Romeiro Manuel António: “Depois das confissões vinha a Semana Santa, altura em que a família ia toda à igreja”

A Páscoa de maior significado para os cristãos é a passagem de Jesus da morte para a vida, na sua ressurreição que aconteceu na manhã do Domingo que se seguiu ao dia de sua morte, numa Sexta-feira, por nós, chamada de Sexta-feira Santa. Sobre a Páscoa, chegamos à fala com Manuel António, natural da Freguesia dos Arrifes para abordarmos vários assuntos, entre eles, as recordações que guarda sobre o seu tempo de criança e jovem. O nosso interlocutor demonstrou que existem momentos que nem o tempo apaga, que se tenta preservar no presente. Desse tempo “recorda-se de ir à igreja por alturas das confissões”. Depois, vinha a Semana Santa onde a família ia toda à igreja e “às cerimónias todas que existiam durante aquela semana. O Domingo de Páscoa era um dia feliz, como que um renascer. Claro que, sendo um dia de feliz, havia sempre uns docinhos, nomeadamente amêndoas, bolos, massas sovadas e arroz doce”. Para quem não sabe, Manuel António foi em tempos Presidente da Junta de Freguesia dos Arrifes. “Fui convidado para ser o Presidente. Ao princípio nem sabia aquilo o que era, mas depois com a força do padre Benjamim, que era o pároco da igreja da Saúde, aceitei. Coloquei mãos à obra, houve altos e baixos, contentei alguns e outros nem tanto, mas a vida é assim mesmo”. Todos os dias da Semana Santa são importantes Neste nosso diálogo quisemos questioná-lo se a Quinta-feira Santa tem tanta importância como a Sexta-feira Santa, mas Manuel António Correia Pereira ressalvou logo que “não são só esses dias, mas a semana toda”, justificando que “A Semana Santa principia no Domingo de Ramos até ao Domingo de Páscoa. Todos os dias da Semana Santa têm um significado. Eu como fui romeiro, e a romaria é fantástica nesse sentido, dedicamos o nosso tempo a Deus e vivemos a Semana Santa de forma particular, mas isso também acontece com os cristãos, no verdadeiro sentido da palavra. Mas também tem as cerimónias nas paróquias que vamos sempre acompanhando, como o sacramento da confissão, as eucaristias seguidas dos ritos do lava-pés ou a trasladação do Santíssimo e adoração, entre outras cerimónias próprias desta importante quadra”. Ainda acerca da Semana Santa, Manuel António reforça que “é uma semana muito importante para os cristãos e aqui na nossa freguesia notamos que as pessoas aderem muito à igreja nessa semana. Hoje em dia assiste-se mais às cerimónias das paróquias do que noutros tempos. Por exemplo, no Domingo de Ramos saiu da Igreja dos Milagres um grupo de mais de trezentas pessoas que participaram na Procissão de Ramos. A igreja estava cheíssima com gente das três comunidades da freguesia, nomeadamente Milagres, Piedade e Saúde”. Se o peixe está caro come-se carne e não é pecado Manuel António, de 72 anos de idade, revela que na Sexta-feira Santa evita comer carne “porque é um costumo antigo”, mas “pecado não é certamente”. Deve-se ter muito cuidado com aquilo que sai pela boca do que aquilo que entra. “Antigamente havia esse costume, que era mais comum junto dos párocos mais tradicionalistas que eram a favor de se fazer algum sacrifício na Sexta-feira Santa. No presente, isso já não acontece tanto porque a carne está efectivamente muito mais barata do que o peixe. Então, se o peixe está caro come-se a carne e, como se sabe, há ainda muita pobreza, em toda a parte. De uma forma mais simplista deve-se ter muito cuidado com aquilo que sai pela boca do que aquilo que entra. De qualquer das formas, respeito esse dia porque é um costumo antigo e evito, de facto, comer carne nesse dia. Pecado não é certamente e não consta dos 10 mandamentos”. Como cristão que é, Manuel António entende que “o Domingo de Páscoa é um relembrar a passagem de Jesus, da morte para a vida, na sua ressurreição. É um libertar, recordar que estás livre, não tenhas medo e vai em frente e acredita porque Deus olha por nós”. E porque assim somos chamados para a vida, a Páscoa deve ser celebrada em família, mas “primeiro na igreja, dando graças a Deus pela força que nos dá e depois vêm as comemorações em família, com um almoço. Isso acontece habitualmente todos os domingos, mas no Domingo de Páscoa é igual”. Mais de três dezenas de romarias Manuel António foi romeiro durante mais de três décadas na Paróquia da Saúde. “É uma experiência fantástica”, mas nada se faz sem algum sofrimento que atenua à medida que os quilómetros são percorridos, onde a camaradagem dos irmãos sobressai. “Queixei-me logo no primeiro dia da primeira romaria que fiz. Foi como se tivesse feito um outro exercício físico qualquer em que o corpo fica todo dorido. Na romaria é igual, porque logo no primeiro dia faz-se uma caminhada de mais de trinta quilómetros e fisicamente só se fica bem no último dia. Espiritualmente começa logo no primeiro dia porque sofre-se fisicamente e nesse sofrimento começa-se a suplicar ajuda de Deus, notando-se que há, de facto, uma grande ajuda de Deus, à medida que o tempo passa, sempre com muita camaradagem entre os irmãos”. Os jovens e os ministros extraordinários da Comunhão Os tempos mudam e Manuel António já deixou as romarias, mas não deixou a seu dever como fiel da Paróquia da Saúde ajudando naquilo que pode e para o qual é solicitado. Deste modo, tem sua maneira de ver como os jovens se representam perante a igreja nos tempos que correm, reportando que não sente que os jovens estejam mais afastado da igreja e das celebrações como a Páscoa. “Já notei mais isso, mas presentemente já não é assim. Eles não estão afastados, e a Procissão de Ramos demonstrou isso, onde foi notório a presença de imensos jovens. O que acontece é que o jovem hoje em dia não quer estar muito tempo num sítio e prefere antes estar num local mais alegre, mas isso também depende dos párocos. Os pais também têm um papel importante, no sentido de alimentá-los nesse sentido, ou seja, se o pai vai à missa deve levar o filho consigo, independentemente daquilo que possa aprender nas aulas de catequese, mesmo que não queira porque mais tarde, quando for adulto sentirá com certeza aquela necessidade de se aproximar dos outros jovens e falar abertamente de Deus e de Jesus”. Manuel António diz que as pessoas, na generalidade, comemoram a Páscoa nos Arrifes “levando muito a sério a Semana Santa que tem oito dias, bem como a Quaresma que é o período de quarenta dias que antecedem a principal celebração do cristianismo, a Páscoa. Antigamente havia uma procissão dos enfermos que era feita sempre à segunda-feira, logo a seguir ao Domingo de Páscoa, em que um padre saía da igreja com um grupo de homens e de crianças, e iam visitar os doentes acamados em procissão, com banda e tudo. Cada doente recebia uma oferta que era distribuída pelas famílias dessas crianças. Era muito bonito porque a procissão entrava nas casas dessas pessoas, o senhor padre orava e depois convidava-os a comungar. Esta manifestação religiosa ainda se faz, mas aqui na paróquia da Saúde é que se deixou de fazer. Por exemplo, na paróquia dos Milagres ainda faz-se, no Domingo de Páscoa. A Procissão do Senhor aos Enfermos principia às 13h30”. (Travessa dos Milagres, Rua do Outeiro, Rua das Colmeias, Rua do Cadarço e Travessa dos Milagres). Agora na Saúde, representantes da paróquia, denominados de ministros extraordinários da Comunhão, vão visitar os enfermos todos os meses, semanalmente. A procissão acarretava muita despesa e desta forma há também uma relação de uma maior proximidade da paróquia para com os seus fiéis idosos, doentes ou acamados”. De referir que o ministro extraordinário da Comunhão é, na Igreja Católica, um leigo a quem é dada permissão, de forma temporária ou permanente, de distribuir a Comunhão aos fiéis, na missa ou noutras circunstâncias, quando não há um ministro ordenado (presbítero ou diácono) que o possa fazer.
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