“Há hoje homens de família que sentem orgulho por terem passado pela Casa do Gaiato”

O que é hoje a Obra do Padre Américo nos Açores? Padre Fernando Teixeira – É uma instituição de portas abertas para receber crianças, jovens e adolescentes com certos problemas. É uma instituição com uma profunda preocupação universal que é acolher criando empatia com as crianças, indicando-lhes cada um dos espaços da casa. O centro da nossa atenção é formar a criança que é recebida. Fazemos mesmo uma recepção a todas as crianças que entram. Todas as pessoas que fazem parte da casa são apresentadas à nova criança para gerar empatia e não haver um impacto forte entre o corte com a família e o novo espaço onde é inserida. Não queremos que o corte com a família seja prejudicial, sobretudo, no âmbito afectivo, de carinho e de amizade. É uma situação em que a criança sai da família e de um espaço escolar onde tem amigos e encontra aqui uma relação de braços abertos. Acolhemos as crianças com muita dedicação e muita delicadeza demonstrando à criança que faz parte da nova família. Nós somos uma família. Que histórias trazem estas crianças? Trazem histórias de lutas de que não falamos. Respeitamos a opinião das crianças. Dão uma ou outra nota mas nunca falamos do passado deles. Criamos uma ligação de partilha com a própria família, facilitando a visita da família aos seus queridos filhos. Os pais vêm, uma vez por semana, visitar os filhos. Temos esta preocupação de fazer com que haja um retorno na relação afectiva com os familiares. As crianças não podem estar com a família e, por isso, estão na Obra do Padre Américo, a chamada Casa do Gaiato. Sim, na Obra do Padre Américo ou em outra instituição que tem o mesmo fim. A Segurança Social tem técnicos empenhados em preparar as famílias para o retorno das crianças. Procura-se criar condições para que haja intimidade, para que haja confiança e para que os filhos possam confiar nos pais. Há situações em que as crianças retornam à família? Sim, quase todas elas retornam à família. A nossa preocupação é esta: Acolher, formar, educar e, depois, integrar as crianças e jovens na sociedade. Mas, integrando-as no ambiente laboral, proporcionando-lhes uma profissão. Recentemente, conseguimos emprego para dois dos mais velhos e eles estão muito satisfeitos. Temos outros que vão para o espaço que temos nas Capelas e trabalham na agricultura e com os animais e, pelo seu trabalho, recebem uma pequena gratificação no fim-de-semana. E queremos que eles saibam que são capazes de constituir uma família e são importantes na sociedade. Queremos que eles constituem uma família boa, uma família bonita, que tenham filhos. O outro dia encontrei um rapaz que passou na Obra do Padre Américo e perguntei-lhe como estava na vida? A sua resposta foi: “Eu sou muito feliz. Temos um segundo filho e damo-nos muito bem. Eu não quero que os meus filhos passam pelo que eu passei e pelo que fiz sofrer aos outros”. É um rapaz que tem o seu emprego e a sua esposa é também empregada. Eles quando nos deixam são convidados. “Digo-lhes que eles têm a direcção da casa e, sempre que tiverem dificuldades, podem procurar-nos”. Há um ou outro que teve menos força para reagir e integrar-se e, lá de vez em quando, aparecem e tomam as refeições connosco. Tratamos deles, lavamos a roupa, damos-lhes todo o apoio. E temos pena de os ver mais desprotegidos. Há crianças que vêm para a Obra do Padre Américo com um corte total com a família? Nunca acontece um corte definitivo. Pode haver um caso ou outro mas não há. E mesmo que haja eu vou dizer-lhe uma coisa: Quando assumimos responsabilidades, existe o segredo profissional e nós temos o cuidado de, sigilosamente, nunca denunciar as famílias em nada. Eles até poderão ter culpa mas nós nunca denunciamos nada, absolutamente nada. Até apoiamos as famílias. Até as vamos visitar. E quando os filhos vão nas visitas às famílias, dos excessos de alimentos e roupas que temos, distribuímos por eles para que levem para seus pais e irmãos. Há esta ligação. Mesmo que haja um corte bastante profundo, não fazemos publicidade disto. O ambiente na família é um ambiente de amor, de respeito. É em família que deverá haver felicidade, a alegria, aquele acolhimento, aquela intimidade entre pais e filhos. O Padre Raul chegou a descrever a situação de um casal que deixou a criança, ainda bebé, à porta da Casa do Gaiato nas Capelas. Estas situações já não ocorrem? Logo a seguir à morte do padre Raul aconteceu-nos o seguinte: Foram dois irmãos (um bebé e uma criança de 2 anos) que foram encontrados pela polícia, a horas adiantadas da noite, sentadinhos a uma porta e vieram trazer-nos. Recebemos as crianças, elas ficaram connosco uma semana e, depois, o caso foi resolvido. Os pais tinham-se ausentado de casa e as crianças saíram da cama, deram por falta dos pais e vieram para a porta. Foi feito um estudo da família, das suas condições e as crianças regressaram a casa. Antigamente apareciam casos de casais que levavam os filhos à Casa do Gaiato mas, ultimamente, situações como estas não têm aparecido. Como é que a sociedade e o mundo laboral vêem estas crianças? No passado, a ‘Casa do Gaiato’ tinha a catequese e a escola dentro da casa. As crianças não tinham contactos com a sociedade. Nesta altura, os rapazes sentiam-se diminuídos. Quando lhes diziam: “Tu és dos gaiatos”, eles não se sentiam bem. Acabou-se com esta situação. Foi decidido que os rapazes devem ir para a escola, ter contacto com outras crianças. A catequese, a missa, os contactos, as actividades extra-escolares, os passeios e as visitas são feitas a interagir com outras crianças. Agora, eles estão integrados, praticam desportos colectivos e convivem. Antigamente, a sociedade tinha a ideia de que a Casa do Gaiato castigava as crianças. Havia a ideia popular de que se acolhia as crianças e que as massacravam. E isso nunca aconteceu. Eu conhecia o Padre Elias, que foi seu fundador. Eu conhecia muito bem o padre Raul. Eu estive numa paróquia que tinha várias crianças na Casa do Gaiato e o padre Raul vinha ter comigo e pedia-me para o ir ajudar. Eu respondia que não porque gostava muito de paroquiar. Mal sabia eu que um dia o Bispo me iria chamar. Tem hoje as estruturas de que necessita para acudir às crianças e às suas necessidades? Sim, temos. Para já, o Instituto de Acção Social comparticipa em todas as despesas. Na parte económica não temos nenhum problema. Na parte da solidariedade social, as pessoas ainda continuam com pequenos gestos de grande significado, oferecendo produtos agrícolas, carnes, peixe. E há pessoas que, mensalmente, contribuem com ajudas para a Casa do Gaiato em dinheiro e bens. Temos recebido camas e colchões. Agora, de Inverno, temos recebido roupas quentinhas para os rapazes. Temos a preocupação de eles tomarem o seu banho e mudarem de roupa todos os dias e irem para a escola com a roupinha lavadinha, já com o seu cafezinho e o seu pequeno-almoço tomado. Temos esta preocupação de criar um ambiente não só de amizade, como também, dentro desta estrutura física, de haver um comportamento e um trabalho conjunto. Todos nós temos a consciência de congregar, de ajudar. Há monitores e pessoas responsáveis que estão sempre com eles porque, como crianças, não podem estar sós. E há crianças que são medicadas e, atempadamente, têm que tomar o seu medicamento. Vão para a escola, têm as suas refeições normais. Quando chegam da escola, têm o lanche. Os que têm actividades extra-escolares são levados para estes ambientes. Fazem os trabalhos de casa com uma assistente. Têm um tempo preciso para irem para o computador. Têm um tempo para falarem, por telefone, com os pais quando eles não vêm cá. Não se perde a ligação com a família e o ambiente na casa vai sempre no sentido de procurar que eles tenham condições de bem-estar juntamente com os outros que estão a passar pelos mesmos problemas. Quantas crianças têm? Temos espaço para 35 crianças e, presentemente, temos 21. Na Casa de Montalegre, temos 8 rapazes e raparigas. Temos lá quatro irmãos que foram separados dos pais. É um casal com muitos filhos e a mãe visita-os muitas vezes. O filho mais novo tem cinco anos e é engraçado como eles se debruçam na mãe, como eles se encostam ao peito da mãe. A mãe vai lá muitas vezes e é bom para estas crianças. Para que não fossem separados criamos uma casa para rapazes e raparigas, fazendo com que os irmãos estejam juntos. Formam um núcleo familiar. É bonito vê-los. Temos a Casa das Laranjeiras onde as crianças estão divididas por idades. A partir dos 16 anos vão para a Casa na rua Domingos Rebelo. Os jovens deixam a Casa do Gaiato com que idade? A partir dos 18 anos podem deixar-nos mas eles continuam e ficam, por vezes, até aos 21 anos até que tenham uma vida definida. Há jovens que chegam a ir para a Universidade? Sim, tivemos um que tirou um curso superior. É Fisioterapeuta e, quando completou o curso, foi uma alegria muito grande. Mas, ainda são poucos aqueles que querem continuar os estudos. É pena porque nós temos informado que podem ir tirar o curso que quiserem e, se quiserem ir para Medicina, podem ir. Quem quiser tirar um curso superior, vamos ajudar e o Governo ajuda. Temos jovens no décimo e no décimo-primeiro ano e estão a ser incentivados a continuar os estudos. E há os que estão nas escolas de apoio. O que esperámos é que eles atingem um certo grau de cultura. Eles chegam aos 18 e os 21 anos e saem por livre vontade para constituírem família. Os mais velhos são autónomos, têm autonomia plena mas controlada. Eles sabem as despesas que se fazem no final do mês, o gás que se gasta, a água que se paga. Eles é que fazem a sua comida, com a presença de um monitor. A comida, em todas as casas, é seguida por uma nutricionista. Ao sábado, eles é que tratam da limpeza da casa para, no dia em que casarem, já conhecerem a lida de uma casa. Aprendem que, quando chegarem ao fim do mês, têm contas para pagar. E, quando têm filhos, é preciso o leite, outros alimentos e roupas. Vamos incutindo-lhes responsabilidades. Conheço muitos que deixaram a Casa do Gaiato, alguns deles ainda no tempo do padre Raul. Um deles é polícia e foi eu que o casei. Nós abrimos uma porta para o futuro deles para que se sintam felizes. E para que um dia eles possam dizer: “Olha, foi bom ter passado na Casa do Gaiato onde aprendi muitas coisas. Hoje sou um marido e um pai feliz”. O que nós queremos mesmo é a felicidade deles. “A Igreja açoriana deve ir ao encontro e acompanhar aqueles que não têm voz” Como está o padre Fernando com 82 anos? Estou bem (sorriso). Já não tenho idade e, sobretudo, espírito de criatividade e inovação. Ainda hoje estive a falar com as técnicas e fiz sentir que a inovação é muito importante, criar coisas novas. O antigo serve de história, serve de ponto de partida mas eu vou inovar não fazendo o mesmo que fazia antigamente. É importante renovar a vida, saborear a vida e criar condições para que todas as pessoas se sintam bem e digam que vale a pena viver. Está a ser humilde… Não estou arrependido daquilo que fiz. Se tivesse de voltar atrás, faria o mesmo aperfeiçoando algumas coisas porque a vida sempre nos ensina. Eu hoje poderia ter uma boa reforma de professor mas, como estava numa paróquia (São Roque) muito numerosa, eu desisti de dar aulas e dediquei-me à paróquia. Foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Aprendi a estar ao lado de uma pessoa pobre, de uma pessoas sem voz, de uma família de 10, 12 e 14 filhos. Estive ao lado de uma outra família que perdeu o marido e a mãe ficou com sete a oito filhos… Como é ser a voz de quem não tem voz? Basta a nossa presença, o nosso sorriso e o nosso passar a mão por cima do seu ombro e questionar: “Em que é que te posso ajudar?”. É que o sem voz não fala senão através de uma outra voz amiga, que seja uma voz solidária. E eu vi imensa gente neste ambiente de tristeza, de mágoa e de infortúnio. Às vezes, refugiavam-se em vícios porque não tinham uma mão amiga. E aí aprendi a ser como Jesus Cristo que era aquele que se deu com os leprosos e com as prostitutas. Ele envolvia-se com os doentes, com os sem voz e com os marginalizados. E todos nós temos a capacidade e temos ambiente para encontrarmo-nos com estas pessoas que são marginalizadas, que são esquecidas, que são apontadas a dedo. E que são postas à margem. Viveu ao lado da pobreza envergonhada… Sim. Posso falar nesta situação porque as pessoas já morreram todas. Quando estava na paróquia da Pedreira de Nordeste, eu tive que dar uma notícia muito triste a uma família de que o filho mais novo faleceu. Na altura (final da década de 60, princípio da década de 70 do século passado) não havia viaturas, não havia táxis e eu tinha transportado o pequeno para o antigo edifício do Hospital de Ponta Delgada. Na noite seguinte telefonaram para mim a informar que o pequeno tinha falecido. Então, a altas horas da noite – logo que recebi a notícia – fui bater à porta da casa onde vivia a família E, ainda do lado de fora, ouvi um dos membros da família dizer: “Deve ser o padre Fernando, o nosso irmão morreu”. Eu ia caindo naquela altura. Entrei e, então, sabe o que é serapilheira? O colchão era feito de serapilheira, os travesseiros eram feitos de serapilheira. E era gente que dava a impressão que vivia relativamente bem. Questionaram-me se era verdade que o pequeno morreu e eu respondi que sim. Disse para se prepararem, ofereci-me para os levar a Ponta Delgada e fazer o funeral. Por eles serem pobres, o caixão deste jovem nem era forrado. Era uma caixa de madeira. E eu disse: “não pode ser. Nem forraram o caixão porque eram pobres. É porque ele está no céu? Esta gente tem voz também. Esta gente tem coração. Quem foi que deu ordem para meter esta criança numa caixa de madeira? Isto aconteceu no velho hospital de Ponta Delgada e nem conheciam a família da Pedreira de Nordeste. E tenho vivido muitas outras situações. Ainda hoje, há pobreza envergonhada. Sim, exactamente. A igreja, também, devia seguir também o exemplo de ir ao encontro daqueles que não têm voz, entrar na casa das pessoas, estar com elas quando nasce uma criança, quando morre uma pessoa. Estar ali, com eles, sentir as suas dificuldades… A Igreja devia ir ao encontro dos pobres. Igreja vai, mas tenho a impressão de que não deve ir só para uma visita mas deve, sim, fazer o acompanhamento. A Igreja deve acompanhar as pessoas, acompanhar os doentes. O Papa Francisco chama a atenção para que os padres saem das igrejas e das sacristias e ponham-se a caminho à procura do encontro . As provas da vida estão nestes contactos que temos com as pessoas. Aprendemos com aquilo que eles são, com aquilo que eles sofrem. Há poucos dias o Papa Francisco dizia que aquilo que nós temos não é tudo nosso. Temos que dar aos outros daquilo que nós possuímos e não é só bens materiais. É o dom da vida, a gratuidade, o respeito, o sorriso, o olhar como Jesus olhava as pessoas. Como Ele sentia quando lhe tocavam e questionava: “Quem me tocou?”. Era uma mulher doente que se aproximou dele, tocou-o e ficou curada. Estas coisas que não se vêem muito, que não se notam muito, aí é que está a Igreja. É no silêncio, no segredo da vida, no coração das pessoas. Nós temos de ouvir o nosso coração. Nós temos a chave do nosso coração. E quando se abre, abre-se para toda a gente, a começar pelos mais pequeninos e chegando àqueles com quem não simpatizamos muito. Isto é ser Igreja. Será que eu estou a ser Igreja? Gostaria, realmente, de ser um membro revolucionário pela paz, pelo amor, pela solidariedade, pelo bom ambiente de família. Quantos casais estão a sofrer? Quantas famílias estão a sofrer? Quantos jovens estão a sofrer? Quantas crianças estão a sofrer? Quantos desempregados? Quanta fome não se passa por aí? Vivemos uma época tecnológica muito importante. E aquilo que é mais importante que é a vida? E ser Igreja é dar mais vida à própria vida. Uma última questão. Em sua opinião, que relação devem ter os recasados com a Igreja? (Silêncio). Olhe, eu vou dizer-lhe uma coisa: Eu nunca olhei para isso e recebo todas as pessoas, quer no confessionário, quer na comunhão. Venham-me condenar! Eu nunca rejeitei ninguém. Jesus Cristo chamava os pecadores e nós vamos afastá-los?
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Autor: João Paz

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