Malas de criptoméria e fibra de ananás vão chegar em breve a França e ao Qatar

A arquitecta empreendedora Sónia Pereira avança que a sua empresa também está a trabalhar para que a confecção das fibras de ananás passe a ser feita nos Açores. Para já é a criptoméria 100% regional que se destaca nas malas que tem vindo a desenvolver e que em breve deverão chegar a mercados diferenciados. O programa para certificação de produtos com origem na madeira de criptoméria certificada, ontem anunciado, será uma mais-valia para a valorização deste produto. No pequeno gabinete instalado no Nonagon - Parque de Ciência e Tecnologia de São Miguel, na Lagoa, os tons claros da madeira de criptoméria japónica invadem o espaço. No centro, uma gigante maqueta do Coliseu Micaelense que foi concebida para assinalar o centenário daquela casa de espectáculos. Por detrás uma grande e pormenorizada maqueta do Palácio de Santana. Logo à entrada estão instaladas umas grandes mas leves caixas que servem de invólucro para ofertar produtos dos Açores, por parte da Presidência do Governo Regional. Ao lado as malas que usam criptoméria e fibras de ananás e que em breve começarão a ser exportadas para países como o Qatar ou França. Também há vários pedaços de madeira que ainda não tiveram como destino final serem incorporados em qualquer um dos projectos que a arquitecta Sónia Pereira tem vindo a desenvolver. É naquele atelier que está instalada a MiiCasa, marca criada pela arquitecta Sónia Pereira, que idealizou e projectou inicialmente uma casa de bonecas com que acabou por ganhar o Concurso Regional de Empreendedorismo de 2012. A partir daí, instalou-se no Nonagon e nunca mais parou. Nem pretende parar. Todos os trabalhos são feitos em criptoméria japónica e Sónia Pereira já está a inovar com outros materiais, como por exemplo a fibra de ananás. É com estes componentes que surgem as malas com cheiro distinto à tradicional madeira e que usam a técnica de origami para o interior. Sónia Pereira conta que tudo começou quando precisou de ir a um evento mas não conseguia encontrar a mala ideal para conjugar com a roupa. Resolveu fazê-la e usou os materiais que já lhe eram conhecidos pois enquanto arquitecta usa nas maquetas a madeira leve da criptoméria que já conhecia de ver o seu pai, carpinteiro, a trabalhar. O resultado produziu efeitos imediatos e as malas despertaram muito interesse. Nascia assim um negócio “que surgiu de maneira engraçada, de uma necessidade que enquanto mulher tinha de fazer malas que se adaptassem ao meu estilo de vida, à minha maneira de ser, à minha vertente criativa”. Assim foram surgindo malas de mão todas revestidas com pequenos quadrados de criptoméria, outras malas de alças e agora mais recentemente uma mochila de média dimensão que se transforma numa mala de ombro, apenas ajustando as alças. Além da criptoméria que reveste as carteiras, quando se abre a pequena mala, abre-se em forma de origami para permitir alcançar o interior. Este revestimento interior é feito em fibra de ananás, que apesar de ser um fruto típico em São Miguel, ainda não é devidamente aproveitado para esta vertente. Sónia Pereira ressalva que “ainda não é daqui dos Açores, mas no futuro é isso que pretendemos”. A confecção destas fibras de ananás “ainda não está explorado a este nível, mas para lá caminhamos e o Atelier está a trabalhar nesse processo também”. Para Sónia Pereira, “a fibra de ananás é um produto que mais tarde acredito que vamos trabalhar, por ser um produto também nosso. Era óptimo para recuperarmos as estufas que temos ao abandono, criarmos postos de trabalho e recuperarmos essa tradição nossa que é a produção de ananás”. É por isso que denomina as suas malas como um produto vegan, ou seja que excluem tudo o que é de origem animal ou seja testado em animais. Uma denominação que poderá trazer mais-valias para o seu produto, “um produto de qualidade e com pormenor ideal”, sejam as malas ou as maquetas como a estufa de ananás que está exposta no Centro Interpretativo do Ananás na Fajã de Baixo. “A nossa criptoméria tem características fantásticas para estar no mundo do modelismo que acrescenta valor à matéria-prima”, explica a arquitecta que acrescenta que também ao nível das malas a matéria-prima é importante. Certificação de produtos É por isso que Sónia Pereira entende ser “fundamental e faz toda a diferença” a questão de certificação e o programa de apoio às empresas ligadas a fileira da madeira para que se certifiquem com o selo Forestry Stewardship Council (FSC), uma certificação internacional. O programa de apoio à certificação foi ontem anunciado pelo Secretário Regional da Agricultura e Florestas, João Ponte, no final de uma visita ao Atelier MiiCasa. Sónia Pereira destaca que em relação às malas, “por ser um produto vegan e por promover a criptoméria, o selo da certificação internacional é fundamental porque vem criar valor, vem justificar toda a preocupação que a região tem tido com a criptoméria. Isso é fundamental porque o cliente vegan é extremamente exigente bem como o mercado” que pretende atingir em breve. É que as malas de criptoméria e fibra de ananás ainda não estão à venda mas já há países que se mostraram interessados em poder comercializá-las, como França e Qatar. Sónia Pereira diz que “a concepção, o conceito e o produto já está executado, mas estamos numa fase de criar todas as condicionantes para que o produto, quando sair para o mercado, saia completo. Neste caso, a questão da certificação que foi hoje anunciada, era um factor fundamental para os mercados em que as malas se vão posicionar”. Mercados de grandes dimensões e com elevado poder de compra e que “já mostraram interesse no produto”. Além disso, as malas de Sónia Pereira têm “uma base ao nível de embaixadoras bastante interessante”, como por exemplo a fadista Kátia Guerreiro, a empreendedora Isabel Neves, conhecida da versão portuguesa do Shark Tank, ou a empresária e consultora de moda no Qatar, Elisabete Reis. A comercialização das malas estará para breve, mas a criptoméria dos Açores não deverá sair do atelier de Sónia Pereira tão cedo. Sem avançar novos planos, a arquitecta diz que “a criatividade é o limite” e admite que vai continuar a abraçar todos os desafios que lhe lancem. Sejam para maquetas, arquitectura de interiores, malas ou novos materiais. Certificação de produtos da madeira de criptoméria avança em Fevereiro O Secretário Regional da Agricultura e Florestas, João Ponte, visitou ontem o Atelier Mii Casa que “é um projecto que além de empreendedor, tem a capacidade de divulgar utilizações diferentes da criptoméria”, um produto já de si certificado na região. João Ponte ressalvou a “aposta muito forte” do governo regional na fileira da floresta e em concreto na criptoméria, onde existem actualmente em São Miguel 500 hectares desta madeira certificada internacionalmente pela FSC. A grande maioria desta madeira vai para exportação e “o desejo do governo e dos investidores, é que no futuro a madeira possa ser mais valorizada e consiga encontrar mercados que sejam capazes de reconhecer as qualidades desta madeira”. O selo Forestry Stewardship Council (FSC) distingue a madeira de criptoméria dos Açores certificada em termos de valor e de preço, daí a aposta do executivo regional em implementar ao máximo esta certificação. Não só ao nível das empresas que fazem o corte da madeira mas agora também através de empresas que fazem a sua transformação e a utilizam em vários sub-produtos. “O governo decidiu, face à importância deste selo em termos de notoriedade e de valorização, criar um programa de apoio às empresas que se pretendam certificar na sua cadeia de responsabilidade”, explica João Ponte. O Secretário Regional da Agricultura e Florestas acrescenta que já a partir do próximo mês de Fevereiro as empresas que assim o desejem podem passar a ser co-financiadas nesta certificação, em função do volume de negócios. “No caso concreto de empresas empreendedoras, terá uma taxa de co-financiamento próxima dos 100%”, explicou o governante. Actualmente há duas empresas na região que estão certificadas no abate, corte e colocação da madeira de criptoméria no mercado, principalmente externo. Agora, quem trabalha a madeira, “se assim o entender e se achar que ter o selo internacional resulta numa mais-valia”, pode também candidatar-se a este programa que vai co-financiar as despesas do processo de certificação “que envolve auditorias e todos os trabalhos necessários a desenvolver pelas entidades que atribuem este selo”. Este é, garante João Ponte, “o caminho para termos maior valorização e notoriedade da madeira de criptoméria e dos produtos que resultam da sua utilização em mercados que são cada vez mais exigentes”, concluiu.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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