“Partilha na internet sem precaução com a possibilidade de seguir pessoas ou de ser seguido leva a que não haja fronteiras entre o espaço privado e o espaço público”

Hoje assinala-se o Dia Europeu da Internet Segura. Na contemporaneidade são muitos os riscos que as crianças e jovens têm ao viajar na internet. Por isso, a directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências deixa em entrevista alguns alertas aos pais e educadores, em particular, e à sociedade civil, em geral. Todos os cuidados são poucos e para evitar a dependência do mundo virtual , por isso pais e educadores deverão, entre outros, valorizar os contactos pessoais com a família e amigos, incitá-los a praticarem desporto ou outras actividades, diz Suzete Frias. Correio dos Açores: Cada vez mais a nossa sociedade está “dependente” das novas tecnologias (telemóveis, tablets, computadores…) quer seja no trabalho quer seja na vida familiar. Como tudo na vida, quando utilizado de forma saudável nada a acontecer, só que são muitos os especialistas que chamam a atenção para o facto de a utilização constante e permanente trazer graves consequências à vida do indivíduo. Como pode a sociedade ajudar? Suzete Frias (Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências): O uso das novas tecnologias no nosso dia-a-dia é uma realidade incontornável, que não podemos ignorar, mas é importante estarmos atentos aos efeitos aditivos destas ferramentas e aos riscos intrínsecos ao uso nocivo, como a utilização destas por abusadores e agressores. A falta de consciência destes riscos inerentes, leva a processos invasivos nas vidas de muitas crianças e jovens sem que os pais, ou outros adultos, tenham percepção. É importante que todos tenhamos consciência que, hoje em dia, a internet não é um mundo paralelo, mas uma extensão da vida. É um espaço público com um potencial ilimitado que quando bem utilizado, pode ser um óptimo recurso no trabalho, na escola ou outros contextos. Para que não se ultrapasse a linha, entre o uso racional e a dependência, desde cedo devem ser ensinadas todas as regras e precauções de interacção a ter neste espaço público. A confiança na internet aumentou e esta alimenta grande parte da comunicação do dia-a-dia. Que estratégias estão delineadas pelo executivo açoriano para apoiar as nossas crianças e jovens em casa e na escola? O Plano Regional de Intervenção em Comportamentos Aditivos e Dependências que está a ser delineado, bem como o estudo sobre esta temática que está a decorrer, contemplam os comportamentos aditivos e de dependência não química. A título de exemplo de acções já levadas a cabo, a DRPCD, em parceria com a Unidade de Saúde de S. Miguel, iniciou no ano passado formação às escolas sobre os cuidados a ter no uso da internet e jogos on-line pelas escolas de S. Miguel. Faz parte do nosso Plano de Actividades continuar a alargar esta formação a todas as escolas da região. Realço ainda, as equipas de saúde escolar que tem uma cobertura a 100% das escolas e que têm desenvolvido acções de sensibilização nesta área. Que papel podem ter o pais e os educadores para que os nossos jovens não fiquem dependentes? O mau uso e abuso das tecnologias digitais podem limitar o crescimento social da criança e jovem e privá-lo de experimentar coisas novas e de passar o tempo com a família e amigos. A dependência não só interfere com as responsabilidades e relações sociais reais da pessoa, como afecta a saúde, no caso de abuso grave poderá afectar o volume do cérebro, sendo as alterações cerebrais similares às produzidas por algumas substâncias psicoactivas, acarretando alterações no processamento das emoções e do funcionamento cerebral. Actualmente, cada vez mais as crianças e jovens, são afastadas de uma socialização saudável e presencial devido ao aumento da acessibilidade a estas tecnologias. É, portanto importante termos a noção das consequências que podem vir do uso abusivo, como a solidão, a dependência tecnológica, o isolamento, a tristeza, a depressão, ansiedade, impaciência, alterações de humor, estado de consciência alterado, irritabilidade, desatenção, apatia, ansiedade, privação do sono, obesidade, distúrbios alimentares, timidez, fobia social, entre outras. Os factores de risco que favorecem a vulnerabilidade à dependência da Internet, poderão ser introversão, baixa auto-estima, uma busca de sensações, deficit nas relações interpessoais: timidez e fobia social, atenção dispersa e tendência para a distracção. Os pais e educadores deverão estar atentos a mudanças radicais que a criança ou jovem possam ter nas suas rotinas e hábitos, como o evitamento de actividades importantes de modo a ter mais tempo para o uso da internet, diminuição da sociabilidade, recusa em dedicar tempo extra a actividades fora da rede, negligência no estudo e nas obrigações pessoais ou diminuição generalizada da actividade física. Deverão ser tomadas medidas preventivas não só da dependência, mas de outros danos que possam advir do uso da internet. No caso das crianças mais novas, os pais deverão limitar o acesso à internet aos contextos onde as possam supervisionar e estipular períodos de tempo para o seu uso definindo horários e rotinas familiares para a utilização do telemóvel e computador. É importante educar os filhos para os riscos: do envio de fotos, informação pessoal a desconhecidos, de postar ou guardar informação comprometedora, e alertar para que nunca respondam a mensagens de pessoas desconhecidas Em geral pais e educadores deverão: valorizar os contactos pessoais com a família e amigos, incitá-los a praticarem desporto ou outras actividades; promover um relacionamento de confiança, onde estes sintam abertura para colocar as dúvidas que tenham ao adulto e onde tenham à vontade para partilhar sempre que recebam mensagens que os deixem desconfortáveis; alertá-los para os perigos da internet como por exemplo: roubo de identidade, acesso a informação pessoal confidencial, cyberbullying, exposição a predadores sexuais ou a jogos de manipulação e chantagem. É também essencial informar as crianças e jovens para as consequências de informação ou fotografias postadas online. A partir do momento em que são publicadas, ficam lá registadas para sempre e podem ser editadas com o propósito de infligir danos. No caso dos pais, estes deverão certificar-se que conhecem as características do telemóvel dos filhos e ter controlo sobre os mecanismos wireless que podem ser usados. Hoje, dia 6, assinala-se o Dia Europeu da Internet Segura. Que mensagem se deve passar neste dia aos utilizadores? A globalização da comunicação encurtou distâncias no nosso planeta, podemos estar conectados com várias pessoas por todo o globo em simultâneo, isto leva-nos a um sentimento de maior ligação às pessoas que nos rodeiam, contudo quando o uso é abusivo, as próprias tecnologias digitais que nos ligam aos outros passam a ter um efeito de alienação, isolamento e tornam-nos dependentes. O uso da internet, telemóveis, iPods, videojogos, é fonte de prazer e fundamental à vida contemporânea, mas todas apresentam propriedades de dependência e de abuso que podem alterar o nosso humor e a nossa consciência e levar à confusão da vida real com a vida virtual. A partilha na internet sem precaução com a possibilidade de seguir pessoas ou de ser seguido, em todos os movimentos que fazemos, por posts ou tweets, leva a que não haja fronteiras entre o espaço privado e o espaço público. É importante passar a mensagem; Que a tecnologia é útil e fundamental na sociedade contemporânea, mas não deixa de ter um impacto sobre nossa saúde e bem-estar; Que com moderação, existe um lugar para todas estas tecnologias; Que o abuso dos meios de comunicação digital leva a uma alteração do humor e da consciência e são, portanto, instrumentos poderosos, que devem ser respeitados e limitados; Que o mau uso afasta a pessoa do esforço real de se relacionar, de manter a intimidade e a comunicação. Que o nosso cérebro não está preparado para um estado constante de excitação. Ter portabilidade e acessibilidade constante sendo prático, atractivo e divertido, é também altamente distractivo, o que a médio prazo leva a alterações da concentração e da atenção. Quanto maior for a nossa percepção sobre o poder que as tecnologias exercem na nossa vida, maior a noção que temos do impacto negativo que o seu uso e abuso podem trazer. Precisamos aprender a viver a nossa vida usando-as de forma consciente, e integrá-las de forma mais equilibrada, para não vivermos uma “alegoria da caverna” do século XXI, confundindo a realidade com o virtual.
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