“Fui preso no 6 de Junho e não foi tão agradável como isso, havia uma vontade de denegrir as pessoas e as coisas não foram cor-de-rosa”

Já na juventude, antes da tropa, Luís Franco foi acusado de revolucionário e no 6 de Junho acabou mesmo por ser preso e enviado para a Terceira. Confessa que a intenção sempre foi “bater o pé, fazer um grupo de pressão muito forte e, em último caso, se o país ficasse comunista, conseguiríamos arranjar gente com vontade de fazer isto andar para a frente”. Teve várias experiências profissionais em diversas áreas e até chegou a ter uma fábrica de brinquedos na Lagoa. Nos tempos livres gosta de receber e as suas festas de Verão são sempre um reencontro de amigos. De onde é natural e como foi a sua infância? Nasci no Livramento, na casa da minha família, uma casa muito antiga e muito bonita, o Solar das Necessidades. Nasci a 27 de Outubro de 1942, estávamos em plena II Guerra Mundial. Era uma época de grande tensão e nasci com uma série de mazelas, mas felizmente havia cá um médico militar, o homem curou-me e lá fui crescendo. Lá em casa era chamado Luís “escusado” porque a minha irmã já tinha mais 5 anos do que eu e os meus outros irmãos já tinham mais 14, 16 e 18 anos. De maneira que fui o Luís “escusado” porque a minha mãe já estava quase a fazer 40 anos quando nasci, o que não era muito normal acontecer. O meu pai era muito mais velho, a minha mãe era muito mais velha, o que deve ter influído na minha vida porque nunca tive um acompanhamento por aí além em termos académicos e eu ia mudando de escola. Foi saltando de professor em professor… Até que fui para a escola do Livramento, porque entretanto os meus pais tinham-se mudado de novo para o Livramento e aí fiz a minha 4ª classe. Depois da 4ª classe continuou a estudar? Fui para o Liceu, depois fui para um Colégio mas como os meus pais viviam no Livramento eu tinha de ir e vir de camioneta. Embora o meu pai tivesse um carro distribuído pelos serviços, eu nunca andei nesse carro. Ele vinha de carro para o seu escritório e eu vinha de camioneta. Na altura também não se podia fazer grandes extravagâncias e nem havia muita coisa para comprar. Lembro-me do tempo do racionamento, logo a seguir à Guerra, e curiosamente o meu pai era Comissário dos Racionamentos, um cargo odiadíssimo porque as pessoas tinham que se limitar àquilo que lhes cabia por causa da guerra. Lembro-me que tinha o meu pacote de açúcar, de 800 gramas ou de um quilo, com o meu nome escrito para me dar para o mês inteiro. São pequenas recordações. Aquele bocado de açúcar era pelo facto do seu pai ser Comissário dos Racionamentos? Não, todos tínhamos direito. E eu também tinha. Depois fui para um colégio, para Tomar, que era quase uma casa de correcção, porque o meu pai era uma pessoa muito antiga que achava que a disciplina era tudo. Fiquei no Colégio três anos mas depois fui convidado a sair. Fui então para um Colégio óptimo no Estoril, mas nessa altura já era adolescente, gostava de sair à noite, ia para os bailes da linha do Estoril. Foram tempos felizes. Bailes que aqui não havia? Havia, mas aqui sempre foi um meio mais pequeno. Havia assaltos de Carnaval e umas festas também. Entretanto acabei por ser expulso daquele colégio também, no 7º ano de Ciências e vim para cá fazer o 7º ano de Letras. Mas aqui também foi engraçado, fizemos umas folias. Fizemos touradas aqui em São Miguel, organizamos uma comissão de festas que chegou a mandar vir touros da Terceira. Fizemos no Cais da Sardinha, pela primeira vez, um restaurante para arranjar dinheiro para podermos ir às outras ilhas. Tudo isso é muito engraçado, mas também tive alguns amargos de boca porque eu pertencia à tal comissão, fizemos uma peça de teatro e fui um dos redactores. A peça de teatro foi um êxito mas houve uns professores que se ofenderam com as piadas e fizeram-nos um processo disciplinar. Entretanto fui para a tropa e a meio da recruta tive de vir cá responder e em vez de fazer a tropa como oficial miliciano, fiz como furriel. Apanhei 12 dias de cadeia suspensa por três anos. Era tudo muito engraçado mas o juiz não quis saber disso. Além disso era continental e nós tínhamos um professor Carneiro e na peça de teatro dizíamos que tínhamos cá uma fauna tão diversa que até tínhamos um carneiro do continente e o juiz achou que aquilo era já uma manifestação revolucionária. Mas depois essa manifestação revolucionária acabou por acontecer mesmo… Sim, 14 anos depois. Mas entretanto fiz a tropa, casei no continente e lá comecei a minha vida de empresário. Trabalhei numa companhia de seguros, vendi papel químico, automóveis. Entretanto, juntamente com o José Pracana fizemos uma casa de fados que foi um êxito, em Cascais. Era uma casa de fado vadio, as pessoas iam lá, cantavam, comiam caldo verde, tínhamos sempre guitarristas para acompanhar, foi uma época engraçada até porque só tinha 24 ou 25 anos. Trabalhei em mais uma empresa lá e vim para cá no tempo dos viteleiros onde fiz, de facto, fortuna muito rapidamente. Comprando gado, vendendo gado, em grandes quantidades. Tinha variadíssimos negócios, fui agente da Ford, o grupo comprou a Finançor, uma fábrica de lacticínios que hoje está abandonada, em Santa Clara. Fiz imensas coisas, umas correram bem outras correram menos bem. Eu vinha de um tempo que aos 20 anos já éramos adultos. Depois houve o 25 de Abril, que todos nós ansiávamos por uma revolução. Porquê? Porque o governo que existia era um governo demasiado conservador e já havia uma contestação generalizada pelo mundo fora. Uma coisa curiosa é que poucos dias antes do 25 de Abril, no Clube Micaelense onde era sócio, encontrei-me com o Melo Antunes e Vasco Lourenço que estavam cá porque tinha havido o “golpe das Caldas” e eles tinham sido colocados aqui. Os Açores estavam numa fase de grande desenvolvimento, tinha havido o Plano Pecuário dos Açores e tinham injectado aqui milhares e milhares de contos, que era uma moeda que valia naquela altura alguma coisa. Havia por isso uma grande pujança de produção na ilha e fazia-se de tudo aqui. Mas queríamos que houvesse uma mudança, que implicaria um reforço da Autonomia. Entretanto, logo a seguir a essas conversas com Melo Antunes dá-se o 25 de Abril e quem é que estava meio organizado já antes do 25 de Abril? O M.A.P.A. – Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano a que pertenci na primeira hora. A primeira coisa que fizemos foi a Associação Agrícola, eu fui um dos obreiros e fiz parte da primeira Direcção. Íamos pelas freguesias, chamávamos as pessoas aos salões paroquiais, alguns padres apoiavam outros não apoiavam. Não queríamos alinhar no comunismo que se tinha implantado entretanto no continente. A verdade é que, se não é o “grupo dos nove ”, tínhamos mesmo ficado comunistas em 1975. Curiosamente aqui nos Açores batemos o pé, antes dos outros lá. A reboque do M.A.P.A., acabou por surgir a FLA. A minha ideia foi bater o pé, fazer um grupo de pressão muito forte e, em último caso, se o país ficasse comunista, conseguiríamos arranjar gente com vontade de fazer isto andar para a frente. Entretanto chegou a ser preso depois do 6 de Junho… Estive lá 20 e tal dias. Depois fez-se a Junta Governativa resultado do 6 de Junho, mas houve gente que fez por esquecer isso durante 40 anos. Como foram passados esses dias que passou na cadeia, com todas as ideias de mudança? Não foram assim tão cor-de-rosa como isso. A cadeia não dava para tanta gente e eu fiquei numa cela sozinho, onde estive os primeiros 14 dias. Lá tinha um balde para as necessidades, uma gaveta para algum resto de pão que ainda tinha o pão do preso que tinha saído umas horas antes para nós podermos entrar. Não foi tão agradável como isso. Hoje é que é tudo cor-de-rosa, mas na altura não era, havia uma vontade de denegrir as pessoas, que éramos fascistas. As coisas passaram e sempre fui fazendo a minha vida de negócios, embora com vários dissabores e injustiças que me marcaram como empresário toda a vida. Mas disse que houve quem esquecesse o valor do 6 de Junho durante 40 anos… Só agora é que nos deram o devido valor. Porque depois da Junta Governativa, que nos deu algum valor, tomei uma posição que depois foi tida como desagradável que foi o 17 de Novembro. No continente houve o 25 de Novembro e acabou o Carnaval comunista, aqui acabámos o Carnaval comunista com o 6 de Junho e reforçámos no 17 de Novembro. Foi uma manifestação enorme para exigir um referendo, porque não faz sentido uma sociedade democrática sem um referendo e naquela altura era proibido o referendo. A FLA contactou todas as ilhas para se conseguir gente para a manifestação e eu fiquei encarregue de arranjar um avião que vinha de Paris com a France Press, e a ideia era passar por cima e filmar a manifestação, para mostrar que havia um movimento global a exigir o referendo. Mesmo que não se fizesse o referendo, interessava a pressão. Mas o governo não caiu em Lisboa. Mas a parte conspirativa era engraçada, porque depois de vir da cadeia fiquei com residência fixa, mas fui pedir ao general para me ausentar porque tinha de vender gado, mas tinha era de ir a uma reunião política em Paris e nas Canárias porque depois vários grupos estrangeiros queriam falar em nome da FLA. Mas nunca houve uma liderança a sério na FLA. Um dos episódios engraçados foi em Agosto de 1975, em que pedi uma licença para ir a Lisboa fazer negócios, e fui-me encontrar com Melo Antunes que era Ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele disse-me que não era a favor da independência mas se queríamos a independência que o fizéssemos até dia 11 de Novembro, porque nesse dia era fechado o capítulo da descolonização. E vida profissional? Manteve-se ligado ao negócio do gado? Tive grandes viteleiros. Em 1971, eu criei e exportei quase 5 mil cabeças de gado aqui. Tinha ficado com umas instalações que eram da Dona Margarida Jácome que ninguém lhe fez justiça, mas foi uma senhora extraordinária em termos de pecuária. Ela importou vacas de qualidade, reprodutores de toda a qualidade, ela é que começou os viteleiros que foi uma grande riqueza aqui para a ilha. Não era ela que tratava do gado, mas foi uma pessoa que teve visão e dinamizou a economia da ilha. Manteve-se sempre nos viteleiros? Continuei no negócio de gado, mas depois com porcos. Mandei vir um avião carregado de porcos da Bélgica e fiz uma actividade grande com os porcos. Cheguei a produzir mais de 90% de todos os porcos dos Açores. Mas depois os porcos foram tabelados abaixo do preço de custo e cheguei a ter mais de 200 toneladas de carne de porco num frigorífico. Os frigoríficos também eram meus mas tinha de pagar a electricidade e às tantas não havia dinheiro para a electricidade, porque os porcos não se vendiam porque vinham de fora. Pagava 15 a 16 mil contos de ração por mês, mas os porcos não se vendiam e iam para o frigorífico, numa altura em que os juros estavam a 30%. Era uma coisa dramática. Mas entretanto a vida dá muitas voltas e comecei no negócio da areia. Como é que foi isso? O processo levou anos até conseguir a licença. Fui ao Instituto Hidrográfico, mergulhei à procura de sítio para tirar areia, até que um engenheiro me cedeu uma licença, com muitas complicações, de garantias bancárias e assim. Com as condições que a areia teria de ser vendida a 3 contos, mas mil escudos era a taxa, 33% pela licença. A praia de Santa Bárbara praticamente tinha desaparecido na Ribeira Grande porque toda a gente ia lá buscar areia e a praia desapareceu. Depois, areia que era dada era revendida a 6 contos o metro cúbico. Eu propus-me a fornecer essa areia a 3 contos. Mas cerca de um mês depois de eu ter a licença deram mais três ou quatro licenças e as coisas foram ficando incomportáveis. Todos esses foram acabando, eu sou o único que me mantenho. É rentável o negócio? É rentável. Paga-se uma taxa violenta mas, sim. Na altura também era se não houvesse tanta concorrência. A areia faz falta e custa muito, os navios são muito caros, as reparações são muito caras. Mas também me dediquei à pesca. Tive sete barcos de pesca e tive uma fábrica de congelação de peixe e de extracção de óleo de peixe gata-lixa, um peixe de profundidade. Aqui nos Açores há muito peixe gata-lixa, depois tira-se a pele que tem várias aplicações, as barbatanas que servem para vender para o Japão, e o óleo. O óleo de gata era uma coisa conhecida porque no tempo da guerra não havia azeite nem combustível para os candeeiros e era com o óleo de gata, e as pessoas habituaram-se a isso. Os alemães até vinham aqui comprar às escondidas a pele de peixe gata que é tão abrasiva que servia para agarrar as balas dos canhões e dos tanques. Faziam umas luvas especiais com aquela pele. Depois veio o atum. Mas havia uma lei do tempo do Estado Novo que dizia que não se podia exportar atum em espécie antes das conserveiras estarem abastecidas. Eu tinha barcos e frigoríficos, logo a minha ideia era exportar e ganhar ali alguma mais-valia. Mas era preciso autorização para exportação, e tínhamos de mandar um telex para a Secretaria das Pescas, no Faial, que às vezes não respondia em tempo útil para podermos marcar o navio para levar o atum, e às vezes estragava-se peixe. Uma coisa constante no que tem vindo a contar é que sempre teve ideias pioneiras... Fui pioneiro em algumas coisas. Até tive uma fábrica de brinquedos, mas aí não fui pioneiro porque comprei a fábrica na Lagoa, tínhamos mais de 40 empregados. Era uma réplica dos Legos, só que o Lego tem uma fixação em losango e a nossa era também em losango mas também tinha o redondo. Isso deu origem a uma patente que custava um dinheirão. Fizemos umas coisas engraçadas, mas o nosso distribuidor em Lisboa foi à falência e uma das razões foi porque deixámos de ter matéria-prima para produzir, porque não conseguíamos importá-la. Também esteve ligado aos lacticínios? Comprei a fábrica de lacticínios de Santa Clara, pu-la a trabalhar mas a fábrica só produzia queijo, enquanto as outras fábricas produziam leite em pó e queijo. Entretanto, surgiu uma taxa de serviço de 20 escudos por quilo de queijo. Um quilo de queijo vendia-se a 80 escudos em Lisboa, mas tinha de se pagar 20 escudos para o queijo poder sair. Nessa altura houve uma greve de três meses dos navios e o queijo amontoava-se, fazíamos estrados por cima do queijo porque todos os dias se produzia mais 2 mil quilos de queijo que não saia. Acabei por requisitar uma vez um avião da TAP que me levou 15 toneladas de queijo e requisitei um segundo avião. Mas uns dias depois recebi um telefonema da Nordela porque o queijo ainda continuava lá porque o Governo Regional tinha requisitado o avião para peixe, que era mais perecível e o queijo ficou para trás. Pedi então ao Governo Regional que me arranjasse um avião para poder escoar algum queijo. Telefonaram para o Ministro da República, que telefonou para o Presidente da República, o General Ramalho Eanes, que mandou um avião C130 que estava na Terceira, passar em São Miguel para carregar 30 toneladas de queijo para levar para Lisboa. Mas disseram-nos às 17 horas que o avião ia passar no dia a seguir. Mas 30 toneladas de queijo não se preparam como quem prepara um quilo de açúcar na mercearia. Tem de ser lavado, depois seco, depois pintado, tem de levar o rótulo, tem de ser pesado, tem de ser posto em caixotes, tem de se fazer facturas e guias e só depois é que pode seguir. Conclusão, fui eu, a minha mulher, alguns amigos, as mulheres todas da fábrica, toda a noite a produzir queijos e conseguimos apresentar 4 ou 5 toneladas que foi o que apresentámos no outro dia. Sente alguma mágoa em falar disso... Sinto uma mágoa de não terem aproveitado os meus talentos como empresário. Quando se tem sete barcos de pesca, cada um com 18 homens, veja a quantidade de famílias que dependem de nós. Nunca houve um que não recebesse o seu ordenado, nunca houve problemas de seguros. Isso dá-me uma certa consolação. No meio das contrariedade há algumas alegrias. Alegrias que se traduziam também em festas, principalmente no Agrião... O Agrião é uma casa magnífica. Era uma casa de família, que estava na família há mais de 200 anos mas que entretanto vendemos e ficámos só com a propriedade. Hoje em dia é tudo mais difícil de manter. Tinha uma caseira que já estava lá antes de eu nascer, mas que faleceu há 10 anos. Continuámos a ir ao Agrião mas tinha de ir sempre um batalhão de gente porque é preciso limpar a estrada para se passar porque tem um caminho de 4 quilómetros para se chegar à casa, que é muito bonita à beira-mar. Mas sempre fui dando as minhas festas, convidando amigos. Gosto muito de receber. É tudo muito bonito, mas é preciso cuidar, tratar. Entretanto surgiram uns russos e vendi a casa. Mas não era só no Agrião que havia festas... Na casa das Necessidades que era da minha mãe, no Livramento, que vendemos a um grupo da Madeira que entretanto faliu e está agora abandonada. Acabámos por vender a casa e antes de sair, porque vivia lá, resolvi fazer uma festa cujo pretexto foram os meus anos e o baptizado dos meus netos, mas no fundo foi o casamento que não fiz da minha filha. Com o pretexto dos anos e da casa, resolvi convidar amigos e fazer uma última festa que foi fantástica. A casa era muito bonita e correu muito bem. Foi há 15 anos e as pessoas ainda se lembram. Gosta de receber amigos e dar festas? Gosto. Sempre que chegam amigos do continente faço festas, no ano passado no Verão fizemos a festa branca. Tenho muitos amigos no continente e quando chegam, telefonam-me e não posso estar a receber um por um e junto sempre toda a gente e corre bem, as pessoas gostam.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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