“Este aparente afastamento da Igreja é culpa de nós, sacerdotes, que não temos sabido transmitir a verdadeira evangelização”

João Luciano Rodrigues confessa que, ao crescer, nunca pensou vir a ser padre, contudo tudo mudou aos 16 anos quando participou numa procissão de velas com a mãe e se sentiu “arrebatado por Maria”, no andor. No Seminário começou por pôr à prova a extrema disciplina que chocava com o seu “espírito jovem e liberal”, mas acaba por reconhecer os benefícios da mesma na educação e formação do grupo de jovens que ali estudava. Agora, que já foi dispensado do ofício pastoral a seu pedido, diz que a Igreja de antes é “completamente diferente” da Igreja actual e para isso muito tem contribuído o Papa Francisco. Em dia de Páscoa, o padre João Luciano Rodrigues confessa que este dia “é na realidade a grande festa religiosa”. De onde é natural e como foi a sua infância? Sou natural de Ponta Garça, freguesia rural, onde nasci há 76 anos, numa família alargada, sou o terceiro de sete irmãos, todos ainda vivos. Foi lá que vivi e fui criado, onde fiz a instrução primária. Como uma criança normal inserida numa família católica, recebi uma educação alicerçada em valores morais e cívicos que privilegiavam a honradez, a amizade, a fraternidade e o respeito pelos mais velhos, princípios esses que nortearam toda a minha vida e me ajudaram a granjear amizades que ainda perduram. Aos onze anos fiz exame de admissão ao Liceu e frequentei o Externato de Vila Franca do Campo até ao quarto ano, tendo ficado a residir durante o ano escolar na Vila vindo a casa só nas férias e dias festivos. Foi uma decisão natural a ida para o seminário? Ou seja, sempre acalentou o desejo de ser padre? Começo primeiro por responder à segunda parte da pergunta dizendo que nunca me passou pela cabeça vir a ser padre porém, tendo já 16 anos de idade vim a casa de meus pais, e na noite de 12 de Maio de 1958, fui com minha mãe à procissão de velas que se realizava no interior da igreja paroquial. Olhando para o andor de Nossa Senhora, senti-me arrebatado por Maria e, de imediato, despertou em mim o desejo de ser padre. Ao chegar a casa dei conhecimento à minha mãe que inicialmente não aceitou bem a minha decisão e posteriormente a transmitiu a meu pai que de imediato me apoiou e acarinhou. Como foram os tempos no Seminário? Quais as principais referências que teve no Seminário? Inicialmente foi muito difícil aceitar o ambiente fechado e de extrema disciplina imposta no Seminário que chocava com meu espírito jovem e liberal que, no entanto, mais tarde, vim a reconhecer ser benéfico na educação e formação daquele numeroso grupo de jovens mas que, nos primeiros tempos, despertou em mim um espírito de desobediência que por exemplo me levava nos passeios a não usar o chapéu, o que era obrigatório, e que no regresso ao Seminário era colocado de castigo tendo de me manter em pé e em silêncio, proibido de falar com os meus colegas. Recordo com saudade o competente corpo docente que ao longo de dez anos contribuiu para a minha formação como homem e padre no serviço à comunidade. Foi no Seminário que criei laços de amizade e companheirismo que ao longo destes anos tenho compartilhado com os meus colegas de então, mesmo os que não vieram a seguir a vida sacerdotal. Recordo também as festas e os saraus músico literários que decorreram no Seminário. Qual foi a sua primeira paróquia e como era a comunidade que encontrou? Após a minha ordenação fui estagiar no Pós-Seminário com os meus colegas durante uns meses. Após o estágio, por proposta do senhor padre José Garcia, fui nomeado pelo Bispo como vigário cooperador da Sé Catedral. Um ano depois fui nomeado vigário cooperador da Igreja de São José em Ponta Delgada, até à minha nomeação como pároco da Lomba da Fazenda do Nordeste onde fui encontrar uma comunidade cristã muita activa, e responsável onde se evidenciavam diversas pessoas ilustres que vieram a destacar-se em Ponta Delgada quer na Cultura como na indústria. Os meus primeiros paroquianos receberam-me de braços abertos e durante nove anos ajudaram-me a crescer como homem e como padre. Coube-me a honra de proceder à instalação da Escola Preparatória Gonçalo Velho, da qual fui primeiro Director e onde também leccionei. A passagem ao serviço daquela comunidade guardo na memória com muita saudade. Por que outras paróquias passou? Seguiu-se a paróquia de Nossa Senhora das Neves, na Relva durante 15 anos, acumulando com a de Nossa Senhora da Ajuda na Covoada onde fui pároco durante 23 anos, acumulando 5 anos com a paróquia de Nossa da Saúde nos Arrifes. Depois, durante um ano acumulei a Covoada com a paróquia de São Nicolau nas Sete Cidades e de seguida acumulei a paróquia de Nossa Senhora da Ajuda na Covoada com a paróquia de São José, onde fui vigário cooperador. Finalmente, em 2010, fui nomeado primeiro pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima em Ponta Delgada. Esteve à frente da relativamente recente igreja de Nossa Senhora de Fátima. Uma igreja nova, num bairro complicado. Foi fácil agregar aquela comunidade? Quais as principais dificuldades que encontrou? A minha nomeação como primeiro pároco na comunidade de Nossa Senhora de Fátima, tendo em conta a minha idade, foi aceite como o maior desafio que me foi colocado como padre. Inicialmente convidei o senhor padre Fernando Teixeira para comigo colaborar. Sempre disse que o meu sonho era ver a igreja de Nossa Senhora de Fátima mais do que ser paróquia viesse no futuro a ser um lugar de culto privilegiado das pessoas de toda a ilha e, por mérito próprio, fosse um novo santuário. O futuro o confirmará. Tive um bom grupo de pessoas que prontamente se disponibilizaram a colaborar e que muito me ajudaram e a quem publicamente agradeço. Mais do que procurar implantar uma paróquia que, apenas para constar, estivesse aparentemente estruturada, procurei dinamizar a catequese, a Conferência Vicentina e os órgãos de apoio ao serviço da igreja, privilegiando o diálogo com as pessoas, descobrindo os seus problemas e ganhando a sua confiança e, desta forma, lançar as sementes da verdadeira evangelização, pois pregar a barrigas vazias nem os santos conseguem… Como todos sabem esta paróquia está inserida na Freguesia de São José que no aspecto social tem colaborado com a igreja. Foi também minha preocupação procurar dar resposta aos cristãos, a maioria dos quais fora da área geográfica da paróquia e que aos Sábados e Domingos participavam nos actos de culto, solicitando ao Bispo da nossa Diocese a nomeação In Solidum de uma equipa de três sacerdotes, o senhor padre Norberto Brum, o senhor padre Fernando Teixeira, e eu próprio, que partilhavam com Santa Clara o serviço religioso, nas duas paróquias, enriquecendo assim, na diversidade da palavra o anúncio do Evangelho. Posteriormente o senhor Bispo propôs-me que o senhor padre Francisco Melo fosse integrado na equipa sacerdotal o que mereceu a aceitação da equipa In-Solidum. Por tudo isso que se disse, não foi, não é, nem será fácil, nos anos iniciais da vida uma nova paróquia, agregar a comunidade daquele lugar pois é um trabalho moroso e delicado que só ao longo do tempo poderá produzir efeito. Que diferenças encontra na Igreja comparando o tempo em que foi ordenado e os tempos mais recentes? São realidades completamente diferentes. A igreja de outrora, mais fechada, e a dos nossos dias mais aberta à realidade social, mantendo a mesma missão de anunciar a mensagem de Jesus Cristo, que transparece do Novo Testamento e uma sociedade nova com novos paradigmas, novas verdades e novas práticas, novos pontos de interesse onde a relação com o divino parece ter desaparecido em troca de novas convicções e o desafio da realização pessoal. Onde impera um implacável consumismo que a todos absorve, levando a uma transformação social onde o amor ao próximo, a convivência, a fraternidade e a caridade só em casos extremos ou em tragédias humanas consegue, e ainda bem pelo menos, congregar as pessoas para o bem comum. É nesta nova realidade social que a Igreja se tem de afirmar como tantas vezes o próprio Papa Francisco não se cansa de alertar e sugerir, novas maneiras de estar e de ser cristão e, acima de tudo, como homens com crenças diferentes e um mesmo Pai Criador, na busca de uma verdade que a muitos custa a entender e acima de tudo, viver no amor pelo próximo. Acredita que o pontificado do Papa Francisco veio dar “novo alento” à Igreja católica? Quem, apesar de toda a resistência interna na própria Igreja, não tenha até agora constatado essa nova aragem de mudança está muito distraído nesse mundo. Acredito que o Papa Francisco de quem sou fervoroso seguidor ficará na história da Igreja e da Humanidade como o homem que iniciou um clima de mudança, de regresso à principal mensagem que Jesus veio anunciar, “amai-vos uns aos outros como Eu vos amo” é preciso sair dos muros que nos fecham à realidade social e ir para junto das pessoas trabalhar no anúncio da Boa Nova que a todos congrega no amor do Pai. Que perspectivas tem perante a mudança social, em termos católicos, relativamente à prática religiosa? O que tem estado a acontecer na sociedade, este aparente afastamento da Igreja é principalmente culpa de nós sacerdotes que não temos sabido transmitir, a verdadeira evangelização que muitas vezes também não corresponde à nossa postura, acção e testemunho de pessoas a quem, pela sua vocação e formação, estão obrigadas a uma missão de anunciar e viver com convicção as verdades da nova Evangelização. Que papel pode ter ainda mais, ou tem, a Igreja perante todas as carências que se verificam na sociedade micaelense? Não só aos padres novos como aos já mais idosos recomendo a leitura da “Carta de São Paulo a um jovem Pároco” apresentada no Encontro Anual dos Padres mais novos, de 18 a 20 de Outubro de 2005 por Paulo Missionário de Jesus Cristo, texto adaptado de Settimana, nº 27, 10/07/05” da qual respigo as seguintes passagens: “…é precisamente sobre a felicidade no ministério pastoral que te quero falar. Ora, a condição “sine qua non” dessa felicidade é o espírito missionário. Serás pároco feliz, na medida em que fores missionário. Escreve no espelho da sacristia: “ não sou funcionário do sagrado, mas mensageiro do Evangelho, missionário da Boa Nova”. Espero que não te esqueças do que aprendeste no Curso de Teologia. Há quatro verdades fundamentais que o missionário deve ter sempre presentes – A Palavra de Deus é como água e neve…, quando caem… - A Palavra de Deus não está longe, mas muito perto, dentro do coração. Já lá está, quando chegas. O que importa é encontrar a melhor maneira de a despertar… - Jesus envia-nos, “como cordeiros no meio de lobos”, não para nos deixarmos devorar, mas para abrir caminho à Mensagem. Quanto mais humanamente fracos… - É o Senhor que torna eficaz a Palavra. A nós compete anunciá-la”. Agora que foi dispensado do ofício pastoral, continua a participar activamente na Igreja? De que forma? A saída, a meu pedido, de pároco de Nossa Senhora de Fátima, por já ter atingido os 75 anos não me lançou no “desemprego da missão evangelizadora”, pelo contrário, não tenho tido dias ociosos. Tenho desde o primeiro dia colaborado intensamente com os meus colegas sacerdotes quer na cidade quer por toda a ilha a quem fico agradecido por solicitarem a minha colaboração sacerdotal. Como gosta de passar os seus tempos livres? Diariamente visito os doentes internados na Clínica do Bom Jesus e esporadicamente desloco-me ao nosso hospital, visitando pessoas minhas conhecidas e amigas e, de uma forma geral, todos os que por lá encontro. Em termos pessoais, o que significa a Páscoa para si? Há algumas tradições que mantenha? Ou há algumas, de família, que entretanto se tenham perdido e que gostasse particularmente? A Páscoa é na realidade a certeza de que temos um Deus que muito nos ama e que para nossa salvação, entregou a sua vida na pessoa do Seu Filho. O túmulo vazio é na realidade o caminho da fé. A visão que os discípulos tiveram de um túmulo vazio, foi para eles o caminho da fé, porque foi naquele túmulo vazio que tinham a prova concreta de que Jesus havia ressuscitado. A ausência de um cadáver abre-nos à fé, na ressurreição de Jesus e anuncia-nos a realidade de uma vida nova na presença de Deus. Este é o milagre da Páscoa, a vida de Deus em cada homem que pelo baptismo faz de nós pessoas novas. Para nós cristãos, a Páscoa é na realidade a grande festa religiosa. A Páscoa Judaica celebra a saída do Povo de Deus do Egipto para a Terra Prometida, celebra a libertação do Povo de Deus. Na Páscoa Cristã, Jesus redime toda a vida passada. A vida é um constante êxodo, na verdade estamos sempre saindo de um processo para entrar noutro. O domingo de Páscoa é o momento em que fazemos memória do acontecimento que mudou as nossas vidas e que colocou a Igreja dentro deste mundo de salvação que o Ressuscitado realizou. A vida cristã está impregnada da mística da Páscoa, todas as celebrações eucarísticas estão em torno da ressurreição de Jesus. A fé tem de ser simples, a fé de há dois mil anos, fé dos santos, a fé dos povos, é crer que Jesus ressuscitou verdadeiramente e está vivo, mas vivo com uma vida superior, porque a vida de Deus entra na vida dos homens. Como sacerdote sempre atribui primazia às celebrações religiosas pondo em segundo lugar o aspecto profano próprio da época. Na minha família, acompanhávamos todas as celebrações religiosas de então, praticamente semelhantes às deste tempo.
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Autor: Carla Dias

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