A questão da dependência da internet é um assunto grave que se instala de forma silenciosa

No próximo dia 6, Terça-feira, assinala-se o Dia Europeu da Internet Segura. Mas será que há uma cultura de segurança para as crianças e jovens? Como é possível evitar os perigos e que papel têm os pais e educadores na formação numa sociedade que depende cada vez mais das novas tecnologias? As psicólogas Maria da Luz Melo (Presidente Delegação Regional dos Açores) e Raquel Vaz de Medeiros, especialista em Psicologia Educacional, abordam como podemos todos trabalhar para minimizar os riscos e utilizar as ferramentas disponíveis na internet o mais saudavelmente possível. Correio dos Açores: Cada vez mais a nossa sociedade está “dependente” das novas tecnologias (telemóveis, tablets, computadores…), quer seja no trabalho quer seja na vida familiar. Como tudo na vida, quando utilizado de forma saudável nada a acontecer, só que são muitos os especialistas que chamam a atenção para o facto de a utilização constante e permanente trazer graves consequências à vida do indivíduo. Como pode a sociedade ajudar? Maria da Luz Melo: Os psicólogos têm investigado o modo como este tipo dispositivo pode afectar a saúde e o bem-estar e indicam meios para evitar que isto aconteça. Entre as graves consequências para a vida do indivíduo, a última edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5) inclui na categoria dos transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos o transtorno do jogo, nomeadamente, o jogo pela internet, definindo-o como um padrão comportamental em excesso. A inclusão do jogo nesta categoria reflete a evidência científica que “os comportamentos de jogo activam sistemas de recompensa semelhantes aos activados por drogas de abuso e produzem alguns sintomas comportamentais que podem ser comparados aos produzidos pelos transtornos por uso de substância” (DSM-5, 2013). Em termos de consequências funcionais, indivíduos com este tipo de transtorno podem colocar em risco os seus relacionamentos familiares e com amigos. O emprego e/ou o estudo podem sofrer um impacto adverso por absentismo ou baixo desempenho, já que os indivíduos mesmo ao realizarem estas actividades podem estar a jogar (DSM-5, 2013). Esta situação corresponde à consequência negativa extrema, a nível mental, de termos quase 100% do conhecimento humano à distância de um clique (ou na ponta dos dedos). Globalmente, os smartphones, por exemplo, podem perturbar o sono, aumentar o stresse e monopolizar a nossa atenção. Por isso devem ser evitados durante a noite (Dunn, 2017). Ler mails ou textos antes de dormir pode desencadear emoções ou activar a nossa a mente tornando o adormecer mais difícil. Esta situação poderá ser controlada já que os próprios dispositivos possuem mecanismos que nos permitem bloquear as notificações durante as horas de sono. O avanço tecnológico e o trabalho interdisciplinar na área da e-saúde ou entre a engenharia e a psicologia têm permitido a criação de dispositivos com um enorme potencial para a sociedade, que ultrapassa o acesso ao conhecimento, mas que se afirma como um excelente recurso na organização do nosso tempo ou na monitorização da nossa saúde. Do ponto de vista psicológico, e a título exemplificativo, os telemóveis podem aumentar o sentimento de pertença e de proximidade entre amigos (Conrad, 2014). A edição de Março de 2017, da American Psychology Association (APA) recomenda sete estratégias para rever o uso do telemóvel mas que poderão ser generalizadas para outros dispositivos: 1. Faça escolhas – reflicta sobre que funções pretende usar e as que são dispensáveis na sua vida. 2. Programe-se – progressivamente aumente os intervalos em que vai verificar as notificações. Evite ser a primeira coisa que faz quando acorda. 3. Defina expectativas – cada vez mais somos confrontados com a exigência de estarmos ligados 24 horas por dia. Avise os amigos e familiares que não irá responder de imediato às suas mensagens e procure no seu trabalho responder só em determinados períodos do dia. 4. Retire o som das notificações – pelo menos em alguns períodos do dia esta medida poderá evitar distracções e stresse. 5. Proteja o seu sono - evita usar, principalmente o telemóvel, antes de dormir, retire o som, reduza o brilho e preferencialmente retire-o do quarto de cama. 6. Seja activo – post ideias, fotos, crie conteúdos e comente posts dos outros, estes comportamentos estão associados ao bem-estar subjectivo. 7. Evite usar este tipo de dispositivo quando está a conduzir – as mortes nas estradas por uso do telemóvel têm vindo a aumentar. Quando estiver a conduzir tire o som das notificações e coloque o telemóvel fora do seu alcance. A confiança na internet aumentou e esta alimenta grande parte da comunicação do dia-a-dia. Que estratégias estão delineadas para apoiar as nossas crianças e jovens em casa e na escola? Raquel Vaz de Medeiros: As estratégias passam por ter pais e professores mais informados e no estabelecimento de relações de confiança entre pais e filhos. Na realidade alguns pais e professores não são da era digital o que oferece vantagem aos filhos/alunos. A evolução da tecnologia nem sempre permite ao adulto acompanhar este avanço sendo muitas vezes surpreendido pelas acções dos seus filhos em domínios que para eles são desconhecidos, como por exemplo o uso indevido de redes sociais que proliferam e que não são do seu conhecimento, ou compras em sites etc. Mas esta evolução tecnológica também tem fomentado o desenvolvimento de ferramentas para apoio aos pais e educadores. As escolas têm a possibilidade de abordar este tema nas aulas de cidadania e nas aulas de informática, recorrendo a vários suportes disponibilizados, organizando sessões de esclarecimento para alunos e pais, organizando desafios, explorando vídeos, criando debates e dilemas, campanhas e exposições pela escola, entre várias actividades. Os pais ou outros familiares como irmãos mais velhos, devem consultar guias de apoio sobre a segurança digital onde podem encontrar diferentes recursos e ferramentas para as diferentes situações, quando se fala em internet. Questões relacionadas com a privacidade, os chats, as videochamadas, as publicações em redes sociais, as webcams, cidadania digital, cyberbullying, direitos de autor, as compras online, entre outras e devem, também, procurar ajuda se notarem diferenças significativas no comportamento do seu educando. Que papel podem ter o pais e os educadores para que os nossos jovens não fiquem dependentes? Raquel Vaz de Medeiros: A questão da dependência é um assunto grave e cada vez mais frequente, que se vai instalando aos poucos de forma quase silenciosa sem que os pais e educadores se apercebam trazendo consequências graves para o jovem ou criança. Existem situações limite, de total isolamento social em que os jovens deixam de sair do quarto durante longos períodos tendo que receber tratamento adequado ao nível da saúde mental. O que os pais e educadores poderão fazer para evitar estas situações será: a permanente supervisão parental; o estabelecimento de horários claros e rígidos para a utilização da internet para fins lúdicos e que potenciem dependência; respeito pelas horas de sono; retirada da tecnologia do quarto das crianças tal como smartphone e tablet; promoção de hábitos de actividades ao ar livre; promoção da realização de desporto ou outras catividades recreativas que promovam a interação com os pares e lhes permita situações de prazer; exploração conjunta de vídeos e outra informação sobre os riscos da dependência da internet… No próximo dia 6 assinala-se o Dia Europeu da Internet Segura. Que mensagem se deve passar neste dia aos utilizadores? Maria da Luz Melo: A internet integra em si mesma um potencial de perigos e um conjunto de ferramentas que nos permite proteger destes próprios perigos. Campanhas de sensibilização como tem sido feita pela Polícia de Segurança Pública e ensinos às crianças e aos pais sobre os mecanismos de protecção disponíveis deverão ser uma obrigação e um dever dos responsáveis públicos. Se tudo isto for feito teremos condições para retirar o melhor da internet, sem deixar que a internet controle as nossa vidas.
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Autor: N.C.

Categorias: Regional

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