“As depressões estão cada vez mais presentes na sociedade açoriana”

“O tratamento da depressão deverá ser, na minha opinião, multidisciplinar. A pessoa deverá dirigir-se aos serviços de saúde primária, o seu médico de família, que deverá encaminhá-la para um psicólogo. (…) Como psicólogo, preocupa-me o facto de ainda se fazer muito o contrário: As pessoas continuam a depender muito da medicação anti-depressiva que, além de não resolver a depressão (apenas trata os sintomas), pode ter alguns efeitos secundários indesejáveis. Depois, nunca podemos esquecer a importância do apoio da família e da rede social. Como disse, os melhores resultados estão sempre relacionados com uma abordagem combinada”, palavras do neuropsicólogo João Ribeira em entrevista ao Correio dos Açores. Em sua opinião, a sociedade tem de perceber que a depressão, ansiedade e desmotivação “corresponde a uma realidade”. Correio dos Açores - Cresce o número de pessoas com depressão nos Açores. Quase se pode dizer que não há uma família açoriana que não tenha um familiar com depressão. Que causas levam à depressão? Dr. João Ribeira (neuropsicólogo) - Começo por dizer que desconheço as estatísticas da depressão na Região Autónoma dos Açores. De todos os modos, não me custa acreditar, pelos exemplos que todos os dias me chegam à prática clínica, que são sintomas cada vez mais presentes, em alguma das suas múltiplas apresentações. Sei, sim, que Portugal é o país da Europa com maior incidência de depressões e que somos também líderes no consumo de anti-depressivos. Quanto a causas, as depressões surgem muitas vezes associadas a eventos de vida (são o que chamamos Depressões reactivas) - como morte de entes queridos (luto); perda de emprego; divórcios, ou outras situações de vida traumáticas. No entanto, a verdadeira causa e origem da depressão continua a não ser clara. Sabe-se que tem algum peso genético e que determinados tipos de personalidade são mais propensos a desenvolver sintomatologia depressiva. Existem, ainda casos (relativamente raros) de depressão endógena, que são as depressões “sem causa aparente”, por desequilíbrio neuroquímico, isto é, pode acontecer que, por motivos pouco claros, a bioquímica cerebral da serotonina e da dopamina se alterem, causando sintomatologia depressiva. Que medidas preventivas se podem adoptar para não se chegar a uma situação de depressão? É difícil de dar uma resposta relativamente concisa a essa questão dado que depende imenso da nossa personalidade e, sobretudo, da nossa resiliência. De todos os modos, algumas estratégias “generalistas” podem ser: Trabalhar a nossa capacidade de gerir o stress do dia a dia, incluir momentos de prazer e bem-estar na nossa rotina diária, fazer uma boa gestão das nossas expectativas e objectivos de vida, fazer exercício regular, uma boa alimentação, horas de sono adequadas à idade, entre outras. No entanto, considero mais pertinente saber detectar correctamente, em cada caso, os sinais de depressão para que, rapidamente, a possamos combater e, aí sim, prevenir “recaídas”. Tratar a depressão de forma multidisciplinar Quais são os sintomas mais comuns da depressão? Os sintomas mais comuns são a tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa, baixa auto-estima, perturbações do sono, do apetite, sensação de cansaço e baixo nível de concentração. Na sua forma mais grave, a depressão pode levar ao suicídio. No entanto, convém referir que a Depressão se pode apresentar em Episódio Depressivo Major - leve moderado ou grave - ou em Distimia. A distimia é uma forma mais leve mas mais duradoura no tempo de Depressão. Seria assim como um estado de baixo nível de humor muito prolongado. Como tratar uma depressão? As condições existentes nos Açores são as ideais para se tratar uma depressão? O tratamento da depressão deverá ser, na minha opinião, multidisciplinar. A pessoa deverá dirigir-se aos serviços de saúde primária, o seu médico de família que deverá encaminhá-la para um psicólogo. Este é o profissional por excelência para, realmente, tratar a maior parte das depressões, introduzir as necessárias mudanças cognitivas e de estilo de vida. Poderá ser importante, em alguns casos mais profundos, o recurso à ajuda médica para um tratamento combinado de psicoterapia e fármacos. Como psicólogo, preocupa-me o facto de ainda se fazer muito o contrário: As pessoas continuam a depender muito da medicação anti-depressiva que, além de não resolver a depressão (apenas trata os sintomas), pode ter alguns efeitos secundários indesejáveis. Depois, nunca podemos esquecer a importância do apoio da família e da rede social. Como disse, os melhores resultados estão sempre relacionados com uma abordagem combinada (sistémica). Como já disse, há depressões que levam a situações extremas como o suicídio. Que sinais, normalmente, surgem neste caso e como e pode ajudar estas pessoas? Sim, já aqui tinha referido que a ideação e o comportamento suicida podem ser consequência de formas mais severas de depressão. Nestes casos, o mais correcto é estar atento aos sinais que já referi bem como a um isolamento muito evidente, manifestações verbais ou outras de desinteresse pela sua integridade física e, claro, tentativas de suicídio. Nestes casos, além do apoio psicológico imediato, poderá ser conveniente um internamento temporário para mais facilmente controlar o acesso a formas de atentar contra a vida. “Vivemos uma época de stress permanente” Há casa vez mais casos de stress no trabalho, gerador de ansiedade e, por vezes, de fortes dores de cabeça. Que conselhos dá para se evitar o stress e a ansiedade? Olhe, dir-lhe-ia que o tema do stress não caberia em todas as páginas deste jornal tal é a sua prevalência na vida que levamos nos dias de hoje e as suas múltiplas consequências, todas elas nefastas. Vivemos numa época de stress permanente (pela primeira vez na história da humanidade). A título muito superficial direi que não é possível evitar, por completo, o stress nem a ansiedade. Podemos, sim, tornar-nos melhores a preveni-los e a gerir os seus sinais e sintomas. De que forma? Exercício físico, manutenção de boas amizades, boa alimentação, desenvolvimento de boas estratégias de relativização de acontecimentos mais negativos, aprender a centrarmo-nos mais nas vitórias e menos nos fracassos, tirar diariamente, ou pelo menos, várias vezes por semana, tempo para relaxar e divertirmo-nos. Sabe, ouço-me a responder-lhe e não consigo deixar de pensar no que sentirão as pessoas ao lerem esta nossa conversa. Mas a verdade é que não há milagres. Muitas vezes, as estratégias mais simples e a atenção aos pequenos detalhes marcam a diferença. Pela experiência que tem, quais são as principais razões que levam à desmotivação? A desmotivação pode vir de imensas causas. No trabalho, por exemplo, tarefas muito monótonas, pouco exigentes ou demasiado exigentes, ambiente de trabalho com muitos conflitos, etc. Vivemos num país onde se paga muito mal, muitos empregadores ainda não cuidam verdadeiramente dos seus colaboradores. Depois, temos classes profissionais sujeitas a enorme pressão e ausência de recompensas como os professores e os profissionais de saúde e de segurança. Em suma, a desmotivação costuma surgir quando não temos estímulo ou possibilidade de progredir, quando sentimos que não somos justamente recompensados pelo nosso esforço e investimento, seja em que área da vida for. “A depressão, ansiedade, desmotivação corresponde a uma realidade” Os riscos de consumo de álcool e de drogas aumentam nestas situações? O que fazer para impedir que tal aconteça? Sim, claro. Uma das consequências mais comuns do stress elevado, do desgaste, da desmotivação, da depressão é o abuso de substâncias. A forma de impedir isto é apostar na prevenção e no tratamento adequado das diversas perturbações de que vimos falando. Que contributos se pode dar para que as pessoas retomem a motivação para a vida e para o trabalho? A única coisa que se me ocorre e que ainda não tenha referido é um trabalho intenso de automotivação, isto é, a nossa capacidade de encontrarmos por nós próprios os nossos pontos fortes, as nossas vitórias de todos os dias e de nos mantermos estimulados e interessados na vida sem precisar de “empurrões” externos como o dinheiro ou o reconhecimento dos outros relativamente ao nosso desempenho. Se não conseguirmos sozinhos, um psicólogo ajudar-nos-á nesta descoberta. Em todas estas situações que papel cabe ao Estado, às empresas, à sociedade e à família? Essa é a grande questão, sabe? É que além de tudo o que venho dizendo, que diz respeito ao indivíduo, existe um enorme peso da sociedade e dos empregadores, Estado ou empresas, nestas questões do stress, da desmotivação e da depressão. Aqui muito haveria a dizer mas é urgente a adopção de estratégias laborais preventivas - ambientes laborais agradáveis e devidamente organizados, clareza de funções, hierarquias, exigências concomitantes com as recompensas que se obtêm (não apenas o dinheiro); maiores apoios e compreensão por parte dos empregadores relativamente às mudanças na vida das pessoas - gravidez, doença. Isto para citar apenas alguns pontos. Como sociedade, precisamos de aumentar a consciência de que a questão da depressão, ansiedade, desmotivação, etc., corresponde a uma realidade, a estados de doença e de menor capacidade produtiva e não são apenas “desculpas de mau pagador”. As famílias... bom as famílias somos todos nós e, obviamente, quanto melhor cuidados estivermos todos, mais e melhor suporte podemos dar a quem dele precise.
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Autor: João Paz

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