“As minhas referências culturais estão nas minhas raízes...”

Alda Raposo, uma fuseira de gema, começou a moldar barro por incentivo do já falecido, António Guilherme Pimentel, tendo sido o seu primeiro trabalho uma velhinha que doou ao amigo. Esta ribeiragrandense tem como referências culturais dos seus trabalhos a sua gente, as pessoas que conheceu, durante a infância, e que desapareceram, todos aqueles que faziam parte do seu quotidiano. As suas referências culturais estão nas suas raízes. Possui algumas estátuas espalhadas pela ilha e tem como escultores de eleição Domingos Rebelo, Canto da Maia e Álvaro França. Neste momento, Alda Raposo está a dedicar-se à pintura, dado que, em sua opinião, a pintura e a escultura complementam-se. Correio dos Açores - Conseguiste colocar algumas das tuas obras nos espaços públicos mais conhecidos. Como te sentes ao passar por elas? Alda Raposo - Sinto-me um pouco imortalizada e espero que um dia o meu neto sinta orgulho nas obras da avó e siga as suas pegadas. Qual a tua obra de arte que mais satisfação te deu? O Eng.º Deodato Magalhães e o Dr. Manuel Barbosa, pelas críticas recebidas, o primeiro pelas críticas da viúva e do sobrinho, de quem ainda guardo o postal enviado de Lisboa, e o segundo trabalho por ter sido meu professor e amigo, como também pelas palavras tocantes do seu filho, Doutor Celso, e restante família. Ao chegar a Rabo de Peixe, o monumento ao pescador é uma referência incontornável e que saiu das tuas mãos de artista. Qual a mensagem que ele pretende transmitir? Tentei transmitir todo o sofrimento e trabalho árduo que o homem do mar tem, as suas preocupações e medos. Como foi o processo de criação daquele monumento específico? Ali está retratado alguém em concreto? Para começar tenho de dizer que fiz dois pescadores, mediante o pedido dos responsáveis pela encomenda. No primeiro, tentei retratar o pescador cansado, sofrido do trabalho extenuante e da constante incerteza do amanhã. As opiniões entre os responsáveis da encomenda não foram unânimes o que deu origem a um novo pedido, do então Presidente da Câmara, para execução de um segundo pescador que teria de ser mais robusto e de cabeça mais erguida, o que representava o oposto do que eu tinha idealizado. Um pouco contrariada, dei seguimento ao pedido e é este segundo pescador que se encontra, actualmente, em Rabo de Peixe, mas esqueci-me de o assinar. Neste momento, ninguém sabe que fui eu que o fiz nem quem o encomendou, pois lá só se encontra um nome, que desconheço, e uma dedicatória ao homem do mar. Só dei pelo lapso muito mais tarde, quando foi editado o livro sobre estátuas e bustos de S. Miguel, onde consta o meu nome em todos os trabalhos por mim executados, até aquela data, menos no do pescador. No que concerne à pergunta se retratei alguém em concreto, a resposta é não. Aquele pescador é universal, retrata todos os que, dia após dia, travam uma luta constante pela sobrevivência no mar e na terra. Qual o material que mais gostas de trabalhar nas tuas criações? Trabalho somente com barro. No início trabalhava com o barro de Santa Maria, que adquiria na fábrica de cerâmica Vieira, na Lagoa. Depois, comecei a trabalhar com o barro do continente, porque era mais barato. Conta-nos como descobriste este talento? Não fui eu a descobrir, mas o meu amigo já falecido, António Guilherme Couto Pimentel, este sim, um grande artista multifacetado, por quem nutria um grande carinho e admiração. No verão de 1986, convidou-nos para passarmos um fim-de-semana na sua casa, no Porto Formoso, e, durante o serão, apercebeu-se que a conversa que ele mantinha com o meu marido e com outro casal, que lá se encontrava, não estava a interessar-me e foi então que me perguntou se eu não queria entreter-me a fazer qualquer coisa em barro. Aceitei e fiz o meu primeiro trabalho, uma velhinha que ele adorou e ficou com ela. Na semana seguinte, apareceu em minha casa com uma barra de barro e desafiou-me a fazer mais algumas peças e foi assim que tudo começou. Para além do talento, que outros atributos tem de ter um escultor? Gostar do que faz e trabalhar muito, pois é com trabalho que se atinge os objectivos a que nos propomos. Partilhar, criar pontes e construir conhecimento, ser humilde e saber ouvir os que já têm obra feita, uma vez que “não passamos de anões às costas de gigantes”. Na realidade nós não inventamos nada, já quase tudo foi inventado, temos é de garantir identidade ao que fazemos. Quem são as tuas referências culturais dos teus trabalhos? A minha gente, as pessoas que conheci, durante a minha infância, e que desapareceram, todos aqueles que faziam parte do meu quotidiano. Na realidade, as minhas referências culturais estão nas minhas raízes. Tens algum escultor de eleição? Domingos Rebelo, Canto da Maia e Álvaro França. Tens participado em alguma exposição de arte? Nos últimos tempos não. Porque razão a nossa ilha ainda está despida de obras de arte no espaço público? Talvez por culpa de todos nós. São poucos os que demonstram interesse nesta área. Que trabalho artístico estás, neste momento, a criar? Neste momento, estou a dedicar-me à pintura. Na minha opinião, a pintura e a escultura complementam-se. O que faz falta para a promoção de mais acontecimentos de artes plásticas de qualidade nos Açores? Depende do que se entende por “artes plásticas de qualidade”. Eu continuo a dizer que o problema reside numa grande falta de sensibilidade nesta área por parte das pessoas. Há criatividade plástica de qualidade na Região? Naturalmente que há, mas como a Região tem nove ilhas e eu, infelizmente, não conheço todos os artistas nem a arte que desenvolvem, não me sinto com competência para me debruçar sobre esta matéria.
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