Investigação estima que 150 açorianos tenham feito parte do Corpo Expedicionário Português na I Grande Guerra Mundial

De acordo com as investigações que têm sido levadas a cabo por Sérgio Rezendes, estima-se que o número de açorianos que fizeram parte do Corpo Expedicionário Português no período correspondente à I Grande Guerra Mundial está situado entre os 100 e os 150 militares, avançou o historiador à margem das comemorações associadas ao Dia dos Combatentes e ao centenário da Batalha de La Lys, mais concretamente após a reposição da placa de identificação toponímica da Rua dos Combatentes da Grande Guerra, junto à avenida litoral de Ponta Delgada. Contudo, para o historiador açoriano que prevê terminar esta investigação dentro de dois ou três anos, este é um número que poderá vir a aumentar no futuro, uma vez que não está ainda quantificado o número de militares açorianos que se estabeleceram, em período de guerra, em países como Moçambique e Angola, onde existiu também um elevado número de mortes de militares portugueses. À margem das comemorações, Sérgio Rezendes apontou que “das poucas memórias que restam dos açorianos na Grande Guerra” foi dado grande ênfase, principalmente, aos Oficiais que fizeram parte deste conflito, referindo que, nos Açores, “tivemos muitos filhos de famílias notáveis das nossas cidades e das nossas ilhas que foram integrados no Corpo Expedicionário Português” e que, na altura, a tendência era a de “colocar oficiais que não eram da mesma zona de origem dos soldados”, pelo que “fazia sentido que alguns desses oficiais fossem dos Açores e estivessem a comandar homens que não eram açorianos”, situação que também acontecia nos Açores com a chegada de comandantes que vinham do continente português. Na investigação em curso pelo historiador, inserida num movimento nacional que pretende recuperar um grande número de memórias de guerra, segundo apontou Sérgio Rezendes, “o que se destaca é o facto de começarmos a saber mais sobre os Praças e sobre os Sargentos, muitos deles voluntários e outros uma espécie de voluntários à força”, uma vez que “dentro do espírito militar da época, os soldados indisciplinados poderiam dar entrada em estabelecimentos prisionais” que se situavam fora das ilhas dos Açores, nomeadamente em Portugal continental ou noutros países. Foi então “a partir daí que alguns soldados foram parar ao norte de França”, numa tentativa de disciplinar estes militares, salientou o historiador durante o seu discurso alusivo à comemoração desta data, referindo ainda que também nos Açores temos “algumas dessas situações de soldados mais indisciplinados que tiveram que, à força, integrar o Corpo Expedicionário Português no norte de França”, originando que os soldados açorianos, apesar de não terem sido mobilizados em larga escala, acabassem por integrar o exército e “cumprissem o seu papel”, originando a reposição da referida placa toponímica. Na ocasião, Sérgio Rezendes assinalou também que esta “placa que se perdeu no tempo e que agora volta a ser colocada no sítio” correspondia, até à década de 50, a uma das “zonas mais nobres da cidade” onde se assistia às cargas e descargas do porto primitivo de Ponta Delgada perto do Forte de São Brás, e onde se destacavam os edifícios orientados para a antiga Capitania do Porto, perto ainda de onde se desenvolviam as principais actividades económicas do centro de Ponta Delgada, à semelhança do que ainda hoje acontece, e é neste sentido que o historiador considerou ainda que esta é “a recuperação da própria memória da cidade de Ponta Delgada”. Para o Presidente da Delegação da Liga dos Combatentes, Manuel Cruz Marques esta comemoração é um “exemplo de cidadania” salientando que “Nós, combatentes do Ultra-mar e das operações de paz, somos os primeiros a compreender o sacrifício daqueles que se debateram na I Guerra Mundial, na Europa, na África, no mar e no ar”, referindo ainda que “embora os Açores não tenham mobilizado para a guerra unidades constituídas, muitos dos seus Oficiais, Sargentos e Praças nomeados a voluntários nela participaram e merecem aqui serem recordados por terem defendido com valentia e vigor os interesses da Mãe-Pátria”. Por seu turno, José Manuel Bolieiro referiu aos jornalistas que esta placa toponímica é, acima de tudo, “simbólica para a cidade” porque homenageia os combatentes e honra uma “geração presente que sabe resgatar na sua memória colectiva os momentos que na nossa história e na nossa cidade evocam por merecimento próprio momentos e ocasiões de valor heróico do nosso povo”, tendo ainda considerado, à margem das celebrações que ocorreram no centro da cidade que “o antigo combatente é, no caso da participação das guerras mundiais, uma pessoa que nos honra e nos valoriza na concepção da vida”. A Batalha de La Lys De acordo com Sérgio Rezendes, aquando das comemorações associadas ao centenário da Batalha de La Lys realizadas em Ponta Delgada, considerado como “num curto espaço de tempo a situação mais complexa que o Exército Português viveu na I Guerra Mundial”, esta não deve ser vista como uma vitória, mas sim como uma “derrota honrada”, salientando que os militares portugueses envolvidos no conflito “não estavam à espera do que lhes aconteceu”. “Estamos a falar de camponeses que foram chamados ao serviço militar numa primeira república polémica, pois cada vez mais a moderna historiografia aponta para o período entre 1910 e 1926 como tendo uma guerra civil iminente. Esteve para acontecer durante diversos momentos mas nunca chegou a existir um rastilho que levasse à guerra civil. Houve várias tentativas, inclusive nos Açores, mas dentro dessa instabilidade Portugal entrou na guerra e a situação divide-se, incluindo em Ponta Delgada”, referiu Sérgio Rezendes. De acordo com os registos históricos, nesse período da história portuguesa, “a república está profundamente dividida e entra na guerra para defender uma série de interesses, entre eles as colónias que estavam quase que a saque internacional e estes camponeses são recolhidos por todo o país”, explica o historiador, referindo que foi então na madrugada de 9 de Abril de 1918, após a revolta bolchevique em 1917, que “a frente russa termina e os alemães tiveram a possibilidade de mudar 4 milhões de soldados dessa frente russa para a frente Oeste”, levando a que “ao reorganizar o dispositivo começassem a calcular qual seria a zona mais vulnerável e lembraram-se logo dos portugueses”. Na altura, considera-se que os soldados portugueses estavam “esquecidos pela sua própria república”, tendo em conta que estes militares viviam em trincheiras e conviviam diariamente com subnutrição, más condições de alojamento e, em suma, com a morte, levando a que “estes soldados mal equipados, mal fardados e mal alimentados acabassem por sofrer o choque de frente de uma linha de combate que se estendia até aproximadamente 12 quilómetros e acabassem por receber cerca de 1,4 milhões de granadas disparadas durante quatro horas e meia a partir de 1.500 bocas-de-fogo”. No final, os militares portugueses, incluindo os açorianos que participaram na Batalha de La Lys, foram “apanhados de tal maneira de surpresa que houve uns que combateram, houve outros que fugiram e houve outros que morreram”, refere o historiador. “Estamos a falar de cerca de oito divisões alemãs. Há quem fale em 50 mil homens, há quem fale em 100 mil homens da Alemanha contra 20 mil homens portugueses, que acabam por perder metade das suas forças, nomeadamente da 2.ª divisão”. No total, “há quem fale em 400 mortos, há quem fale em 1.300 mortos, 4.600 feridos, 2 mil desaparecidos e 7 mil prisioneiros”, sendo que esta imprecisão no número de fatalidades se prende, de acordo com Sérgio Rezendes, ao facto de muitos cadáveres não terem sido recolhidos inteiros e por lhes faltarem as placas de identificação, considerando ainda que estes números reflectem, no fundo, “a desorganização que houve no sentido de saber quantos soldados regressaram”.
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