“Não sei até que ponto, no momento em que vivemos de progresso, a decadência não é mais interessante que a cadência”

Inaugura hoje na Galeria Fonseca Macedo a exposição “O Monte dos Vendavais”. Como surge esta exposição? É um trabalho feito durante uma residência que fiz com o Pico do Refúgio e são trabalhos feitos na ilha de São Miguel. São três, ou quatro, núcleos de trabalho diferentes mas que se unem através de uma recuperação da natureza do seu espaço natural. Dois dos núcleos maiores são espaços abandonados. Um deles é o hotel Monte Palace das Sete Cidades que está completamente abandonado, vazio, decadente e que será provavelmente alvo de especulação imobiliária num futuro breve. O outro espaço é a casa-estúdio do escultor micaelense Canto da Maia, que entretanto foi vendida e está a ser transformada para uma habitação particular. Sinto que o espaço deveria ter sido aproveitado pelas instâncias governativas para terem feito uma casa-museu que seria o seu destino mais óbvio. Esse núcleo de trabalho, que é o maior, é um levantamento da casa como ela é agora, antes de ser transformada porque não voltará a ser o que era no tempo de Canto da Maia, mesmo que façam muito poucas transformações. Vai ser uma transformação para outra coisa, não voltará a ter aquele aspecto da época. Espreitando algumas das fotografias, dá muita atenção ao pormenor e algumas têm um lado quase poético. É esse o objectivo? De certa forma o meu trabalho, e é isso que pode eventualmente ser interessante, é a minha relação pessoal com o assunto abordado. Não são, como outros fotógrafos fazem e não é obviamente uma crítica, abordagens frias nem clínicas, são pessoais, são subjectivas. Há alguma objectividade no meu trabalho mas não é isso que me interessa. Quando fotografo é também sobre a beleza na decadência porque há, de facto, uma beleza na decadência e não sei até que ponto, no momento em que vivemos de progresso, em que a maior parte da construção e da arquitectura é low cost, a decadência não é mais interessante e bonita que a cadência. O que acho lamentável, na verdade. Mas o trabalho é poético, é assumidamente poético, e nesse sentido é que também é meu. Acho que toda a gente em São Miguel, e várias pessoas que passaram por aqui, fotografaram o hotel porque exerce uma atracção bastante forte. Mas ao mesmo tempo tenho, entre aspas, “a lata” de expor esse trabalho porque acho que é diferente dos outros no sentido que é pessoal e é a minha poesia. Outros fotógrafos, artistas, amadores, turistas, farão fotografias completamente diferentes do mesmo espaço e é isso que é interessante e relevante. Nesse sentido, a fotografia é um meio artístico como qualquer outro, no sentido que somos a extensão da máquina fotográfica e não é a máquina fotográfica que dirige a acção mas cada um de nós como artistas que tem algo para dizer. Durante a residência artística no Pico do Refúgio, aproveitou para fazer outras coisas? Isto resulta de duas visitas. Vim já com ideias preparadas e também fotografei a fábrica de chá, que acho muito interessante porque é o único chá produzido na Europa e acho relevante toda a sua manufacturação bastante artesanal. Também fotografei na Sinagoga, em Ponta Delgada, vestígios e documentos porque isso interessa-me também pessoalmente. Mas o que depois decidi aproveitar, pelo menos nesta fase, foram estes núcleos de trabalho que se juntam. Por exemplo, nesta exposição ainda temos um núcleo muito pequeno que são três fotografias mais pessoais em que transparece mais o meu próprio envolvimento com a paisagem e com a ilha. As residências artísticas servem também para esse envolvimento pessoal… As residências são, por si, uma coisa particular. É uma ideia do Bernardo Brito e Abreu e penso que o grande mérito é que trazem artistas portugueses, e não só, para trabalharem sobre um espaço açoriano, criando assim um património na ilha de São Miguel que de outra forma não existiria. Penso que isso deve ser valorizado de alguma forma porque não teria feito este trabalho sem ter feito a residência. Talvez tivesse vindo cá de férias, mas não teria um tempo suficientemente largo e a intenção de fazer trabalho, porque uma residência pressupõe que haja trabalho. Eu tive que me debruçar sobre a história da ilha e tentar perceber onde é que poderia fazer qualquer coisa e, nesse sentido, este tipo de residência num espaço tão próprio como é esta ilha, é de grande importância. E acho que mais cedo ou mais tarde vai ser valorizado. De repente vários artistas criaram um núcleo de trabalho em São Miguel, numa operação que não envolve propriamente dinheiro, mas que cria um património cultural que é muito importante. Por exemplo, as fotografias da casa do Canto da Maia gostaria que ficassem cá nos Açores, porque acho que pertencem ao Açores. O bom da fotografia é que sendo a fotografia artística, poética, no fim acaba por ser um documento e é esse lado de documento que penso que acaba por ser mais importante em termos de património cultural. Este trabalho também lhe permitiu dar a conhecer sítios que os micaelense se calhar não conhecem. Traz um olhar de fora, que retrata algo quase desconhecido… Penso que muitas vezes não damos valor àquilo que temos e isto é válido para os Açores como para qualquer região do país e do estrangeiro. O olhar de fora foi sempre importante e na história da fotografia é importantíssimo. Mesmo em Portugal, uma grande parte do património fotográfico que existe é feito por estrangeiros. Isso é muito interessante porque ao darem esse valor, também compreendemos que existe um património que é desvalorizado e isso aplica-se a muitas coisas, não só a espaços, como a tradições populares ou ao artesanato. Não tenho a veleidade de achar que estou a ensinar alguma coisa às pessoas daqui, que não estou, mas trago um olhar diferente. Talvez mais fresco. Mesmo quando estou a fotografar um sítio estranho, há sempre aquela fase de encantamento antes de conhecer verdadeiramente o sítio. Depois de o conhecer, quase que já não consigo fotografar e acho que é essa fase de encantamento que acaba por ser importante. É um olhar fresco mas atento. Quando descobri o hotel quase toda a gente da ilha já lá tinha estado. Mas o hotel é tão fascinante que pode ter várias visões. Por isso eventualmente ainda vai haver mais um projecto a apresentar em breve. Um filme? Eventualmente. Vamos tentar. Tal como a arquitectura, é um filme muito low cost e será apresentado em Março durante o Festival Tremor, mas é tudo eventual. Não é pelo dinheiro que as coisas funcionam, mas também é pelo dinheiro porque aqui não há certezas também. Temos pouco material, temos só um dia de filmagens, não há direito a repetições, é tudo muito eventual. Mas há essa intenção, é uma ideia que já tem dois anos e, no fundo, é uma despedida do hotel mas também dando ênfase a um lado, mais popular digamos, com a Banda Filarmónica das Sete Cidades que vai participar. Logo veremos. E a exposição que tem actualmente no Museu Carlos Machado, a “Prece Geral”? Na verdade está quase a fechar, no dia 4 de Fevereiro. Essa exposição, de certa forma, também tem alguma coisa a ver com o hotel Monte Palace embora sejam temas completamente diferentes. Essa exposição é sobre o Convento da Cartuxa, perto de Évora, que ainda tem sete monges em reclusão e que já tinha fotografado há mais de 20 anos. Está interligado por serem dois espaços muito concretos. A Cartuxa é um espaço quase abandonado, porque já só tem sete monges e já tem celas emparedadas. Quando o fotografei pela primeira vez, tinha 14 monges e têm um cemitério próprio que está na exposição fotografado, que me apercebi que tinha sete cruzes, que são os monges que faltam. A idade média dos monges é 70/80 anos, portanto é algo também em vias de extinção, o que é pena. Eu não sou religioso nem sequer católico mas penso que talvez o dia em que não haja pessoas a rezar por nós, o mundo talvez acabe. Tenho um bocadinho essa ideia. Provavelmente aquele espaço, que pertence à Fundação Eugénio de Almeida, ou acabará também em hotel ou servirá para residências artísticas, que é o que tem acontecido a esse tipo de espaços que são património mas são depois difíceis de lidar se a sua função desaparece. Mas também há outra coisa que se une com o hotel porque sei que o hotel costuma estar invadido por visitantes que lá passam, embora tivesse a sorte de estar relativamente sozinho lá. Se me perguntar qual é o tema da exposição “Prece Geral”, não acho que são os monges nem a Cartuxa, acho que é o silêncio. E é isso que também está um bocadinho nessas fotografias do hotel. Nós vivemos numa sociedade cheia de barulho, acho que já ninguém se apercebe da quantidade de barulho com que vivemos e há barulhos necessários, mas há muitos barulhos desnecessários. Inclusive a música tornou-se ruído. A música que era, e continua a poder ser, uma coisa maravilhosa é usada como uma coisa para tapar o silêncio e isso é uma coisa que me angustia porque acho que é impossível pensar neste barulho. Estas fotografias do hotel acho que transparecem o mesmo silêncio que as fotografias do Convento. Embora no Convento seja uma coisa assumida, porque eles vivem em reclusão e só podem falar uma vez por semana uns com os outros, ao Domingo. Mas o silêncio é uma coisa que senti muito lá, naquele espaço. E no hotel senti isso um pouco e acho que as fotografias também têm isso, transparecem esse silêncio, que corresponde também ao abandono. Fala em abandono e também já falou em arquitectura low cost. Que imagem tem de São Miguel a esse nível? São Miguel é Portugal e isso é uma imagem geral. A paisagem e a vegetação aqui são incríveis e pegando em low cost, assusta-me que as viagens low cost não só venham trazer mais pessoas, que trazem, mas que tragam também um progresso low cost. Se olhar para Lisboa, que é o que me está mais próximo, essa transformação é terrível e está a descaracterizar completamente uma cidade que tinha uma cultura fortíssima. Hoje vamos a certas zonas da cidade e está tudo escrito em inglês e onde as fachadas dos edifícios são mantidas, mas entra-se e o edifício já não tem alma e já não tem nada do que era. O que espero é que isso não aconteça nas outras cidades. Tenho pouca esperança, confesso, porque não temos políticos suficientemente cultos e interessados para isso. Tenho pouca esperança e tenho medo que isso em São Miguel também aconteça. E já se vêem sinais disso. Como em Veneza, onde já desapareceu tudo e praticamente já não há venezianos. Acho que isso é triste porque o que estamos a visitar é uma imagem. O que gosto nas fotografias é quando têm várias camadas. Por exemplo, uma fotografia de publicidade não tem camadas tem uma aparência e não vive para além dessa aparência. As fotografias que me interessam são as que têm várias camadas e que podemos, de certa forma, mergulhar nelas. Quando digo que Veneza é uma imagem é isso: é lindo, sem dúvida, mas já não é nada. Lisboa está nesse caminho, tal como outras cidades e muito rapidamente penso que pode acontecer em Ponta Delgada e na ilha. O turismo em que todos participamos é o problema porque tem o seu lado económico bom, sem dúvida, mas é avassalador como um exército de ocupação. Diz que gosta das fotografias em camadas, foi por isso que não fotografou as paisagens e optou por fotografar edifícios que viveram ao longo dos tempos? Não sou um fotógrafo de paisagens. O que me interessa é a memória, é o homem, o ser humano e a sua história envolto por essa paisagem, mas a paisagem em si fotograficamente falando não é o que mais me interessa. Se fotografar uma paisagem preciso de um poste ou um carro ou algo que me traga o homem, porque a ideia de fotografar a paisagem virgem não me interessa e acho que já não há paisagem virgem. Muitas vezes as fotografias de paisagens são apenas um ponto de vista da câmara mas que engana tudo o que está ao redor. E interessa-me mais tudo o que está ao redor. Mas isso tem a ver com o meu interesse pela memória e a paisagem virgem não tem cultura.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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