4 de fevereiro de 2018

Portugal, o Atlântico e a II Guerra Mundial

António José Telo divide a neutralidade portuguesa na II Guerra Mundial, em cinco fases, a primeira correspondente ao período entre um de setembro de 1939 e junho de 1940, mês em que a tropas alemãs se posicionaram junto aos Pirenéus aguardando a ordem de invasão à Península Ibérica (operação Félix). A neutralidade portuguesa não só responderia aos anseios do governo como à opinião generalizada dos beligerantes. Durante esta fase, a península ibérica não era ainda estrategicamente relevante assim como o espaço atlântico. A Batalha do Atlântico esboçava-se no mar do Norte e no acesso às ilhas atlânticas, embora sem causar ainda sérios problemas a uma marinha aliada de milhares de navios. Nos Açores, ponto de escala dos Boeing da PanAmerican, apenas se verificaria a mudança do término da rota de Londres para a capital Portuguesa. A segunda fase da neutralidade portuguesa está compreendida entre junho de 1940 e junho de 1941, sendo a que maior perigo apresentou à neutralidade portuguesa. A Alemanha dominava a Europa ocidental e expandia-se ao norte de África, sentindo-se tentada a explorar uma estratégia marítima que visasse obrigar a Inglaterra a assinar uma paz de compromisso, aliando-se a Espanha e à França de Vichy, e ocupando de entre vários pontos de interesse, as ilhas atlânticas. Os Açores, mal defendidos e ainda não reforçados militarmente, apresentavam-se como um alvo fácil a tomar, em especial pelos ingleses, que necessitavam de um ponto de apoio alternativo para albergar uma base naval, caso Espanha permitisse o acesso alemão a Gibraltar. Tornara-se fundamental restringir a esquadra italiana, em vias de se aliar à francesa de Vichy, ao Mediterrâneo. A sua saída para o Atlântico seria desastrosa para as linhas de reabastecimento marítimo inglesas do Atlântico Sul, e aos comboios em geral, uma vez que em conjunto com as bases aéreas alemãs a partir de território espanhol, incluindo as Canárias, e a presença de submarinos nos portos peninsulares e africanos, os comboios britânicos seriam obrigados a realizar uma grande volta a oeste, perdendo-se tempo, meios e homens. Como tal, caso Gibraltar caísse em domínio alemão, a missão de suster os navios do Eixo no Mediterrâneo seria efetuada a partir de uma base da RoyalNavy a estabelecer em Ponta Delgada, dada a posição geográfica do arquipélago. Com a ocupação de Gibraltar, dar-se-ia a invasão a Portugal continental com duas divisões blindadas e uma motorizada a partir de Badajoz, e a retirada do governo português para os Açores. Contudo, nesta fase a marinha alemã não previa a ocupação dos Açores uma vez que não estavam ainda criadas as condições para resistir ao forte contra-ataque inglês que se adivinhava. A conciliação de interesses de Berlim com os seus aliados, ou possíveis aliados, como seria o caso espanhol, não permitia de momento a execução da operação Félixque entretanto perdia interesse para a operação Barbarossa, ou seja invasão da União Soviética. Caso tivesse acontecido, as ilhas dos Açores teriam sido ocupadas de pronto por uma divisão de infantaria sob comando do general Montgomery, que aguardava apenas a ordem por parte de Winston Churchill. Entretanto, já os EUA, horrorizados com o avanço alemão e prevendo uma guerra entre continentes, mudariam a sua estratégia para o Atlântico. Num discurso radiofónico, a 27 de maio de 1941 o presidente americano Franklin Roosevelt evidenciaria a capacidade alemã para ocupar, quando quisesse, a Península Ibérica e as ilhas do Atlântico, tidas como vitais para a segurança americana no caso açoriano. Não mencionando a soberania portuguesa sobre as ilhas, acabaria por disputar a sua proteção com os ingleses, ordenando ao seu Estado-Maior a preparação de 25.000 expedicionários para proteger o que considerava ser a fronteira marítima da América. Carecendo de tempo para otimizar um gigantesco programa de rearmamento, delinearia um plano de ocupação das ilhas dos Açores ainda em 1940, a cargo da 1.ª divisão de fuzileiros apoiados por uma grande força aeronaval. Mediante o conhecimento dos planos ingleses, por sua vez muito bem informados a respeito das intenções alemãs, Franklin Roosevelt acabaria por adiar a ocupação das ilhas mediante a garantia inglesa de que caso Félix fosse ativada, seriam as ilhas tomadas por unidades britânicas. Colocados no cerne das grandes estratégias dos três povos para o Atlântico, só a partir da utilização de bases para submarinos na França ocupada pelos nazis, e a paragem das tropas junto ao Pirenéus numa clara ameaça de invasão à Península Ibérica é que os Açores passariam a ter uma séria importância no contexto da guerra, em especial no domínio pela Batalha do Atlântico. Os submarinos alemães, até então privados tecnicamente de navegar até ao Atlântico, a partir de maio/junho de 1940 já alcançavam as costas da Península Ibérica, ameaçando a navegação em redor de Gibraltar, e mais além. Vistos no mar dos Açores desde 1940, visariam a partir de 1941 uma eficaz campanha de destruição de navios militares e mercantes, matando milhares de militares e civis. Só da marinha mercante inglesa sucumbiriam 23.000 marinheiros e 2.775 navios aliados, com uma tonelagem na ordem dos 14 milhões e meio de toneladas. Sir Winston Churchill diria mesmo que a crise no Atlântico era a sua preocupação principal. Estas “wolfpacks” (matilhas de lobos) alemãs obrigariam os aliados a reajustar o transporte de cargas de homens e materiais em segurança para os teatros da guerra em África e na Europa, para o sistema de comboios visando-se quebrar um ritmo de destruição diária superior à capacidade de construção aliada. Nesta segunda fase, o Estado português havia sido apanhado de surpresa. A defesa do arquipélago era meramente simbólica, tendo que se adaptar à pressa os planos de defesa visando um reforço militar que só ganharia alguma dimensão a partir de 1941, quando o momento de maior perigo já havia passado. Sob observação, em virtude da falta de recetividade do governo português e mediante a garantia inglesa de ocupação dos Açores, o presidente americano declararia ao líder britânico que os navios e aviões americanos não se aproximariam dos Açores e Cabo Verde, mantendo-se vigilantes ao largo, deixando a sugestão das tropas inglesas se juntarem aos 25.000 americanos destacados para o efeito. Winston Churchill, não abdicaria da hegemonia sobre os Açores e forneceria material anti -aéreo para defesa do arquipélago, demandando sim a cooperação americana. Esperava-se a qualquer momento a ocupação alemã de bases no sul de Espanha ou na África do Norte, impedindo-se o uso por parte da esquadra inglesa da Baía de Gibraltar. Seria o sinal para a Inglaterra ocupar a Grande Canária, as ilhas de Cabo Verde e uma das ilhas dos Açores. E só em meados de 1942 é que se deteta um plano operacional de defesa concreto para o arquipélago. António de Oliveira Salazar receoso das represálias de Hitler solicitaria esclarecimentos ao presidente americano a propósito do seu discurso radiofónico, negando existir uma ameaça alemã ao arquipélago. Afirmaria a disposição de defender Cabo Verde e os Açores até ao último homem, acabando por aceitar a garantia de que os Estados Unidos não agiriam contra a vontade de Portugal. Na realidade o secretismo reinava, com o debate luso-britânico iniciado por Salazar e a passagem de informações por Churchill a Roosevelt, pedindo-lhe o maior dos segredos. Sir Winston Churchill acabaria por admitir a impossibilidade de reagir atempadamente a um ataque alemão a Portugal, bem como a incapacidade de fornecer armamento para defender o continente português. A melhor solução seria a mudança do governo para os Açores, oferecendo-se uma resistência simbólica no continente. Dentro dessa possibilidade, a Inglaterra instalaria defesas antiaéreas e aeródromos nos Açores, acabando por se servir de António de Oliveira Salazar para se concentrar na valia estratégica das ilhas atlânticas. Não tendo qualquer compromisso com os Estados Unidos, o presidente do conselho de ministros recordaria que qualquer iniciativa americana ao arquipélago seria tida como uma agressão, podendo provocar a invasão nazi a Portugal. Entre os velhos aliados perduraria a ideia de manter a influência americana clandestina. Durante essa primavera de 1941, acabariam por ficar em suspenso os planos de invasão alemães, ingleses e os americanos aos Açores. Em Washington, os Açores continuariam a ser a maior prioridade do Estado-Maior, sendo marcado o dia 22 de junho de 1941 para a invasão dos Açores (operação Gray), ou seja no dia em que Hitler desencadearia a operação Barbarossa, invadindo a União Soviética. Com a abertura da frente leste, a pressão nazi desviara-se do Atlântico, perdendo-se muita da pressão sobre o arquipélago que assumiria outros contornos. Os Açores acabariam por perder importância para com outros palcos, como por exemplo a Islândia que a United StatesNavy ocuparia após a invasão inglesa. A operação Barbarossa havia sido defendida pelos generais alemães após o fracasso alemão na Batalha de Inglaterra durante o verão de 1940, em oposto aos almirantes que pediam a execução da operação Félix, ou seja a invasão da Península Ibérica, da África do Norte e das ilhas atlânticas. Perante a ideia de que a operação contra Estaline seria breve, Hitler deixaria a promessa de um rápido retorno à operação Félix, adiando-a para 1942. As bases alemãs nas ilhas poderiam servir não só para o abastecimento dos submarinos, entretanto realizados em alto mar por submarinos reabastecedores ou petroleiros (as vacas leiteiras) como para a instalação de um aeródromo para o Messerschmidt Me264 Amerika com capacidade de transportar 1.800 quilos de bombas para atacar as cidades americanas de Boston até Washington e regressar ao arquipélago. A viragem nazi para leste acabaria por salvar o arquipélago, mas os planos de invasão não seriam esquecidos, mas adiados, acabando por conhecer novas conceções e designações como operações Isabela (alemã) ou Thruster (inglesa). Já na terceira fase da guerra (junho de 1941 a maio de 1943), a Batalha do Atlântico entraria na sua fase mais critica, com os u-boats alemães a infligir mais perdas aos comboios aliados do que na realidade estes as conseguiriam repor. Uma das zonas críticas acabaria por ser a zona central do Atlântico Norte, sem cobertura aérea por falta de bases. Durante esse período, os aliados construiriam aeródromos ao longo do perímetro do Atlântico Norte, dando proteção aérea aos navios que seguiam rota do norte extremo, apoiando em grande parte os comboios para Inglaterra e para União Soviética. Restava assegurar a proteção aos que se destinavam à África do Norte e ao Mediterrâneo, nomeadamente aos petroleiros que navegavam diretamente pelo Atlântico central onde não existiam aeródromos aliados, criando-se um vazio aéreo designado por Azores Gap ou “Buraco Negro” (BlackHole). Apesar de Portugal não querer aeródromos nem dos aliados nem do Eixo, mas sim manter a sua neutralidade, os aliados acabariam por confrontar o governo português. Ambos os beligerantes pretendiam ser os primeiros a chegar aos Açores, desenvolvendo os seus próprios planos, a bem ou a mal: a operação Brisk por Winston Churchill e a operação Félix, por Adolfo Hitler. Controlar a posição estratégica das ilhas no centro do oceano Atlântico tornara-se necessário aos aliados para protegerem as rotas mais importantes para o Mediterrâneo, norte de África e para a Inglaterra. Falhando o seu controlo, as matilhas de lobos submarinos dominariam a área circundante às ilhas, atacando os comboios aliados. Contudo a marinha de guerra alemã não estava em condições de efetuar qualquer operação anfíbia em virtude das perdas sofridas na campanha da Noruega, no contínuo adiamento da invasão da Inglaterra (operação Sealion) e na mobilização de forças para o ataque à União Soviética. O líder alemão necessitava de concluir a primeira fase da operação Barbarossa. Paralelamente, os governos aliados previam que a possibilidade de terem bases nos Açores apenas seria possível com recurso à força, o que colocaria Portugal na beligerância, numa altura em que se preparavam para desembarcar no norte de África. Aguardar-se-ia a sua firme instalação em Marrocos e Argélia francesas, visando-se um ataque de flanco às forças do Eixo. De uma forma ou de outra, mesmo com a recusa portuguesa, e ainda antes da entrada dos EUA, já os aliados na Conferência de Newfoundland (agosto de 1941), haviam decidido a instalação de um aeródromo nos Açores sob qualquer preço. Apesar de menos conhecida do que a Carta do Atlântico, pilar da futura ONU, a aprovação da operação Pelegrino previa a ocupação inglesa das ilhas Canárias e dos americanos dos Açores, sob a capa de uma ocupação protetiva ou preventiva. A partir de abril de 1943 e até junho de 1944, dar-se-ia a quarta fase da guerra, correspondente à expulsão do Eixo do Norte de África, ao ataque aliado a Itália e ao desembarque na Normandia. Atingia-se o pico das percas da navegação aliada no Atlântico durante os primeiros meses de 1943. A decisão de ocupar os Açores, com ou sem a autorização de Portugal (operação Brisk, prevista para agosto), seria reforçada em maio de 1943 com a reunião Trident. Winston Churchill nem colocaria a possibilidade de pedir facilidades nos Açores mas acabaria por ceder perante os argumentos de um dos seus conselheiros, insistindo-se na diplomacia antes de invadir por intermédio do Tratado de Windsor. De acordo com José Medeiros Ferreira, a resolução de obter facilidades nos Açores estivera até então subordinada ao avanço das tropas aliadas no norte de África e à improvável reação alemã, passando os aliados a dispor a partir desse verão, de diferentes aeronaves com maior raio de alcance, novos aparelhos de radar e novas cargas de profundidade. O governo português perante o desenrolar da guerra cederia, assegurando a continuidade do regime no pós-guerra, bem como a neutralidade numa fase em que já não se acreditava ser possível uma grande represália alemã. Esta manifestar-se-ia em contidos protestos em virtude da necessidade de manter o precioso comércio de volfrâmio, cujos valores tendiam a decrescer para o lado alemão e a aumentar para o lado aliado. A doze de outubro de 1943, Winston Churchill revelaria à Câmara dos Comuns que António de Oliveira Salazar já aprovara a operação para a instalação de uma base inglesa na ilha Terceira, e não dos aliados, para perplexidade de todos. As facilidades incluíam a utilização do aeródromo das Lajes, e em caso de emergência o de Santana na ilha de São Miguel, assim como o uso dos portos das três principais ilhas. A partir dos Açores (centro do Azores Gap), todo o combustível poderia ser aproveitado para patrulhamento sem preocupações extras no regresso à base. Contudo, a implantação das bases aéreas aliadas dar-se-ia já depois do pico da atividade submarina alemã no Atlântico Norte, situado entre abril e setembro desse ano. Já a Batalha do Atlântico pendia para os aliados, graças não só à descodificação da criptografia alemã como pelo uso de pequenos porta-aviões de escolta que, acompanhando os comboios, tinham nos seus aviões um meio avançado de patrulhamento e combate rápido e eficaz aos submarinos que os ameaçavam. O desenvolvimento e miniaturização do radar Magnetron n.º 12 complementam estas inovações, possibilitando o recuar das matilhas alemãs e o consecutivo domínio aliado das rotas no Atlântico. António de Oliveira Salazar acabaria por ser um hábil negociador com os beligerantes conseguindo manter uma neutralidade em diferentes moldes conforme a área geográfica do império. Negociara a base das Lajes resistindo à presença americana na Terceira, acabando por ceder em janeiro de 1944, para apoio dos ingleses e surpresa das autoridades locais e de forma mais aberta, já no início de 1945. Até então, apenas era permitida a escala de aviões americanos ou dos outros aliados, o que constituía na prática uma submissão americana aos interesses ingleses. Com a chegada do efetivo americano em 1945, desenvolver-se-ia um conjunto de infraestruturas de apoio ao grande tráfego inerente à fase final da guerra na Europa. Contudo, o presidente do conselho de ministros já havia autorizado a 28 de novembro de 1944, a construção de um aeroporto americano em Santa Maria, a coberto de uma fachada comercial com a PAN American. Com a ajuda dos locais, seria construída uma pista de 3.600 metros de comprimento, a mais longa do seu tempo no oceano Atlântico, entre outras infraestruturas como o porto, a estrada de ligação ou mesmo mais duas pistas, estação e posto de controlo. Acabava de executar-se a visão dos estudos dos anos de 1930 sobre os melhores locais para o estabelecimento de bases nos Açores, agora articulados numa sinergia entre aliados e portugueses por intermédio de Humberto Delgado. Por fim, António José Telo designa a quinta fase da guerra, entre junho de 1944 e maio de 1945, como “[…] uma fase de adaptação ao após-guerra […]. É uma fase que se carateriza fundamentalmente por uma aproximação relutante e, em larga medida, forçada aos Estados unidos […]”. A Inglaterra colocaria três esquadrilhas para luta antissubmarina nas Lajes, obtendo parcos resultados uma vez que os u-boats já se haviam retirado do mar dos Açores, surgindo esporadicamente. Das três esquadrilhas, apenas ficaria uma, aumentando-se a sua capacidade de socorros a náufragos. A importância das Lajes manifestava-se sim no reabastecimento dos aparelhos de longo raio de alcance entre os EUA e o Mediterrâneo, sempre em crescente desde a invasão da Normandia, chegando a atingir os 2.000 voos mensais, o que forçaria o pedido americano para a construção de um aeroporto em Santa Maria. Autorizada, mas com o “agreement” inglês, Portugal acabaria por conseguir uma série de benesses que trespassariam não só o fornecimento de produtos escassos como o retorno às mãos portuguesas de Timor. Com esta “jogada”, António de Oliveira Salazar conseguia também o reconhecimento americano da continuidade do Estado Novo em Portugal e o convite, para pertencer à NATO. Henry Joseph Springall na sua última visita deixou o relógio à família, dizendo já não precisar, o que foi entendido como um presságio. Não sobreviveria aos ferimentos do torpedeamento do “HMS Cossack” e juntamente com um camarada, jaz num dos cemitérios de Ponta Delgada. Fonte: Col. Maureen A. Moon.
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