Luís Anselmo confessa que se sente “muito feliz por participar num projecto desta dimensão social”

O economista Luís Anselmo voltou a São Tomé para ajudar mais uma vez no Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá, que conhece há cinco anos. Começou por colaborar com o Frei Fernando Ventura na criação do “Banco de Leite” que recebe leite em pó de três fábricas de São Miguel para ajudar a alimentar as cerca de 1.300 crianças que integram o projecto. Nesta segunda visita à cidade das Neves, conta que já vê resultados “animadores” entre o que encontrou em 2016 e actualmente. Por esta altura esteve com o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, que visitou o PDIL durante a sua visita oficial a São Tomé. Correio dos Açores - Está envolvido neste projecto de desenvolvimento integrado de Lembá há algum tempo e foi agora pela segunda vez de visita a São Tomé. Consegue ver diferenças entre a primeira visita e agora? Luís Anselmo (economista e evoluntário em São Tomé) - Estou envolvido neste projecto, denominado de PDIL - Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá, que se desenvolve na cidade de Neves, no noroeste da ilha de São Tomé, vai para 5 anos, e por influência do Frei Fernando Ventura. Estive em São Tomé em Novembro de 2016 e voltei agora. O que noto é deveras animador. Uma evolução grande no número de crianças na Escola Básica “Mãe Clara” e no Jardim “O Pimpolho”. São quase 1.300 crianças, muitas resgatadas das várias Roças da redondeza. As instalações foram entretanto melhoradas e funcionam em regime de desdobramento tal é o número de utentes. Há uma nova valência, a Creche “O Ninho” com capacidade para 60 crianças que em pouco mais de uns meses já tem 42 utentes. Alguns são bebés sub-nutridos que estão a recuperar. Esta creche recebeu um financiamento do Rotary Club de Ponte de Lima. Há agora um Polidesportivo financiado pela Fundação Benfica, para apoio à educação física e desporto destas crianças. E há já duas estufas-abrigo a funcionar, que tiveram o apoio técnico de um casal açoriano: a Biló Rodrigues e o António Cordeiro. Foi criado um site do PDIL “www.pdilemba.com” e um Grupo no Facebook “De Ilhas para Ilhas” para melhor comunicar e dar mais visibilidade ao projecto. Quanto mais conhecido for o projecto mais fácil se torna angariar fundos para o seu funcionamento. O PDIL cresce e com isto o desafio aumenta. São mais de 1.800 refeições por dia que são confeccionadas nas próprias instalações, para as crianças, para os idosos do Lar de São Francisco e para idosos de outra vila próxima. Diariamente vai uma viatura fazer a distribuição de comida por estes idosos. Muitos deles estão abandonados à sua sorte. No total são mais de 250 idosos apoiados. Em relação às várias valências do projecto nas Neves, do seu contacto in loco, tem sido fácil conseguir dar a resposta necessária a todas as crianças e idosos? Não tem sido fácil. É muita gente para alimentar. É um desafio tremendo que a responsável, Irmã Lúcia Cândido, tem de enfrentar diariamente. Deus sabe como consegue multiplicar e dividir alimentos. De referir que a gestão do PDIL é da responsabilidade das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição que têm uma comunidade de quatro irmãs. A instalação das estufas-abrigo teve o objectivo de dar mais sustentabilidade alimentar ao projecto. E, de facto, tem resultado. Mas é preciso mais ainda. Tem apelado (no grupo do Facebook) para a necessidade de financiamento. Com pouco pode-se fazer muito? Como é que se pode ajudar? Basta doar (dinheiro ou bens) ou cada pessoa também deve dar o seu contributo enquanto voluntário? O PDIL tem um orçamento anual de 200.000€. Destes, 150.000€ são financiados essencialmente pela Cooperação Portuguesa e um pouco pelo Governo de São Tomé. Falta uma importante componente de 50.000€ que o PDIL tem de angariar mês após mês. Temos um Grupo no Facebook “De Ilhas para Ilhas” com mais de 2.300 membros. Bastava um donativo mensal de 1€ e mais de metade deste valor seria atingido. E pode ser através de uma ordem permanente de transferência bancária feita no site de cada banco, e sem custos, para o IBAN que está no Grupo. O Grupo está aberto a receber mais membros e queremos ultrapassar os 3.000 membros este ano. Quanto a voluntários a ida tem de ser planeada porque a capacidade de alojamento é limitada e dá-se prioridade, neste momento, a médicos e educadoras. Na primeira vez que visitou São Tomé falou em estabelecerem-se protocolos entre instituições dos Açores e de São Tomé. Já houve alguma intenção ou desenvolvimento nesse sentido? Houve já apoios pontuais de pelo menos três instituições dos Açores, para apoio financeiro, vestuário diverso e material didáctico. Mas não é fácil mandar mercadoria para São Tomé. Falou também, nessa altura, na possibilidade de haver um apadrinhamento de voluntários por parte de empresas. Isso tem-se conseguido? Conseguimos que a ida do casal que foi montar as estufas-abrigo fosse suportada por uma instituição açoriana, que apadrinhou a iniciativa. O “Banco de leite”, iniciado pelo Frei Fernando Ventura foi o projecto que lhe deu a conhecer o PDIL. O “Banco de leite” ainda recebe leite em pó dos Açores? Continua a fazer-se essa parceria? O envio de leite em pó continua a funcionar, e bem, com o apoio imprescindível de três fábricas de lacticínios de São Miguel. E isto tem sido de grande importância para a alimentação das crianças. Praticamente não há gado de leite em São Tomé. O projecto PDIL foi visitado pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, como foram os preparativos para esta visita? Tem havido uma grande azáfama. Treinos de danças das crianças, retoques de pinturas nas instalações, limpezas variadas, decoração das salas e espaços comuns com desenhos feitos pelas crianças, etc...Toda a organização do PDIL quer mostrar à comitiva uma boa imagem deste importante projecto. Que mais-valias é que esta visita do chefe de Estado pode trazer para o projecto? A grande mais-valia da visita do Senhor Presidente da República é a notoriedade que está a dar a este importante projecto. A comunicação social portuguesa está aqui em peso e começa a descobrir o PDIL, a sua dimensão e os seus efeitos sociais junto destas comunidades tão carenciadas. Como é que se sente de cada vez que vê a evolução daquilo que tem sido feito pelo projecto das Neves? Sinto-me muito feliz por participar num projecto desta dimensão social e de ser uma pequena peça desta enorme engrenagem que é o PDIL. É o mínimo que devo fazer para facilitar a vida de outros que infelizmente, e sem culpa alguma, aqui nasceram e aqui vivem, com enormes carências de toda a natureza. A sua ligação com São Tomé e com este projecto em particular... como a definiria? A minha ligação com São Tomé é muito afectiva e também representa uma homenagem ao meu falecido pai que fez várias comissões militares em África. E sempre teve um carinho muito especial por estas populações. E esta referência paterna conduz-me por estas geografias. E assim continuarei a trabalhar para o PDIL a partir dos Açores.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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