Crosta rica em cobalto a Nordeste dos Açores pode render 300 milhões anuais

Nas fontes hidrotermais Lucky Strike e Rainbow foram também identificados sulfuretos polimetálicos como cobre, zinco, chumbo, prata e ouro que também podem ser uma mais-valia. O fundo do mar ainda é um grande desconhecido, no entanto já há vários países que estão a fazer investigação científica nas águas portuguesas e ao largo dos Açores já foram inclusive identificadas algumas zonas do fundo do mar onde poderão ser extraídos vários recursos. Nomeadamente a Nordeste dos Açores há um ponto que pode ter uma crosta rica em cobalto, de onde se podem extrair materiais como cobalto, titânio, zicórnio, níquel e cério. Um local que poderá ter uma extensão de 1.600 quilómetros quadrados e que a ser investido na sua exploração, o avultado investimento estaria recuperado ao fim de quatro anos. A revelação foi feita ontem pelo Capitão-de-fragata Ferreira da Silva que, no âmbito dos 25 anos do Comando Operacional dos Açores, proferiu uma conferência acerca da “extensão da plataforma continental. Uma análise estratégica”. Ferreira da Silva destacou que ao fim dos ditos quatro anos, as mais-valias líquidas anuais da exploração dessa crosta rica em cobalto poderiam ascender aos 300 milhões de euros. Além do cobalto, há ainda sulfuretos polimetálicos, cuja origem está associada às fontes hidrotermais, que também se encontram no mar dos Açores. O Capitão-de-fragata Ferreira da Silva referiu que nas fontes hidrotermais Rainbow e Lucky Strike foram encontrados este sulfuretos embora “não se saiba ao certo a mais-valia destes sulfuretos”, embora tenham sido identificados no Rainbow cobre, zinco, chumbo, prata e ouro, enquanto no Lucky Strike foram identificados todos os referidos acima, menos ouro. A este propósito, Ferreira da Silva mostrou uma imagem onde é possível verificar o pedido de concessão de vários países para exploração ao nível dos sulfuretos polimetálicos, que se estende na zona da crista média Atlântica e a última concessão, dada à Polónia, é exactamente até junto a um dos locais que Portugal tem vindo a reclamar com a extensão da plataforma continental. “Se não houvesse este pedido de Portugal para a extensão da plataforma continental que abrange aquele local, possivelmente já haveria concessões mais acima”, refere. O Capitão-de-fragata Ferreira da Silva explicou no entanto que o pedido de Portugal para a extensão da sua plataforma continental só começou a ser efectivamente a ser apreciado pelas Nações Unidas em 2017, quando o projecto desenvolvido por Portugal foi apresentado em 2009. Caso a extensão da plataforma continental seja considerada “sem alterações, que é a perspectiva”, Portugal aumenta para 3,8 milhões de quilómetros quadrados a sua dimensão, o que corresponderá “a 42 vezes mais o território nacional ou cerca de 89% de toda a União Europeia”. Este processo de extensão da plataforma continental assume particular relevância já que assim é concedido ao Estado direitos de soberania exclusivos para efeitos de exploração e aproveitamento dos seus recursos naturais. Aproveitamento este que implica, no entanto, que se conheça efectivamente o leito e subsolo marinho para que se possa aproveitar todo o potencial da plataforma continental. O Capitão-de-fragata Ferreira da Silva explicou que para que a plataforma continental se constitua como um factor de desenvolvimento económico e social de Portugal, “torna-se necessário que o país possua capacidade para conhecer, explorar e proteger toda esta vasta região” e é isso que a Marinha tem ajudado a fazer. Não só com a ajuda dos navios hidrográficos que ajudaram a fazer o mapeamento do fundo do mar para integrar o processo de extensão da plataforma continental que deu entrada em 2009 nas Nações Unidas, mas também com o mapeamento que tem vindo a ser feito ao nível do mar profundo e que ainda no ano passado no Verão se verificou com um navio hidrográfico que esteve na Região. Este mesmo reforço será feito novamente este ano durante o Verão, e Ferreira da Silva indica que “o navio hidrográfico, tem o propósito de fazer o mapeamento do mar profundo e de poder acorrer a qualquer situação que pudesse ser necessário, do ponto de vista da segurança. A prioridade que a Marinha tem é reforçar os meios afecto à componente naval e conseguir reforçar dispositivo permanentemente no mar para assegurar as responsabilidades do Estado nesta Região”. E devido à localização geoestratégica dos Açores, também poderia haver aqui na Região “um ponto de apoio logístico à exploração” já que as missões de investigação científica requerem um “tempo de permanência no mar muito elevado e trânsitos longos”. É que no ano passado vários países estiveram 275 dias de missão em investigação científica nas águas portuguesas, e havendo depois uma forte aposta na chamada economia azul poderia haver a possibilidade dos Açores funcionarem como ponto de apoio logístico. Por enquanto ainda são possibilidades, já que os recursos financeiros são a principal dificuldade para se iniciar a exploração de qualquer um destes recursos. No entanto o Capitão-de-fragata Ferreira da Silva indicou que há linhas a seguir como forma de aproveitamento do potencial estratégico da plataforma continental nacional. Desde logo, ao nível das políticas públicas, há que mobilizar a sociedade para a importância do mar; desenvolver pensamento estratégico para o mar e desenvolver também um cluster no âmbito dos assuntos do mar. Há também que prosseguir com a inventariação dos recursos naturais do mar profundo, ao mesmo tempo que é fundamental promover a partilha dos dados científicos e estabelecer parcerias entre laboratórios e universidades a nível nacional e internacional. Estabelecer uma rede nacional de áreas marinhas protegidas e reforçar a presença dos meios de vigilância e patrulha nos espaços marítimos nacionais ao mesmo tempo que se deve reforçar uma partilha de informação relativa ao espaço marítimo, também deve ser uma preocupação.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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