Chá branco dos Açores é cada vez mais apreciado e aguarda interessados em desenvolver esta cultura

Nas Sete Cidades, mesmo no fim da lagoa azul, é onde se encontra o posto experimental do Serviço de Desenvolvimento Agrário que tem um dos dois jardins de Camélia Sinensis, da variedade Assamica, ou Índia, que existe em São Miguel para produzir chá branco. É num silêncio absoluto, apenas cortado pelo chilrear de várias aves, e no fundo de grandes escarpas que é produzido este chá para experimentação dos serviços governamentais. Foi ali um dos locais escolhidos para acolher em 1986 sementes vindas do Malaui e que foram também plantadas nos Serviços de Desenvolvimento Agrário na Ribeira Grande (hoje sede do IROA), e a caminho da Lagoa de Fogo. Mas os anos passaram e as plantações que subsistem até hoje, com maior dimensão, são as das Sete Cidades e da Ribeira Grande. Ao todo são 3,5 mil metros quadrados em produção. É nas Sete Cidades que a engenheira Clara Estrela Rego, responsável pela área do chá dos Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel, explica como é que surgem ali jardins de Camélia Sinensis, na variedade Assimica, que produzem chá branco que é quase um tesouro que tem sido bem guardado pelas águas da mítica lagoa. Mas primeiro começa por explicar a diferença entre a planta que produz a variedade de chá mais comum da ilha, a Camélia Sinensis da variedade China, e a Camélia Sinensis variedade Índia, que tem as folhas maiores, que são também diferentes da camélia japónica, ornamental. É que para se fazer chá é obrigatoriamente que se o faça através da planta de Camélia Sinensis, tudo o resto são infusões. E qualquer variedade de chá, seja chá verde, chá preto, chá oolong (azul), chá amarelo, chá branco ou chá fermentado puerh, pode ser feita através das Camélias Sinensis China ou Índia, embora reconheça que cada variedade poderá estar mais adequada para um tipo concreto de chá. Esclarecida a primeira diferença, Clara Estrela Rego avança que as duas fábricas de chá que subsistem em São Miguel usam a variante China. E quando nos anos 80, Artur Magalhães ingressou nos Serviços de Desenvolvimento Agrário depois de ter estado ao serviço de várias fábricas de chá em Moçambique, “fez-lhe confusão que estando a variante China tão bem adaptada à Região, porque não existia a variante Índia”. Importaram-se então sementes do Malaui, devido à sua ligação com Moçambique, que foram semeadas, plantadas e colocadas em diferentes locais da ilha. Entretanto as duas fábricas locais trabalhavam já com a variante China, que tem “características diferentes”, e consideraram que as características da variante Índia não se adequavam “àquilo que tinham, que investiram e que era o seu produto”. Clara Estrela Rego conta que “isso deixou o Serviço de Desenvolvimento Agrário com uma situação que era ter plantas industriais, porque o chá é uma cultura industrial, sem objectivo, sem ter quem aproveitasse a produção para a transformação”. Mas foram-se mantendo as plantações “quase como curiosidade”, como experiência, porque “tínhamos aqui um legado do século XX e seria uma dor arrancar plantas que não existiam noutro lado”. A manutenção das plantas foi sempre feita como se fosse para produzir chá, mas a produção não era aproveitada. Até que em 2009 é Clara Estrela Rego que fica responsável pelo chá nos serviços e “fazia-me uma certa confusão não fazer nada com isto”, porque o chá não era uma aposta na altura, era “uma colecção, uma curiosidade”. Até porque devido à sua localização nas margens da lagoa das Sete Cidades, devido aos problemas ambientais e de eutrofização das lagoas, aquele posto experimental sempre teve como “grande preocupação não ser poluente e fazer agricultura biológica. Porque estando tão perto da lagoa, com o Ordenamento das Bacias hidrográficas, havia uma série de requisitos de não poluir e fazer diferente”. E apesar de não estar certificado para o modo de produção biológica “cumpria as regras”, ou seja, “não utilizar fertilizantes químicos de síntese, nem produtos fitofarmacêuticos. Era a grande preocupação, fossem as culturas tradicionais que fazemos, o pomar, ou o chá. Queríamos mostrar que era possível ter produções sem o recurso a produtos químicos de síntese e como o chá estava cá dentro, teve de “sofrer” com esta regra”, admite a responsável pelos jardins de chá. Algo que sempre fez com que “qualquer produtor de chá de então se encolhesse, porque o chá é muito exigente em termos de fertilizações químicas, nomeadamente azotadas porque cortamos muita matéria verde. Exigiria muita fertilização, que deixámos de fazer aqui há muitos anos”. Foi então que Clara Estrela Rego decidiu “experimentar a colheita e secar no laboratório, em Ponta Delgada, porque nós não temos fábrica e as fábricas não estavam interessadas nisto”, declara. No laboratório começou por fazer “o processamento mais incipiente que há”, murchando as folhas e depois secando. Na altura, confessa, “não sabia o que estava a fazer”. Sabia que estava a colher das plantas de Camélia Sinensis “o gomo, a primeira e a segunda folha” dos rebentos, que estava a fazer um processamento bastante simples mas “não sabia que estava a fazer chá branco”. O que sabia era que “estava a secar chá, que era bom. Dava aos funcionários do serviço que gostavam muito, enviava para pessoas de fora que sabia serem entendidas e havia feedback muito bom”. Só em 2015 “é que percebi que estava a fazer chá branco quando enviei uma amostra para a Companhia Portugueza do Chá”, uma loja em Lisboa especializada em chá cujo proprietário Sebastien Filgueiras, presta também agora assessoria técnica aos Serviços em matéria de chá branco. “Percebemos que tinha potencial, mas também percebemos que havia muito a fazer, estava a fazer chá branco, mas podia melhorar a qualidade”, explica Clara Estrela Rego que avança que foi então estabelecido um protocolo entre a Companhia Portugueza do Chá e os Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel “sempre com o principal objectivo de melhorar”. Cada colheita que é feita origina um lote que é identificado e foi enviando vários para Sebastian Filgueiras que ia fazendo “críticas no sentido de melhorar”. Clara Estrela Rego assim fez. “Fui melhorando a colheita, porque a qualidade faz-se no campo, e fui afinando procedimentos no processamento. Simultaneamente fez parte do protocolo ceder algum chá branco à Companhia Portugueza do Chá para haver uma prospecção de mercado. Se não tivesse havido esse protocolo certamente não teria melhorado a qualidade e não teríamos percebido que existe mercado para este chá”, explica. É naquela loja o único sítio onde se pode adquirir chá branco dos Açores, já que uma parte da produção, fruto do dito protocolo é para lá enviada, e a restante destina-se a ofertas por parte do Governo Regional e para ser apreciada pelos funcionários dos serviços que todos os dias podem tomar uma chávena deste mítico chá. Tal como o chá, a experimentação agrícola sofre do mesmo problema já que “as produções são óptimas mas a garantia de mercado não há e é um buraco que fica. Conseguimos com satisfação ver que há mercado e amanhã se isto for para divulgar, que é, é com mais garantias que um produtor pode avançar para um tipo de produção destas”, explica uma vez que o espírito dos serviços “não é ser comerciante”. O que é o chá branco? Passando pelos jardins de Camélia Sinensis variante Índia, Clara Estrela Rego vai explicando que as plantas foram podadas recentemente, já que estamos na época fria quando a planta fica “em descanso, devido às temperaturas mais baixas”. É em Abril que começam a rebentar e se colhe “o gomo, a primeira e segunda folha”. O gomo é “o rebento que vai originar o crescimento do galho. Para qualquer tipo de chá, é esse material que deve ser colhido, o que vem da rebentação, a primeira e segunda folha, conforme os tipos de chá que se queira produzir”. As restantes folhas ficam na planta. “O chá é muito curioso, porque colhemos o gomo e as primeiras folhas e cortamos. Na base da folha abaixo, tem um botão que não se vê e quando cortamos, quando fazemos a dominância apical, vai estimular que aquele gomo que estava sossegado, rebente e vá produzir novo galhinho com gomo e folhas”, adianta. Além da qualidade da matéria-prima e da delicadeza na colheita, é também o tipo de processamento que distingue o chá branco das outras variedades de chá. Clara Estrela Rego, que não quer ser apelidada de especialista “porque nunca sabemos efectivamente tudo”, diz que “a Camélia Sinensis, seja Índia ou China, pode produzir qualquer um dos tipos de chá. Na bibliografia diz que o chá Índia é mais apropriado para o chá preto, enquanto o China para o chá verde, mas pode-se fazer ao contrário, não há regras fixas”. É por isso que diz que “não é correcto dizer que aqui é uma plantação de chá branco. É uma plantação de chá, onde os Serviços de Desenvolvimento Agrário têm feito chá branco. Esta plantação está a ficar associada ao chá branco, mas porque tem sido feita experimentação no rumo de chá branco”, refere. Benefícios e experimentações É no meio dos jardins de chá que nos sentamos a degustar os vários tipos de chá que dali resultam e até uma infusão das flores de Camélia Sinensis, simplesmente secas. Clara Estrela Rego começa por servir o chá “Pai-Mu-Tan”, onde se usa o gomo, a primeira e a segunda folha que são murchas e depois secas. Até neste processo os serviços já foram também evoluindo e foi construído um secador solar, não só para o chá, mas para outras experiências. “Em 2013 construímos um secador solar para experimentar. Houve uma senhora havaiana que nos perguntou porque não tínhamos, que no Havai havia e que o clima era muito parecido. Um colega fez o projecto, um carpinteiro nosso funcionário construiu e é muito eficaz e eficiente”, explica ao acrescentar que desde 2014, todo o chá que tem sido colhido, tem sido seco lá. “Tudo isto é único, não só pelas características da colheita como pelas condições em que é seco. Nunca consigo determinar se vai ficar umas horas ou muito mais horas, depende do sol. Mas não nos tem desapontado”, comenta. O “Pai-Mu-Tan” é um chá muito suave, com aromas muito florais e notas frutadas. Mas quando Clara Estrela Rego começa a preparar o chá “agulhas de prata”, olhando para o relógio para que fique em infusão entre 5 a 7 minutos, os delicados rebentos parecem que tomam vida a ficam de pé dentro da água quente. “Agulhas de prata” é só o gomo, o primeiro rebento da planta, “é um chá topo de gama”, brinca a responsável. Efectivamente o “agulhas de prata” é bastante subtil, delicado, apenas com nuances de sabores muito finos. Esta colheita de “agulhas de prata” é feita apenas uma vez no ano e é um dos chás mais caros em todo o mundo, já que exige uma colheita “muito mais cuidada e difícil do que a normal do chá branco”. Depois há uma surpresa: Clara Estrela Rego mostra num boião as delicadas flores da Camélia Sinensis Índia secas que também podem ser “bebíveis”. “Lembrei-me de colher também flores, que são bebíveis. Estão secas, não murcho, vão directamente para a secagem” e dali resulta uma infusão floral que a técnica arrisca dizer que “para mim, pólen é isto”. As flores dão para fazer uma bebida à parte ou “dá para misturar nas outras duas variedades de chá”, tal como a casca de limão galego desidratado que tem também em cima da mesa e que se pode juntar ao chá branco para um sabor ainda mais único. Esta experiência fê-la sozinha, mas sempre estimulada “pelas amostras que o Sebastian Filgueiras da Companhia Portugueza do Chá me vai enviando, Vejo o aspecto dos outros e vou experimentando. Tenho-me auto-formado com a ajuda daquilo que ele me envia”, refere. Mas há que apreciar todo o chá “sem açúcar. Para mim acho que não precisa de açúcar”, dadas as notas florais que todo este chá concentra. Aumento da produção Clara Estrela Rego comenta que ultimamente são muitos os curiosos que se deslocam àquele posto experimental para ver os jardins de chá que têm características únicas, logo também têm de transmitir ao chá características únicas. “Há os curiosos do chá e criam-se ligações interessantes entre quem gosta de chá. Ainda há dias recebi uma amostra de “agulhas de prata” do Sri Lanka e fiz lado a lado com este chá branco daqui, e não tem nada a ver. O aspecto é igual mas o paladar são duas coisas distintas. E pessoas entendidas têm dito que é muito bom este. Eu só digo que são diferentes”, já que não quer se juiz em causa própria. Recorda que uma senhora chinesa que ali esteve recentemente “ficou encantada com este chá e há investigadores chineses para quem levou este chá que ficaram encantados e acham que é algo que pode ser alvo de estudo, pela curiosidade como se produz chá branco aqui. A mesma senhora disse-me que “chá branco com 3 anos é remédio, com mais de 7 é um tesouro”. Mais uma prova que há efectivamente mercado para este chá branco. “Acho que qualquer coisa que seja fazer coisas novas com mercado, é bom. Se os serviços tiverem algum papel nisso, melhor. Existimos é para isso, não é para fazer comércio de chá mas para dar o exemplo do que é possível fazer”, explica Clara Estrela Rego ao acrescentar outro exemplo de como as condições dos Açores só têm a acrescentar a este chá branco: “as colheitas começam em Abril e curiosamente este ano vimos todas as semanas fazer colheita e praticamente só 5 ou 6 vezes colhemos com sol destapado. O que é bom para o chá, porque em bibliografia os japoneses fazem sombra artificial umas semanas antes da colheita para obterem chás com determinadas características. Aqui temos algumas condições boas, naturais, para isso”. E a produção tem vindo a aumentar de há uns anos para cá, mas Clara Estrela Rego não consegue explicar a razão. É que além de terem deixado há muito tempo de fazer fertilizações químicas de síntese, há cerca de dois anos começaram a fazer fertilizações com composto feito em São Gonçalo, na sede dos serviços. “Naquele ano notei logo aumento na quantidade de produção”, explica Clara Estrela Rego. Mas além de maiores cautelas com a fertilização, também foi adequado e melhorando o tipo de poda e de colheita. “Tenho tido mais atenção e talvez por isso tenham aumentado as produções. Esse trabalho agronómico é que tem de ser feito agora, talvez com alguns anos de atraso”, lamenta. Certo é que o chá tem-se tornado quase uma moda por todo o mundo e além da teína natural também tem um aminoácido, a L-Teanina, que tem o feito estimulante das ondas alfa do cérebro que transmitem a sensação de bem-estar. “A cafeína associada ao aminoácido L-Teanina, é uma coisa mesmo perfeita porque deixa-nos estar alerta e simultaneamente sem a grande excitação que o café dá. O chá tem essa particularidade e é muito rico em polifenóis e antioxidantes, que muito procuramos na nossa alimentação, devido aos benefícios que se sabe terem”, conclui Clara Estrela Rego. E o chá branco dos Açores já corre mundo através da única loja onde é possível adquiri-lo, em Lisboa, e já tem uma legião de seguidores que destacam a excelente qualidade da matéria-prima.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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