“Hoje é muito difícil encontrar a pobreza envergonhada e são essas as famílias mais necessitadas”

Desde muito nova que Lúcia Garcia se dedica à Igreja e é presença assídua na sua paróquia da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, na Ribeira Grande. Foi catequista, participou no grupo coral da igreja, e não é por isso de estranhar que seguisse também o exemplo caridoso de Cristo, pertencendo à Conferência Vicentina da sua paróquia, um movimento onde se integrou desde muito nova. Desde os 14 anos que Lúcia Garcia começou a frequentar as reuniões da Sociedade de São Vicente de Paulo, também conhecida como Conferências Vicentinas, a convite de uma vizinha e desde então nunca mais parou de estar ao serviço dos mais necessitados. É esse o espírito deste movimento católico de leigos que se dedica a concretizar acções para ajudar o próximo, quer social quer economicamente. “Um dos movimentos em que estou muito inserida na paróquia é o movimento sócio-caritativo das Conferências Vicentinas. Aí é que tem sido o meu grande trabalho e a minha luta”, admite Lúcia Garcia que garante que o trabalho desenvolvido hoje em dia é “bem diferente” do que era noutros tempos. Até porque se antigamente os casos de pobreza eram praticamente do conhecimento geral da comunidade, hoje em dia é a pobreza envergonhada que carece de ajuda e isso “não é fácil”. Primeiro porque não é fácil encontrar essas famílias que aparentemente estão bem mas que “dentro de portas” passam por dificuldades, e depois porque essas mesmas famílias têm mais dificuldade em pedir ajuda e em serem rotuladas de pobres. Lúcia Garcia admite que o Estado “colabora imenso e está mais receptivo à sociedade mais pobre” e por isso concorda que “todos têm direito a ter uma casa, sim senhor”, mas reconhece que há agora outro tipo de famílias pobres. “Quem está a pagar a casa ao banco, e há muitas famílias aqui em que um dos elementos do casal está desempregado, mas a casa tem de se pagar. E os filhos estão na escola” e há que ter dinheiro para todas essas despesas. “São essas famílias, para nós, as mais necessitadas”, admite. A Conferência Vicentina ajuda “não num sentido de alimentar preguiça, ajudamos pontualmente”, por exemplo durante seis meses enquanto uma família precisar efectivamente de ajuda para se reerguer. Os Vicentinos ajudam por exemplo a procurar emprego e “vamos aos serviços sociais ver se é verdade aquilo que nos dizem, não querendo saber o valor que eles recebem, mas há assistentes sociais que nos ajudam e dizem se têm muita necessidade ou se não têm necessidade”, revela Lúcia Garcia. Além disso, os casos que chegam às mãos da Conferência Vicentina da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela são sempre levados ao conhecimento da Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande e aos serviços sociais da Câmara Municipal da Ribeira Grande. “Em parceria vamo-nos ajudando”, refere. Actualmente a Conferência Vicentina a que pertence Lúcia Garcia está a ajudar todos os dias duas famílias com leite e pão. Uma ajuda fundamental para aquelas duas famílias com crianças pequenas e em situação desfavorável. Duas experiências “maravilhosas” Lúcia Garcia diz que fica “inquietadíssima” quando sabe de algum caso que pode ajudar. “Parece que é comigo. Não durmo, quero imaginar tudo e mais alguma coisa”, +confessa. Para que seja possível ajudar o próximo, Lúcia Garcia admite que recorre muitas vezes às novas tecnologias e aos “muitos e bons amigos” que ajudam os vicentinos. “Apesar da minha idade gosto muito das novas tecnologias e quando sei de alguma situação, começo logo a mandar emails aos meus amigos. E as ajudas vão chegando, ou roupas, ou comida, de uma maneira ou de outra, as ajudas vão sempre chegando”, confessa. Além das duas famílias que são ajudadas diariamente com pão e leite, Lúcia Garcia dá ainda conta de “duas experiências maravilhosas” que testemunhou na sua Conferência Vicentina da Matriz. “Uma rapariga teve cancro da mama, deixou de trabalhar e vim a saber, por um colega de trabalho do marido, que ele estava muito debilitado, muito magro. Fui ter com ele e perguntei o que se passava. Ele disse-me que estava a passar por dificuldades, a esposa estava naquela situação, tinha deixado de trabalhar, as ajudas ainda eram muito poucas, e ele estava-se a privar de uma refeição por dia, para que as filhas pudessem ter comida”, recorda. Assim que soube da situação, diligencio formas de ajudar e “durante um ano apoiámos aquela família, com mercearia, leite, pão, tudo o que pudéssemos fazer, nós fizemos. Passado um ano, foi ele que veio ao nosso encontro e que agradeceu. Disse-nos que a família estava melhor, que a mulher já estava a receber as ajudas e que se houvesse quem necessitasse mais que podia passar aquele apoio para outra família”. Para Lúcia Garcia “é uma alegria imensa trabalhar com pessoas nestes modos”. Uma outra situação em que foi solicitada a ajuda dos vicentinos foi de uma jovem que ficou grávida e que uma irmã bateu à porta de sua casa a pedir ajuda. “Uma irmã bateu-me aqui à porta a perguntar se eu tinha roupas de bebé. Perguntei se era para ela, e respondeu-me que era para a irmã que estava grávida, que o bebé ia nascer no dia a seguir ou depois e eles não tinham nada”, explica. Pôs mãos à obra e foi verificar se efectivamente a situação se passava assim. “Disse-me onde moravam, eu fui lá, falei com a moça e vi que tudo o que tinha era de família, o berço era emprestado, tudo emprestado. Comecei a mandar e-mails para os meus amigos a pedir coisas”, diz. O e-mail enviado de forma igual para todos da sua lista, rapidamente obteve resposta. “Tenho um amigo que vive nos Estados Unidos, que é um homem com um coração enorme, que me mandou um e-mail a dizer para contar com a sua ajuda e que enquanto pudesse que ia ajudar essa família. Esse menino já tem três anos e esse meu amigo todos os meses manda mercearia para aquela família”, recorda Lúcia Garcia. Recentemente também conseguiu arranjar um emprego para a jovem mãe. “É um emprego precário, mas é melhor do que estar em casa. Ela também tem colaborado muito e assim apetece ajudar. A quem tem vontade de se erguer, apetece ajudar”, declara Lúcia Garcia. A vicentina reconhece que nos últimos tempos já não têm aparecido os pedidos que tinham noutros tempos. “As pessoas já sabem de antemão que vamos aos sítios próprios, confrontar a realidade, penso que é isso que falta hoje, não é dar por dar. É ir ao encontro, estar no campo e educar. Acho que falta educação. Falta muita educação”, reflecte. Para a própria ser vicentino é ser um cristão “que vive a Palavra de Deus no serviço aos outros, é ser um cristão comprometido com uma vocação que nos chama ao serviço pessoal dos pobres”. E é por isso que revela que quando detecta que quem é ajudado fica reconhecido “ganho mais força para ajudar. Às vezes esqueço-me de mim”, revela. A família e os seus deveres “nunca fica descurada”, até porque “tenho uma família grande e os meus filhos todos os dias vêm jantar a minha casa. Tenho dois filhos e três netos, já somos nove pessoas à mesa”. Apesar de não ter tempo para si, dedica-se aos outros com uma energia e uma paixão que envolve e contagia e por isso diz que “sou feliz assim e por isso não fico triste. Pelo contrário fico muito feliz”. Porque ajudar os outros também é “uma forma de espalhar os ensinamentos da Igreja e é isso que eu faço”. Para isso, além dos amigos a quem recorre, tem também os filhos e os netos que também já colaboram e se mostram sempre disponíveis para ajudar. “Graças a Deus”, remata.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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