Qualquer estratégia de combate à pobreza terá de investir para construir um “sonho açoriano”

Piedade Lalanda, socióloga e docente na Universidade dos Açores, refere que, no combate à pobreza e à exclusão social, “é fundamental, intervir no sentido de promover uma maior participação das famílias na transformação das suas histórias”, defendendo que qualquer estratégia de combate à pobreza terá de investir quer ao nível do mercado de emprego, quer ao nível das condições das famílias, melhorando as perspectivas de futuro, criando ambição e objectivos, quase que diria, construindo um “sonho açoriano”. No seu entender, ao nível da sociologia, por que motivo existe tanta pobreza nos Açores actualmente? A pobreza é um fenómeno pluridimensional que não se mede apenas pela sua vertente monetária, apesar de, para a maioria das pessoas, ser essa a principal forma de classificar alguém de “pobre”. Quando se analisam os dados publicados no último Inquérito às Despesas das Famílias (IDF), os Açores aparentemente estariam bem posicionados, já que o rendimento total líquido das famílias açorianas é o segundo mais elevado do país, a seguir a Lisboa. No entanto, esse rendimento está mal distribuído, ou seja, poucas famílias tem um rendimento médio elevado e muitas famílias um rendimento muito baixo, o que se traduz num Coeficiente de Gini mais elevado (33,8%) do que o registado nas outras regiões do país. Por outro lado, o rendimento médio das famílias açorianas é essencialmente resultante de salários e trabalho por conta de outrem. A região, a seguir de Lisboa, é aquela onde se regista menor percentagem de rendimento não monetário. Isso significa, por exemplo, que nos Açores há muito pouco rendimento obtido pelas famílias a partir do auto-consumo. Somos uma região fértil, temos terra, mar, recursos naturais e capacidade para produzir, mas, na prática, as famílias com menores recursos, dependem quase exclusivamente do rendimento monetário para adquirir os produtos essenciais. Segundo o IDF o auto-consumo representa apenas 0,4% do rendimento médio das famílias açorianas. Este facto pode explicar os valores da taxa de pobreza registados nos Açores (27,5%) quando comparados com outras regiões ou com a média nacional (15,9%). Estamos perante um número significativo de famílias que, por um lado, trabalham mas obtêm rendimentos insuficientes desse trabalho, fruto quer das suas qualificações ou do valor médio dos salários pagos nos sectores que mais empregam, como sejam, a agricultura, a construção civil, alguns dos empregos nos serviços, nomeadamente no mundo da hotelaria e da restauração. Por outro lado, essas famílias com baixos rendimentos monetários, não investem em auto-consumo, o que significa, não rentabilizam terrenos agrícolas, eventualmente, porque não se aposta em soluções comunitárias de produção hortícola ou outro tipo de recursos. Que medidas poderia o Governo Regional tomar para combater a pobreza no arquipélago? Para combater este contexto sistémico e inter-relacionado de factores que concorrem para a pobreza das famílias, existem vários tipos de medidas, sobretudo de carácter estrutural. Em primeiro lugar, a trave mestra do desenvolvimento assenta na qualificação das populações, na melhoria dos empregos e dos rendimentos salariais, na criação de oportunidades de trabalho qualificado e na captação de recursos, cada vez mais qualificados, pelo tecido económico dos Açores. É importante que as empresas se estruturem com base em mão-de-obra qualificada, a quem possam proporcionar horizontes de crescimento e objectivos de carreira. A fixação de mão-de-obra qualificada, não apenas no sector dos serviços, mas sobretudo, na agricultura e na pesca, pode gerar mais riqueza e mais oportunidades de emprego; pode fixar mais jovens qualificados na região e, por esta via melhorar o rendimento médio destas famílias. Um segundo aspecto importante prende-se com a cultura das famílias, ou seja, o modo como se combatem as carências e se actua, essencialmente, em situação de emergência, resolvendo as dificuldades do dia-a-dia, sem trabalhar com as famílias a sua autonomia e capacitação. Apostar no auto consumo, investindo em soluções de apoio à horticultura familiar ou comunitária, é uma das estratégias. Em suma, é fundamental, intervir no sentido de promover uma maior participação das famílias na transformação das suas histórias, nomeadamente apostando na escolarização, na saúde, na redução de consumos tóxicos (ex. Alcoolismo e outras dependências), na integração das mulheres no mercado de trabalho. A pobreza, como referi, não se constrói apenas pela falta de recursos monetários, mas pela vulnerabilidade e fragilidade das relações dos cidadãos em matéria de cultura, participação e sobretudo, autonomia. Se apenas se alimentar as relações de dependência das famílias em relação aos apoios do Estado (subsídios, apoios, respostas prontas a consumir) e não se investir na construção de soluções com as próprias pessoas, não se toca nas raízes do problema (pobreza), antes se alimenta a sua própria reprodução geracional. Acha que temos recursos suficientes para ultrapassar estas dificuldades? No caso dos Açores, temos os recursos necessários para sermos uma região “rica”, mas isso implica, que sejamos uma região “menos desigual” mais “coesa” e mais capaz de envolver todos na construção das respostas sociais. Não basta investir em equipamentos sociais, é fundamental apostar na acção, na corresponsabilização, na autonomização das famílias mais carenciadas. Ao nível económico, é importante que o trabalho seja estruturado com um sentido de responsabilidade social, garantindo aos trabalhadores condições para que possam assegurar o bem-estar das suas famílias (ex: apoio na doença, na velhice, transportes públicos acessíveis e adequados). Infelizmente, a pobreza nos Açores toca os que trabalham, o que significa, que estamos perante baixos rendimentos e incapacidade de fazer face às necessidades dos agregados familiares. Nesse sentido, qualquer estratégia de combate à pobreza terá de investir quer ao nível do mercado de emprego, quer ao nível das condições das famílias, melhorando as perspectivas de futuro, criando ambição e objectivos, quase que diria, construindo um “sonho açoriano”.
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Autor: J.M.

Categorias: Regional

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