24 de fevereiro de 2018

“A Ribeira Grande é riquíssima a nível associativo mas falta um espaço para as associações terem uma sede condigna para desenvolverem o seu trabalho”

Correio dos Açores: Como e quanto te apercebeste do teu gosto pelas artes? Rui Faria: Ainda muito novo, talvez com 8 anos de idade, os meus pais colocaram-me a aprender música, nomeadamente piano. A partir daí fui experimentando outros instrumentos, até chegar ao meu de eleição, a viola. Pode-se dizer que o meu gosto pelas artes começou com a música. O teatro é uma paixão ou apenas um hóbi? O teatro é decididamente uma paixão. Foi uma paixão que veio tarde, apesar de na escola primária tenha feito alguma coisa neste sentido, mas foi a partir do momento em que entrei num grupo de teatro na Universidade que me deixou uma marca que nunca mais deixei de fazer, representar, escrever e encenar no mundo do Teatro. Em que circunstâncias nasceu o grupo Teatro Ajurpe? Nasce em 2006, quando um grupo de amigos, onde eu me incluo, decidiram que Rabo de Peixe tinha e tem muito potencial cultural e que deveria ser mais promovido e aproveitado. Neste sentido, a Ajurpe nasce como desafio a nós próprios, jovens que queriam fazer outras coisas que não a participação em filarmónicas ou despensas. Desde cedo que divulgamos o património edificado em Rabo de Peixe, várias exposições históricas das tradições mais marcantes de Rabo de Peixe, até que o Teatro assumiu um lugar preponderante. Hoje em dia, quase 12 anos depois, creio que temos feito muito pela divulgação e bom nome desta grande Vila de Rabo de Peixe, culminando na tournée de 4 espectáculos de teatro, no ano passado, no norte de Portugal – uma experiência inesquecível e que certamente levou o nome da nossa Vila muito mais longe e com outras conotações mais positivas. Qual tem sido a actividade do Grupo de Teatro Municipal Figurino? O Figurino nasceu em 2007, aquando das comemorações dos 500 anos de elevação a Vila da Ribeira Grande. Durante alguns anos promovemos a história local junto de escolas e público em geral através da Arte, nomeadamente no Teatro. O Figurino está agora em estado de pausa, mas creio que brevemente poderemos continuar a trabalhar para que o se possa Figurino reerguer e continue o óptimo trabalho que fez durante 7 anos, até 2014. O que te mais satisfação. Encenar um representar uma peça de teatro? São duas coisas completamente diferentes, mas que ambas adoro fazer. Encenar é muito mais cansativo, exigente e, ainda por cima, gosto de escrever as minhas próprias peças de Teatro. Mas encenar permite-me também ter uma relação pessoal com o ator, aprendendo muito mais com os outros do que como actor. Por outro lado, ser actor é um desafio diferente mas que continua a ser uma chama viva e sempre que posso coloco-me nesta posição. Para mim, o Teatro é muita coisa e com um objectivo claro de entreter, mas também educar públicos para a cultura, seja na comédia ou outro estilo. Como surgiu o teatro de rua? Surgiu através de convites que fomos recebendo para animar festas em Rabo de Peixe. Criamos “quadros” de comédia que tiveram tanto sucesso que, hoje em dia, somos solicitados para fazer teatro de Rua em toda a ilha de São Miguel, inclusive já o fizemos em outras ilhas açorianas. É algo que, apesar de muito cansativo, dá-nos um prazer imenso, dado a proximidade que temos com o público. Conta-nos quais os objectivos que estiveram na base do projecto “5 passos, 5 histórias” dedicado às crianças. Este projecto nasceu com o Figurino. Desenvolvemos um roteiro histórico no centro da cidade da Ribeira Grande, onde passamos por ruas, estátuas, edifícios e as turmas escolares ou turistas tinham direito a ouvir a história destes locais. O que nos diferenciou foi a dramatização que fizemos, pois as histórias eram contadas por figuras históricas, como o Rei D. Carlos ou o Gaspar Frutuoso, entre muitas outras, sempre adequadas à situação em particular. Foi algo que teve um sucesso tremendo com as escolas e com vários grupos de turistas. Foi uma forma diferente de contar a história e que contagiou todos os que nela participaram. Algo que deveria continuar. Com várias actividades culturais que se desenvolvem na Ribeira Grande, consideras que esta cidade já atingiu o patamar cultural desejável? A Ribeira Grande é neste momento um centro cultural, sem dúvida. Com equipamentos culturais municipais de excelência, desde os seus museus à sua nova biblioteca, mas também com equipamentos do Governo Regional, caso do Centro de Arte Contemporânea. O que a Ribeira Grande conseguiu ao longo dos anos foi uma aposta ganha, pois somos o único concelho açoriano que tem os seus museus municipais na Rede Portuguesa de Museus, prémios da Calouste Gulbenkian, entre outros. Claro que nunca está tudo feito, nem pode estar – não podemos estar satisfeitos, pois a nossa inquietação é que nos faz avançar. Creio que o próximo passo seja mesmo a modernização do Museu Municipal e da Emigração Açoriana, pois são os pólos museológicos mais visitados na Ribeira Grande e necessitam de um investimento para que possam continuar a servir melhor os seus propósitos. Ainda há pouco tempo apostou-se, e muito bem, nas valorização dos nossos moinhos de água, exemplo a seguir, certamente. Estamos no caminho certo, não podemos é descansar com os louros obtidos – lutar para sermos melhores e os melhores! Falta na Ribeira Grande algum equipamento cultural? A Ribeira Grande é um concelho riquíssimo a nível associativo e falta um espaço, o qual o sr. Presidente já viu o seu potencial e certamente irá atender positivamente, que possa dar condições a algumas associações culturais do nosso concelho terem uma sede condigna para que possam desenvolver o seu trabalho. Um espaço desta natureza seria uma “almofada de ar fresco” para o movimento associativo ribeiragrandense. “As Capelas Privadas na Sacralização do Espaço Micaelense” foi o título da tua tese de licenciatura. Podes resumir em que consistiu essa Tese? A minha tese de licenciatura explanou sobre as dezenas de capelas privadas da ilha de São Miguel, influindo sobre a sua história e marca no território urbano das nossas freguesias. O estudo centrou-se em todos os concelhos da ilha micaelense e propus-me provar a marca toponímica que estas capelas, fruto de histórias riquíssimas de famílias açorianas e não só, tiveram no espaço micaelense. Este foi um trabalho muito proveitoso a nível pessoal e, creio eu, poderia ser um bom tema a explorar numa futura publicação. Quais os objectivos para o teu mandato à frente da Associação dos Emigrantes dos Açores? O mandato de 3 anos a que me propus centrou-se em três grandes objectivos. O primeiro é a promoção da história e cultura da emigração açoriana. É nosso objectivo divulgar esta riquíssima história nas escolas açorianas com o apoio do Museu da Emigração Açoriana, através de um projecto começado há uns anos e que agora queremos dar um andamento sistemático em todas as ilhas, só possível com o apoio da Direcção Regional da Educação, e que cremos ser também do interesse do Governo Regional. O segundo objectivo é focarmo-nos na necessidade dos jovens descendentes da nossa emigração se interessarem mais nesta rica história da emigração, na história que levou os seus pais para a terra onde agora vivem e estudem. Temos de nos focar nesta juventude que está desligada dos Açores, desligada das raízes de seus pais. Temos de fazer este trabalho com ferramentas adequadas à idade e realidade deles, como as novas tecnologias e novas tendências artísticas. O terceiro objectivo é a consolidação financeira da Associação.
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