisas realmente funcionam. No nosso dia-a-dia tudo o que vemos teve uma origem e sofreu sucessivas transformações até chegar às nossas mãos. Porém, o processo não é assim tão simples, existindo todo um ciclo de vida por trás que realmente me fascina. No início, considerei outras hipóteses dentro das ciências exactas, mas rapidamente optei por colocar Engenharia Mecânica em todas as minhas opções de acesso ao ensino superior”, conta o jovem.
Estudar fora dos Açores foi sempre uma opção para Henrique Vieira da Silva e, tendo a oportunidade de o fazer, “não hesitou”, conta, considerando que a bagagem que se leva da experiência de estudar longe de casa é algo que para além de acompanhar quem o faz “para a vida”, obriga também a que se desenvolvam outras dimensões da vida adulta, como a gestão das finanças, dos trabalhos domésticos e das relações interpessoais. Por outro lado, existem – claro – os pontos menos positivos de estar fora da terra natal, tais como perder eventos familiares importantes e as dificuldades de integração num novo ambiente, sejam novos amigos, novos colegas de trabalho ou uma nova cultura.
Embora os Açores tenham sido também uma opção, Henrique Vieira da Silva acabaria por entrar na Universidade Nova de Lisboa, no curso de Engenharia Mecânica, e embora esta academia tenha sido a sua terceira opção, adianta que “se pudesse voltar atrás teria investigado um pouco mais o leque de oferta das diferentes instituições e colocado a Nova em primeiro lugar”, uma vez que sentiu “falta de orientação da escola” aquando do salto do secundário para o universitário.
Ainda assim, depois de ter ingressado na universidade, conseguiu notas que lhe permitiram ser o segundo melhor aluno da sua turma, algo que alcançou por “saber quais os parâmetros que o mercado de trabalho e a própria universidade exigiam para esta área”, tendo também sido motivado pelas “portas” que as notas acima de 16 valores poderiam abrir, acabando, por exemplo por ser monitor de estudantes na universidade, por dar apoio aos estudantes do mesmo curso nas actividades de laboratório e por ser assistente convidado nas aulas práticas.
Ainda na universidade, acabaria também por ser Presidente, Vice-presidente e secretário do Núcleo de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia, algo que relembra como “uma das experiências mais enriquecedoras que teve” e aquela que “mais prazer lhe deu”, considerando que este era um núcleo responsável por criar eventos, palestras, workshops, visitas de estudo ou concursos que envolviam tanto a engenharia como causas sociais, permitindo “uma maior ligação entre os alunos e a indústria” através de empresas como a Boeing, a Embraer, a Rolls-Royce ou a Vestas.
Terminado o mestrado em Engenharia Mecânica, na mesma universidade, em Novembro de 2021, e aguçado o gosto de ter uma “experiência internacional”, Henrique Vieira da Silva viria a ser incentivado pela namorada a candidatar-se ao estágio internacional promovido pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, com a duração de seis meses, onde agora exerce o cargo de projectista de produto na PTC Group.
No que diz respeito ao processo de recrutamento, Henrique Vieira da Silva realça que este teve a duração de cinco meses, sendo composto por duas etapas eliminatórias que resultaram num “processo moroso mas compensador”, e sendo o único açoriano entre um total de 200 estagiários seleccionados entre 1.200 candidatos ao programa, o engenheiro mecânico realça que esta é uma oportunidade que lhe foi dada para “levar o nome dos Açores mais longe e poder inspirar futuros candidatos”, tendo também em conta que uma das missões deste programa de estágio passa, precisamente, por promover o país de onde partem os estagiários e contribuir para uma globalização da economia portuguesa.
Porém, quando se candidatou a este estágio internacional estava longe de pensar que iria acabar por ser aceite no Brasil. Ao receber a notícia, relembra, ficou “estupefacto” e confessa que demorou alguns dias a “digerir” a informação por considerar que tem “um coração muito europeu”.
Embora esteja a viver no Brasil há pouco tempo, desde Março, mais precisamente, já passou no país tempo suficiente para perceber que o Brasil “é muito mais” do que as notícias negativas que são difundidas pelos órgãos de comunicação social locais e globais.
“O Brasil possui um povo vivo, com sangue quente, grato pela vida e com uma alegria contagiante. Rico de tradições, alimentos, estilos musicais, possui ainda igrejas magníficas, museus históricos, uma culinária invejável, paisagens de cortar a respiração e um inconfundível “jeitinho brasileiro” que é o apogeu do “desenrasca português”, considera, afirmando também que esta é uma experiência que lhe permitiu “crescer muito, sobretudo na relação pessoal com os outros, na forma de dizer as coisas e de abordar as diferentes situações tanto no trabalho como na vida social”.
A nível profissional, sendo esta uma empresa que “presta serviços de Engenharia, Consultoria, Tecnologias da Informação com uma abordagem chave-na-mão e ainda possui uma Academia de Formação”, o engenheiro mecânico açoriano salienta que se encontra a trabalhar numa “indústria muito competitiva, exigente e sem grande margem para erro” onde consegue “ver todas as diferentes etapas de fabricação de um carro e o grau de precisão com que tal é feito”.
Um dos desafios que teve que encarar foi a necessidade de trabalhar em open space, uma vez que, até ao momento, estava habituado a estudar em silêncio. Outro desafio, salienta, é o da comunicação, pois “embora todos falem português, os sotaques são muito diferentes, e o ribeiragrandense não lhes é muito compreensivo”.
Inclusive, conta que já várias pessoas questionaram o país de onde é natural, juntando-se à lista os países de Argentina, França e Itália. No que diz respeito às alcunhas que já ganhou “em tom de brincadeira”, Henrique Vieira da Silva refere “Gringo (por ser estrangeiro e falar grego” e “Portuga”.
Quanto à questão da emigração de jovens açorianos altamente qualificados, refere que “uma das razões pela qual muitos profissionais saem da Região, prende-se com as oportunidades que não teriam nos Açores. Por exemplo, com Engenharia Mecânica poderia trabalhar na Região com energias renováveis, tratamento de resíduos, metalúrgica, mas dificilmente na área naval, aeronáutica, gás e petróleo, metrologia, robótica ou automação. O facto de também sermos ilhas encarece e dificulta a exportação de produtos com matéria-prima que já tivemos que importar, dificultando a entrada das empresas no mercado nacional e internacional. É árduo a Região competir com instituições de renome internacional, laboratórios de investigação altamente equipados e salários competitivos”.
Por outro lado, considera que os Açores ficam a ganhar “quando estes jovens ficam, mas também quando regressam com ainda mais experiência e prontos para investir na Região”, considerando por isso que “A “fuga” temporária acaba por compensar a ausência por um certo tempo”.
Na sua família, adianta, emigrar ou ficar nos Açores foi sempre “algo muito vivido”, salientando que apesar de o irmão ter optado por emigrar para a Suécia, já no caso da irmã, esta acabou por ficar a viver em São Miguel.
No seu caso pessoal, salienta que, no futuro, gostaria de se envolver e de trabalhar no sector aeronáutico “que está em franco crescimento em Portugal” e, por esse motivo, não pretende ainda regressar à Região quando finalizado este estágio: “Pelos contactos que espero criar, anseio ainda explorar a Europa ou Portugal continental. Pela idade que tenho esta é a altura ideal para estas novas aventuras e desafios”.
Por outro lado, salienta também a vontade de, mais tarde, “investir na Região e criar património”, depois de passar pela difícil tarefa de “convencer a namorada a viver nos Açores”, sendo esta natural da Madeira, diz Henrique, entre risos.
 

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