A grande mágoa de Horácio Franco

1 - Há um ano foram as comunidades desportiva e empresarial açoriana e nacional abaladas com a notícia da morte de Horácio Franco. Apesar do conhecimento da doença que afectava o campeão regional de ralis, nada fazia prever o rápido desenlace fatal. Há uma semana a Câmara Municipal de Ponta Delgada decidiu atribuir a Horácio Franco, a título póstumo, o Prémio Carreira. Um prémio merecido. As palavras do presidente da Câmara de Ponta Delgada, José Manuel Bolieiro, são por mim subscritas. “Horácio Franco foi, claramente, um embaixador do desporto e do automobilismo açoriano, marcando o seu tempo e deixando um legado de inspiração de referência e exemplo para as gerações do presente e para as vindouras, que, estou certo, perdurará.” Outras homenagens estão preparadas. A maior será a 25 de Março, um dia depois de concluída a edição deste ano do Azores Airlines Rallye. Esperam-se muitos pilotos e muitas pessoas na pista Marques Lda. para recordarem o homem e o piloto que muitas alegrias trouxe aos açorianos com as vitórias e a boas prestações alcançadas. 2 - Fui aos meus arquivos para recordar uma das últimas entrevistas que Horácio Franco concedeu. Foi em Maio de 2015, antes do ainda denominado SATA Rali Açores. No dia que perfaz um ano do falecimento, recordo algumas passagens de um dos ícones do automobilismo. Tinha, na altura, passado 7 anos desde que colocou ponto final após 33 anos de carreira nos ralis. “O meu último Rali dos Açores foi em 2008. Ganhei o grupo de Produção e fui o melhor açoreano com o 5.º lugar na classificação final”. Uma das vontades que Horácio tinha era de fazer mais um rali que conta para o Campeonato da Europa. Ainda há 3 anos demonstrava esse desejo: “Tenho sempre muita vontade de voltar a competir no rali. O ano passado passei por dificuldades com a minha saúde e neste momento estou a recuperar. Pela minha postura no desporto automóvel, não sou capaz de fazer uma corrida sem objectivos. Tenho sempre uma grande motivação em dar o meu melhor e neste momento não é possível manter esta postura”. Na entrevista publicada neste jornal, Horácio Franco referiu a “dificuldade” como passava os dias do rali, desabafando que “com o passar dos anos o sofrimento é menor...” A grande mágoa foi declarada: nunca ter ganho a prova rainha dos ralis açorianos como condutor. “Esta é a minha grande mágoa. Estive muito perto em diversas edições. Liderei o rali algumas vezes, mas nunca fui um piloto com muita sorte. A minha carreira foi sendo construída com muita dedicação e trabalho. Tive um ano em que desisti na segunda passagem pelos Graminhais, que era a penúltima prova de classificação, quando liderava a prova. Colocaram estrategicamente pedras na estrada, provocando a saída de uma roda. Foi um desastre. Um autêntico pesadelo e ainda por cima sei quem foi o mentor da armadilha”. 3 - A carreira nos ralis começou em 1970 como navegador. A primeira Volta à Ilha de S. Miguel foi em 1975, com Luis Aguiar, num BMW 2002. Por duas vezes venceu a prova que começou com a designação de Volta à Ilha de São Miguel em Automóvel. Fê-lo sentado ao lado de Larama. Em 1979 passou para o volante. “Tive uma carreira longa e muito abrangente. Encarei o desporto sempre com muito empenho, fazendo alguns sacrifícios pessoais e familiares. Felizmente o resultado foi extremamente gratificante. Digo sempre que dento do amadorismo que se vivia fui o mais profissional possível”, referia o malogrado piloto ao jornalista João Patricio. 4 - Horácio Franco manifestou há 3 anos a preocupação em manter o rali com os pisos das provas de classificação em terra. E alertava para um problema que se mantém. “Vai chegar a uma altura que será difícil ao Sata Rali Açores manter esta competitividade e fazer a diferença para outros ralis com troços em terra. Já existe muito asfalto em minha opinião. Deve haver um estudo mais aprofundado envolvendo o Turismo para a protecção das nossas características únicas. Naquela altura havia um leque de estradas disponíveis fantásticas, pelo que se não utilizássemos um percurso surgia logo uma boa alternativa. Fui das pessoas que mais criticou a asfaltagem da estrada que liga à freguesia das Sete Cidades. Houve várias opiniões de diversos Operadores Turísticos com o mesmo sentido. A estrada em terra era fantástica. Os concorrentes estrangeiros adoravam guiar nestas circunstâncias. Havia dois ou três cantoneiros que mantinham as valetas sempre limpas. O piso era um tapete sempre com uma areia à superfície, que transmitia sensações diferentes aos condutores. Outros valores se levantaram. Promessas políticas, etc. etc.” 5 - Na última entrevista a uma órgão de comunicação social escrito, Horácio Franco elogiou o trabalho do Desportivo Comercial, considerando o rali açoriano um “bom veículo promocional dos Açores”. “Quando é justificado o investimento e há retorno, não há dúvidas de que é compensador”, finalizou a entrevista. Ficam aqui algumas ideias de um grande campeão no dia que se relembra a sua morte precoce, aos 63 anos de idade. Foi uma outra forma de homenagem. Mais uma homenagem de quem privou muitos dias em muitas vezes no trabalho que desenvolvi na Comunicação Social açoriana.
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Categorias: Opinião

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