“O desemprego, as carências habitacionais de muitas famílias e o absentismo escolar são problemas que carecem da nossa atenção”

Correio dos Açores: A Lagoa assinala Quarta-feira [hoje, 11 de Abril] o seu 6ª aniversário de elevação a cidade, feriado municipal. Que aspectos positivos salienta de a Lagoa se ter tornado cidade? Cristina Calisto (Presidente da Câmara Municipal de Lagoa): A elevação da Lagoa a cidade é um estatuto que conquistámos que dá prestígio à Lagoa e que mostra igualmente a sua evolução, conseguindo atingir bons patamares em diferentes áreas que definiram a sua elevação a cidade. O certo é que, desde que ganhou este estatuto, a Lagoa tem mostrado evolução em todas as áreas ditas estruturais para o seu desenvolvimento, o que mostra também a nossa política de actuação e responsabilidade em querer que a mesma se torne, no futuro, numa grande cidade. Podemos verificar evolução em todas as áreas ditas estratégicas para o desenvolvimento: económica, social, cultural, educacional, desportiva e turística de uma forma que procuramos que seja integral e concertada. Nesta matéria, destacamos a importância do Tecnoparque, que mesmo sendo a obra mais criticada dos últimos tempos, será também a obra que marcará uma nova fase de desenvolvimento para a cidade. Aliás, É já um elemento de diferenciação da cidade com a instalação do Parque de Ciência e Tecnologia de S. Miguel, com o Nonagon. Uma estrutura que está de porta aberta, com a sua lotação preenchida e que representa postos de trabalho no concelho. Trata-se de um espaço privilegiado para grandes investimentos e para projectos de dimensão internacional e nacional que diria que vão revolucionar esta cidade que, ainda que pequena e nova, tem enorme potencial dada a sua localização estratégica. Não menos importante foi o crescimento habitacional também verificado, onde licenciámos, só nos últimos dois anos, mais de 200 habitações, o que claramente mostra que a Lagoa é um território aprazível de se viver e, claramente, numa área que consideramos estrutural para o desenvolvimento do concelho, a económica e a turística, verificamos que foram atribuídas, também nos últimos dois anos, mais de 70 licenças para alojamento local e em termos de novos investimentos para abertura de novas empresas foram concedidas mais de 30 licenças. Que medidas estão a ser adoptadas pela Câmara para a Lagoa ser considerada uma ‘Cidade Inteligente’? Nesta matéria, a modernização administrativa assume-se como vector da estratégia de desenvolvimento de uma Lagoa que se quer Smart City, orientada por objectivos de transparência, simplificação, desmaterialização, eficiência, celeridade processual e redução de custos, e assente numa lógica de proximidade entre o município e os munícipes. Para já foi aprovada a candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Lagoa ao PO Açores 2020 no âmbito do Projecto Lagoa Smart City - Modernização Administrativa no montante global de 1,037 milhões de euros. Trata-se de um projeto que visa potenciar uma administração autárquica de forma mais inteligente e mais próxima dos seus munícipes, através da utilização de sistemas e tecnologias da informação, comunicação e soluções. Ainda neste âmbito, queremos qualificar o atendimento dos serviços públicos e a disponibilização online dos mesmos (webservices), quer no portal da autarquia quer através de aplicação móvel, bem como potenciar a conectividade e ciberinclusão, nomeadamente através da disponibilização de wifi em espaços públicos e a qualificação dos espaços TIC. De um modo, esta nossa aposta mostra que queremos um serviço público mais eficiente e eficaz, portanto mais inteligente em todas as suas dimensões, potenciando a qualidade de vida dos nossos munícipes, bem como na competitividade e inovação empresarial. Apostaremos também no turismo electrónico, nomeadamente através da conectividade e interactividade, com vista à promoção e potenciação do turismo, com recurso às TIC, considerando este um dos vectores motrizes de desenvolvimento socioeconómico. A sustentabilidade ambiental é também um dos desígnios de Lagoa Smart City, com especial enfoque no domínio da eficiência energética, sendo que se encontra em desenvolvimento o plano para a sua promoção e implementação nos edifícios e espaços públicos do município, bem como no domínio da mobilidade sustentável, tendo sido já adquiridos pelo município dois veículos eléctricos. No âmbito cultural, destacamos a futura disponibilização de conteúdos online e serviços interactivos com vista a divulgar as diversas actividades culturais, bem como o património cultural e museológico do concelho, designadamente visitas interactivas em museus, implementação da solução electrónica para gestão de museus e biblioteca municipal, e colocação de totens com QR code. Já anunciou que um empresário açor-americano de Bristol vem no Verão à Lagoa com a intenção de construir uma unidade hoteleira no concelho. Têm surgido outras intenções de investimento na hotelaria? Quais? Que perfil de unidades hoteleiras interessa mais à Lagoa? Começo por corrigir, salientado que existe intenção, não de um, mas antes de dois empresários que querem investir no ramo turístico na Lagoa e não necessária e exclusivamente na construção de uma unidade hoteleira. Qualquer tipo de investimento na hotelaria é de interesse para o nosso concelho, precisamente, numa altura em que o turismo é preponderante para o crescimento da economia, todo o perfil de empreendimento turístico é bem-vindo, desde o hotel de cidade, aos alojamentos locais, e tenho a certeza que haverá novidades neste âmbito para a Lagoa no decorrer deste ano e que serão anunciadas atempadamente. Já disse que o sector das pescas e o surgimento de empresas de whale watching na Lagoa dependem muito da ampliação do Porto dos Carneiros. Qual a urgência que dá a este projecto? A ampliação do Porto dos Carneiros é uma obra há muito reivindicada e que aguardamos, com esperança, que seja concretizada no próximo quadro comunitário. É uma obra necessária na Lagoa, por um lado, por verificarmos que o sector de pescas continua a ser um dos sectores económicos estruturantes do concelho, onde a maioria dos armadores e pescadores lagoenses são jovens com grande capacidade de empreendedorismo, querendo investir na sua actividade, mas para tal é necessário ter as condições estruturantes para que possam investir. Por outro lado, o Porto dos Carneiros, para além de histórico, é também uma zona portuária estratégica para o desenvolvimento turístico. É um dos portos que tem uma característica privilegiada: o contacto directo com uma zona habitacional, com a população, e onde também se localizam vários restaurantes e cafés, bem como o Complexo Municipal de Piscinas, uma das zonas balneares mais procuradas por turistas e com uma forte afluência de pessoas no Verão. Um facto que é, claramente, um potencial para o turismo e onde já começam a aparecer a possibilidade de realização de turismo de pesca. Aliás, sabemos que alguns armadores e pescadores já estão a solicitar licenças para a realização de actividade turística através dos seus barcos e, nesta medida, o desenvolvimento de empresas de whale watching na Lagoa também depende desta obra, que consideramos ser uma obra importante para aquilo que se pretende que a Lagoa seja no futuro. A Câmara da Lagoa recolheu contributos dos munícipes para o projecto de requalificação da frente marítima de Santa Cruz, um investimento estimado em mais de um milhão de euros e reclamado há muitos anos. Qual o ponto da situação? Em relação à requalificação da frente marítima de Santa Cruz, que prevê a valorização do Portinho de S. Pedro à baía de Santa Cruz, a candidatura apresentada a fundos comunitários foi indeferida. No entanto, para aquela a zona já existem contactos de investidores privados, principalmente pela importância com que se reveste aquele espaço do ponto de vista turístico. Um facto que mostra as potencialidades daquela zona e que acreditamos que, a médio prazo, em virtude destes investimentos, trará uma nova face de desenvolvimento turístico e económico aquele local e ao concelho de Lagoa. Anunciou que o projecto da ciclovia no Cruzeiro da Lagoa vai avançar este ano. Para quando toda a orla marítima de Rosário e Santa Cruz ficará abrangida por uma intervenção camarária assente na necessidade da mobilidade e num ambiente sustentável? Esperamos a curto prazo ver concretizado este propósito, obviamente que este é um dos objectivos deste executivo e para já acabamos de dar um passo: vemos aprovada a candidatura para a construção da ciclovia da Cidade de Lagoa, entre o Portinho de S. Pedro e o Largo do Cruzeiro, no âmbito do programa Açores 2020, num valor que orça cerca de 908 mil euros. Trata-se de um projecto que vem a contribuir para a mobilidade urbana sustentável, tendo como principal objectivo criar uma alternativa ao transporte rodoviário tradicional no centro da cidade de Lagoa, numa óptica de redução de carbono pelo uso reduzido do automóvel, e também de promoção de estilos de vida. Trata-se de uma intervenção que abrangerá a construção de uma plataforma com pista partilhada bidirecional enquadrada no conceito de Ecopista; abrange construção e disponibilização de 14 lugares de estacionamento, bem como colocação de iluminação eficiente com recurso a LED, numa óptica de eficiência energética e sustentabilidade. No Dia Mundial da Actividade Física e do Dia Mundial da Saúde, a autarquia lagoense apresentou uma nova imagem do Desporto do Município. Que objectivos pretendem atingir? O Desporto é também uma referência no nosso concelho e a nova imagem - 0/947, que representa uma lógica métrica, desporto alargado até o pico mais alto do município, Pico da Barrosa, 947 m, traduz aquilo que o actual Executivo quer nesta área: dinamismo, diferença, conciliação, educação e promoção da saúde num concelho onde a taxa de participação desportiva é de 8,13%, 1174 participantes entre modalidades colectivas e individuais. Mais do que uma imagem, pretendemos que seja um símbolo aglutinador representativo de uma integração ideológica dos clubes, respeitando as diferenças e identidades de cada um, num propósito cooperativo e colaborativo, numa verdadeira postura solidária em que todos pensam em conjunto para tirar o melhor de cada um, nas diferentes modalidades desportivas. O propósito é promover e fomentar essa partilha solidária, entre clubes e associações, do saber e das infra-estruturas, procurando sempre primeiro o melhor para os jovens e depois o melhor para os clubes. É, aliás, nesta medida, que continuaremos a apoiar o desporto no contexto associativo, os clubes escolares e também a prática informal, através do apoio à sessão individual do desporto pela instalação de circuitos de manutenção, alargamento da rede de trilhos pedestres, construção da ciclovia e pela oferta diversificada de actividades no Aquafit, bem como fomentar e apoiar a realização de eventos desportivos que tragam saber, competitividade e divulgação à Lagoa. Ao nível dos recursos humanos, a Lagoa está a trabalhar para integrar os precários? Muito antes de sair uma lei com vista à regularização dos precários, já a Câmara Municipal tinha tomado medidas neste sentido pelo que contratámos recursos humanos que são necessários para serviços da autarquia em Julho de 2017. No concelho, ainda há alguns sinais de pobreza, motivado pela falta de emprego. Qual tem sido a contribuição da autarquia para minorar as dificuldades das famílias? Que programa tem em curso? Considero que o desemprego, as carências habitacionais de muitas famílias e o absentismo escolar são, de facto, os problemas que carecem da nossa atenção actualmente. Ainda há habitações que não usufruem de condições condignas para albergar uma família e, neste âmbito, a Câmara Municipal vai continuar a realizar o trabalho que tem feito, no âmbito do regulamento da habitação degradada, casa a casa, verificando as necessidades e dar os devidos apoios a quem verdadeiramente necessita, justificando um investimento anual orçado em 300 mil euros para o regulamento municipal de habitação degradada. Ao nível do desemprego, percepcionamos que o problema tem tido uma atenuação, mas não posso dissociar esse problema das questões da escolaridade que, no nosso concelho, apresenta ainda resultados que ficam aquém do desejado. Uma situação para a qual temos trabalhado e que temos tido especial enfoque por via do projectos como o Prosucesso e que basicamente pretendem reverter essa situação. Criar um atendimento personalizado ao investidor, gerar confiança a esses e garantir sigilo e celeridade nos processos de investimentos empresariais são objectivos que estou certa que conduzirão à criação de mais postos de trabalho na Lagoa. Continua a apostar na Educação como meio para que os menos favorecidos possam ter uma melhor integração social. Como tem sido a resposta da população e que projectos estão em curso para desviar os mais jovens dos flagelos que a sociedade oferece? A Educação é uma área preponderante porque é promotora para qualquer sociedade que se quer desenvolvida. Neste sentido, e como já referi, para combater um dos nossos principais problemas sociais, o absentismo escolar, continuaremos a apostar fortemente nesta área transversal também à cultura e ao desporto. Nesta medida, o Prosucesso enquanto ferramenta de trabalho deverá ter continuidade para colaborar no combate ao absentismo escolar, bem como continuaremos a realizar e a acolher iniciativas que envolvem outros sectores como o desporto, a cultura e a juventude onde todos trabalhemos conjuntamente para superar esse objectivo. Em termos de juventude, destaco o orçamento participativo jovem, claramente um instrumento que estimula a uma cidadania activa da juventude lagoense e no qual, este ano, contámos com uma significativa participação. No seu mandato, quais são as metas a atingir? Como se pode perceber ao longo desta entrevista, a Lagoa tem um rumo traçado e este executivo apresenta um projecto concertado que visa ao progresso, crescimento e desenvolvimento do concelho de Lagoa de forma integrada. Neste mandato, os nossos compromissos com a Lagoa vão continuar a estar associados às pessoas, às famílias e às empresas. Continuaremos a dar prioridade a quem se encontra em situação de maior fragilidade socioeconómica, com a manutenção e reforço das medidas de apoio já disponíveis, de forma a contribuir para uma menor taxa da pobreza existente ainda no concelho. Paralelamente, há uma rota de futuro que incita à aposta no desenvolvimento económico e, por ser matéria de sobeja importância, já instalamos um Gabinete de Desenvolvimento Económico para atendimento aos empresários, onde também pretendemos criar um regulamento de apoios à revitalização dos centros urbanos e continuar a colaborar com as empresas de base tecnológica e científica para sua instalação no Tecnoparque, com destaque para o início da construção do Hospital Internacional dos Açores que, não tenho duvidas, em 2020 trará uma nova imagem de desenvolvimento da cidade, trazendo mais postos de trabalho, mais crescimento económico numa transversalidade que vai desde a área social, à cultura, à educação e ao desporto, onde o Turismo será também uma área crucial que queremos ver bem desenvolvida na Lagoa neste mandato. Temos bons indicadores de uma economia em crescimento e, nesta matéria, a Lagoa tem de continuar a potenciar as suas riquezas a quem nos visita e por isso há que promover novos roteiros culturais, desportivos, gastronómicos e de natureza; trabalhar na operacionalização do “Museu da Lagoa”; abrir a Casa da Montanha que será certamente um ponto estratégico para dar a conhecer os nossos trilhos pedestres, bem como a Lagoa e os Açores. Não descuraremos o cuidado na valorização dos recursos naturais existentes e da mobilidade e qualidade de vida sustentável, cujo nosso grande projecto é a valorização da frente marítima da Lagoa, que prevemos também ver iniciado este mandato, com construção da ciclovia entre o Cruzeiro e Portinho de S. Pedro e que virá proporcionar aos lagoenses, e não só, um acesso pedonal e uma ciclovia que potencie e valorize parte da nossa costa como um espaço de lazer e de prática de vida saudável. Igualmente, espero, neste mandato e tudo caminha para isso, colocar a Lagoa como verdadeira Smart City, colocando a tecnologia ao serviço das pessoas, ao serviço do ambiente, ao serviço do cidadão e ao serviço do turista. Como é ser Presidente da Lagoa? Desafiante e gratificante. São funções que assumo com determinação e com total responsabilidade e ciente que, quando assumimos a liderança de qualquer projecto, damos sempre o nosso cunho pessoal, e assumimos o nosso compromisso de trabalhar em prol do bem-estar dos outros e em prol do desenvolvimento de um concelho, e isto pode e deve compensar todas as dificuldades que, por vezes, sentimos.
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Autor: N.C.

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