“Os Açores têm muita coisa boa para oferecer ao mundo da cosmética”

A jovem empresária açoriana Susana Benevides é a prova que também se podem realizar sonhos nos Açores. Começou por fazer sabonetes, já faz champôs, lança em Março um condicionador e prepara uma parceria com um grupo empresarial de referência dos Açores. Está sempre vigilante para as inovações que vão surgindo no mercado. O melhor elogio que um cliente lhe fez foi dizer-lhe, um dia, que os seus sabonetes eram importados. Quando soube que eram da Susana ainda ficou com o pé atrás mas acabou por se render à evidência. “Os teus produtos são de muito boa qualidade, gourmet!”, disse-lhe. E a jovem empresária confessa que esta observação a encheu de orgulho “e deu-me mais vontade de melhorar”. Correio dos Açores - Começou a Flora Azorica com o sabão, conhecido na sua família, como ‘Lava e Descasca’, que limpou literalmente a gordura da frigideira. Pode recordar como foram estes primeiros momentos? Susana Benevides (Flora Azórica Saboaria Artesanal) - O bichinho do fazer sabão começou de uma forma engraçada, ofereceram uma “receita” de sabão caseiro que era feita a partir de óleos de cozinha usados. Ainda não sabia como se processava o sabão, e aquele primeiro deu errado. Ficou duro demais e não consegui fatiar, mas eficaz lá era ele! Depois de limpar aquela frigideira danada tão facilmente fiquei muito feliz e empolgada. Ali nasceu a vontade de criar e aprender mais profundamente sobre a arte de fazer sabão. Quais foram os passos seguintes que deu? Fez algumas experiências? Que resultados obteve? Tenho a sorte de ter muitos amigos no estrangeiro e um deles, por acaso, pertencia a uma coligação internacional de saboeiros. Através dele, entrei e aprendi muito. Os primeiros tempos foram muito difíceis. A conciliação dos horários das formações (tudo via Skype) com o trabalho que tinha na época era difícil pois, para cada área, tinha orientadores diferentes e de várias partes do mundo. Por outro lado, a obtenção de matéria prima foi difícil. Costumavam apelidar-me de Crusoe pois estava perdida no meio do Atlântico e tudo levava uma eternidade a cá chegar. O aperfeiçoamento das minhas fórmulas levaram o seu tempo, muitas tentativas falhadas mas é o normal quando criamos algo. Existe um savoir-faire quando se trata de sabão, pois podes ter a melhor fórmula do mundo e não aplicares o procedimento correcto e terás um falhanço total. Com sabonetes em casa, era preciso colocá-los no mercado e vender. Como se aproximou do mercado? A princípio, não pensei em vender ou criar sequer a Flora Azorica. Fazia porque gostava e era um escape à vida do dia a dia. Oferecia a amigos, familiares e o feedback era bom. Uma amiga em especial incentivou-me a levar a Flora Azorica a sério. Posso afirmar que a Ondina Vieira foi quem me fez acreditar que a Flora Azorica Saboaria Artesanal tinha potencial para sair do mundo dos sonhos e tornar-se realidade. Comecei a experimentar, a levá-los à Feira das Traquitanas e também na época as Sweetheartes foram uma força impulsionadora na divulgação do produto. Quando uma pequena empresa tem os primeiros produtos no mercado, a preocupação é seguir as vendas, mas também procurar novos produtos de cosmética com rótulos apelativos. Como conseguiu evoluir? O design de embalagens nunca foi o meu forte, mas lá desenvolvi os meus primeiros rótulos com a ajuda da coligação. Agora, tive a sorte de conhecer a Rita Trindade que me está a renovar a imagem da marca. E está a ficar muito bonita! Toda a gente toma banho! Faz parte da nossa rotina, é um bem essencial ao nosso bem-estar. Tenho compradores locais e estrangeiros. Costumo brincar e dizer que o meu sabão agrada a gregos e troianos! A evolução é contínua, pois novas tendências e técnicas estão sempre a entrar no mercado e tenho de estar sempre a par. O segredo é ter sede de conhecimento e não desistir face aos entraves que possam surgir. No último ano como tem evoluído a Flora Azorica? Que novos produtos colocou no mercado? O último ano foi um ano de grandes conquistas no campo da formulação de produtos. Sem dúvida o mais badalado é o champô de Urtiga Branca & Alecrim. É prático e eficaz, pode levar-se sem problemas nas viagens e muito em breve vamos ter o condicionador sólido de Banana & Abacate. As loções sólidas também serão lançadas agora em Março. Que reacções têm os clientes aos seus produtos? Pode descrever-nos algumas reacções? Uma das reacções favoritas foi a de uma moça, com a qual trabalhamos frequentemente. Julgava ela que os sabonetes eram importados devido ao seu aspecto! Quando lhe contei que era eu que os fazia ela ainda ficou de pé atrás, foi deveras engraçado! Adorei o feedback dela: “Os teus produtos são de muito boa qualidade, gourmet!”. Encheu-me de orgulho e deu-me mais vontade de melhorar. Notamos que concilia muito a natureza com os produtos que a Flora Azorica produz. Pode falar sobre esta relação? Eu e a Mãe Natureza... Sabe, desde pequena que tenho uma relação de adoração por ela... Costumo dizer muitas vezes: “A Mãe Natureza sabe melhor!” E sabe! Desde os tempos antigos que usamos as ervas, o mel, as argilas... tudo para cuidar de nós, pois sabemos os inúmeros benefícios que nos trazem. Os Açores têm muita coisa boa para oferecer ao mundo da cosmética, e já existem muitos interessados em promover isso mesmo. É uma prioridade para mim dar a conhecer o que a nossa terra tem para oferecer e se é bom, acredite vai encontrar nos produtos Flora Azorica. Quais são os projectos da Flora Azorica para o futuro? O principal projecto da Flora Azorica é, sem dúvida, a incubadora Azores Craft Lab, pois é o que nos vai dar os impulsos que precisamos agora. Em paralelo, estamos a estudar uma parceria com um grupo de referência da Região. É mesmo uma amante da natureza. De que forma a preocupa a densidade crescente de pessoas nos trilhos da Região e, sobretudo, de São Miguel? Deve estabelecer-se regras e limites? Vê com bons olhos que se comece a definir taxas de entrada para turistas em alguns trilhos de São Miguel? Acredito no bom senso das pessoas. A Natureza é o nosso cartão de visita e, como tal, deve ser protegida e cuidada para que todos possamos usufruir dela. Como tudo na vida, devem existir regras e limites mas também devem ser criadas as condições para que isso seja feito de forma correcta. Tem algo mais a acrescentar que considere interessante no âmbito desta entrevista? Para quem desejar conhecer mais um bocadinho da Flora Azorica Saboaria Artesanal pode visitar a loja Innovare no Largo de São João em Ponta Delgada. Gostaria de agradecer a todos quanto ajudaram a tornar esse sonho possível.
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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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