3 de fevereiro de 2018

Fuga aos filhos

As novas tecnologias vieram pôr em causa o diálogo, alicerce fundamental de qualquer relação humana. As famílias são vítimas do silêncio constrangedor que é consequência direta da dependência de pais e filhos face às novas tecnologias. Além disso, a própria rotina, a visão centrada no trabalho e nos problemas que este acarreta, bem como o individualismo extremado, inverte o caminho que devia ser seguido pelas famílias. As crianças tendem a isolar-se e os pais potenciam esse isolamento, isolando-se igualmente. Os atalhos que os pais criaram para se expulsarem da sua missão de pais tem prejudicado a educação dos filhos. Vemos filhos cada vez mais distanciados dos pais, em virtude do trabalho que se propaga e pela falta de pachorra na hora do contacto direto. São os pais que acabam por encontrar múltiplas ocupações para que os filhos estejam mais afastados. O discurso da atividade extracurricular hegemoniza-se porque convém. O tempo útil que o filho devia passar com os pais tornou-se marginal. O tempo que passam é de silêncio e de fixação às novas tecnologias. É mais difícil ensinar a contar, a ler e a respeitar os mais velhos. Essa devia ser a prioridade. Não sendo, temos crianças que aprendem tarde as coisas básicas da vida, temos crianças dependentes da tecnologia, temos crianças sem interesse pela leitura, temos crianças que tratam os mais velhos por tu, temos crianças que passam tempo precioso da infância com avós, serviços de CATL ou baby-sitter, ao invés de passarem com os pais. A criança fica fora de casa das 7h30 às 19h30. Chega a casa, e o que é que os pais fazem com os filhos? Fazem o jantar, lavam as crianças e deitam-nas. O tempo de convívio não existe porque se esgota na rotina doentia e na falta de tolerância dos pais. Os atalhos são a meia-hora a mais que os avós ficam com o neto, são o tempinho a mais que o filho fica no CATL, são os aparelhos tecnológicos que fixam as atenções em jogos e desenhos-animados, são o não resistir à birra, dando o que a criança exige. As novas tecnologias corroeram a relação pai-filho. A rotina dos pais cansa-os, e cansados não toleram a irreverência da criança. Buscam, portanto, a fuga aos filhos. Mas os filhos são deles. PS: Este é um relato, como é óbvio, que particulariza uma situação problemática. Não deve ser visto como uma absurda generalização.
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