Festas tradicionais dos Açores chegam ao Quebec pelas mãos da Casa dos Açores
- Categoria: Destaque Principal
- Criado em 25-06-2016
- Escrito por Carla Dias
Há 50 anos que Benjamim Moniz deixou Rabo de Peixe em busca de um futuro melhor, do outro lado do Atlântico. Na altura, com 15 anos, estudava no Seminário Padre Damião, na Praia da Vitória, onde tinha “dois benfeitores que me pagavam os estudos, o Doutor Duarte Manuel e o Senhor Agostinho Paiva”. Já no tempo a Guerra do Ultramar ensombrava o futuro dos jovens e foi por isso “com uma certa alegria” que o pai de Benjamim Moniz recebeu uma carta de chamada de um irmão que já estava emigrado nos Estados Unidos da América.
“Concretizou-se o sonho do meu tio e do meu pai” e a família de nove pessoas, seis filhos, pai e mãe, embarcou para a América porque “essa oportunidade de ir para os Estados Unidos seria uma maneira de não ir para o Ultramar”, recorda Benjamim Moniz.
Assim que chegaram aos Estados Unidos, Benjamim, o pai e o irmão mais velho foram logo trabalhar porque “o meu pai levou uma dívida muito grande na altura com as passagens de nove pessoas e tivemos de começar a trabalhar”. Ainda com 15 anos, Benjamim Moniz completou os 16 já nos Estados Unidos e recorda-se que “chegámos numa Sexta-feira e na Terça-feira seguinte começámos logo a trabalhar. A partir daí nunca mais se parou”.
O trabalho inicial que teve foi numa fábrica “que fazia fios de electricidade” e que era talvez “a maior fábrica de fios de electricidade dos Estados Unidos” e que dava trabalho a muitos portugueses que atravessavam o Atlântico em busca de uma vida melhor. “Talvez 80% dos portugueses que lá chegavam iam parar a essa fábrica e como os portugueses eram muito famosos para trabalhar e eram trabalhadores honestos, eram sempre bem-vindos e nós fizemos parte desse grupo que nos abriu as portas para um futuro melhor”, lembra Benjamim Moniz.
O jovem queria mais para a sua vida e apenas ficou na fábrica durante um ano porque “ganhava-se pouco dinheiro”. Como tinha habilidade para carpinteiro foi essa a sua profissão seguinte. “Fui ganhar o dobro do dinheiro e a partir daí continuei e terminei a minha vida profissional na construção civil”, explica.
Entretanto, Benjamim “já tinha namorada em Portugal e viemos para o estrangeiro na mesma semana” e por isso pouso tempo depois foi com naturalidade que casaram, na cidade de Montreal, “mas continuamos a viver na cidade de East Providence, no Estado de Rhode Island”.
Mas ao fim de cinco anos “as coisas não melhoraram” e a oficina onde trabalhava como carpinteiro foi à falência. Já com dois filhos, o casal decidiu dar um novo rumo à sua vida e o sogro “fez-me a carta de chamada e mudámo-nos para o Canadá a 16 de Dezembro de 1971”.
As mudanças nos Açores
No Canadá, Benjamim Moniz continuou a trabalhar na construção civil até Dezembro do ano passado, quando se reformou. Mas como diz que “não posso estar parado”, ainda continua a fazer algumas actividades, “algumas remodelações”, embora sem obrigação.
“Foram 50 anos de trabalho e de sacrifício para construir uma família e hoje sinto-me bastante feliz”, comenta com alguma emoção.
Trabalhou para duas empresas “muito grandes no Canadá, talvez das maiores empresas do Canadá de móveis de alta qualidade e fazíamos trabalhos para os Estados Unidos” e por isso refere que “aprendi muito e desempenhei várias profissões relacionadas com a construção. Agora continuo porque parar é morrer. Para me manter em actividade faço umas renovações, umas cozinhas, umas casas de banho e vou trabalhar quando quero, para me manter ocupado e passar os dias”.
Desses 50 anos de emigração, Benjamim Moniz esteve os primeiros 20 anos sem regressar a São Miguel. Nesse período, as saudades da sua terra natal e da ilha que o viu nascer eram muitas mas só passadas cerca de duas décadas é que regressou. O que encontrou “de forma alguma estava igual” ao que tinha deixado. “Mudou muita coisa, para melhor. Acho que ficou melhor a todos os níveis, ficou melhor para toda a gente. Acho que foi de tal maneira que hoje nem todos desejam emigrar. “Estamos conscientes que actualmente a situação política e económica em Portugal não é fácil, mas deixar a nossa terra só em última instância porque não há terra como esta”, refere ao acrescentar que as mudanças que ocorreram nos Açores levaram a que principalmente as condições sociais dos açorianos fossem melhoradas.
Agora, desde há 15 anos que vem regularmente aos Açores, “por vezes até venho duas vezes no ano”, não só para férias mas também para participar em acções relacionadas com a Casa dos Açores do Quebec, a que presidente desde há seis anos.
Casa dos Açores do Quebec
Benjamim Moniz sempre esteve envolvido na comunidade no Canadá, fosse no desporto onde praticou futebol e golfe, na Filarmónica Portuguesa de Laval, ou até mesmo na fundação dos “Amigos de Rabo de Peixe”. Depois também se dedicou à Casa dos Açores do Quebec, que foi fundada em 1978 pelos cinco associados: Carlos Saldanha, Tadeu Rocha, Joviano Vaz, Elvira Saldanha e Emanuel Contente.
No entanto, Benjamim Moniz refere que a Casa dos Açores “ficou fechada entre os próprios fundadores durante cerca de nove anos” e por isso, juntamente com um grupo de amigos, “resolvemos ir ao encontro dos fundadores e dizer que ou abríamos a Casa dos Açores à comunidade ou íamos formar uma nova associação com a ideia de a abrir à comunidade e informar sobre os Açores”.
Depois de vários encontros, chegou-se ao acordo que a Casa dos Açores seria aberta à comunidade “e foi o que aconteceu”. Benjamim Moniz fez parte da primeira direcção “eleita legalmente pelos sócios” e desde 2016 que foi eleito Presidente “com muito sacrifício e muito trabalho”.
Mas apesar do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela direcção, as novas gerações têm-se desligado um pouco das actividades da Casa dos Açores. Benjamim Moniz reconhece que “tivemos uma certa culpa”. É que na altura foram assumidas algumas responsabilidades financeiras pró parte da direcção da Casa dos Açores do Quebec e “havia sempre receio desses jovens não tomarem as responsabilidades, porque tínhamos contraído empréstimos bancários e tínhamos medo de transmitir aos jovens essa responsabilidade, se der um peso muito grande para eles”. A consequência é que “pouco a pouco foram-se desviando e foram-se integrando na comunidade onde estão inseridos”, embora reconheça que actualmente “estamos a fazer os possíveis para que isso não aconteça”. Neste sentido, Benjamim Moniz refere que a Direcção Regional das Comunidades “tem tido um trabalho excepcional e tem apoiado bastante as Casas dos Açores espalhadas pelo mundo, para que fossem verdadeiras associações que pudessem estar em contacto constante com o Governo dos Açores para apoio de todas as necessidades das nossas comunidades”.
E a Casa dos Açores do Quebec tem apostado na divulgação das raízes açorianas na comunidade canadiana em que está inserida, “para dar a conhecer o que são os Açores, o que é a nossa cultura, os nossos costumes e actividades que acontecem nos Açores”. É devido a estas actividades que Benjamim Moniz refere que “como as coisas foram aumentando, contávamos com a juventude. Temos trabalhado imenso para que a juventude adira à Casa dos Açores, tem sido bastante difícil”. E Benjamim Moniz afirma que “é pena porque tudo o que fazemos é em prol dos Açores, das nossas raízes, e não há uma resposta concreta da parte da nossa juventude”. No entanto, salienta que continuam a divulgar “a cultura açoriana, os nossos costumes e tudo o que é bom e o que existe nos Açores”.
Benjamim Moniz refere por isso que “as pessoas estão bem informadas e sempre que necessitam da Casa dos Açores para diferentes assuntos, quer económicos, quer de heranças ou informações gerais, estamos bem orientados nesta matéria para informarmos a nossa comunidade”.
Festas tradicionais com cheirinho a Açores
Além das informações que prestam aos açorianos a viver no Quebec, aos luso-descendentes que ali habitam ou mesmo aos canadianos, os membros da Casa dos Açores têm vindo a desenvolver várias festas alusivas às tradições açorianas.
Por exemplo, no início do ano foi feita a festa tradicional da matança do porco. Também é feita anualmente a festa do chicharro e as grandes festas do Divino Espírito Santo, que são o momento alto do ano na Casa dos Açores do Quebec em que hoje, Domingo, haverá lugar ao cortejo com a coroação e “um grande jantar de sopas do Divino Espírito Santo na Casa dos Açores”.
As Sopas do Espírito Santo embora típicas da Região, variam de ilha para ilha, e até de freguesia para freguesia. Mas, as sopas feitas na Casa dos Açores do Quebec “são muito diferentes”. Benjamim Moniz refere que “como há várias maneiras de fazer as tradicionais sopas nos Açores, fazemos a que é mais típica”. Ou seja, as sopas baseiam-se nas feitas em Rabo de Peixe, “porque é onde se fazem as maiores festas do Espírito Santo nos Açores”, diz orgulhoso o rabopeixense.
Todas as festas promovidas pela Casa dos Açores do Quebec são abertas não só a comunidade açoriana no Canadá, mas também a todos os canadianos. “Estamos inseridos numa comunidade muito interessante e as pessoas estão muito interessadas em saber o que representam essas festas, e até o que são os Açores, porque muita gente não conhece os Açores actualmente”, salienta Benjamim Moniz.
Os Açores e Rabo de Peixe
O Presidente da Casa dos Açores do Quebec volta a referir que apesar de nos Açores as condições de vida terem melhorado substancialmente desde os tempos em que se criou, a tão falada crise tem levado muitos açorianos a cruzar o Atlântico e a procurar melhores condições no Canadá. “Nos últimos tempos tem havido mais uma chamada para a nossa comunidade, para que haja a possibilidade de dar uma oportunidade àqueles que cá estão e que têm passado dificuldades ao nível social”, mas Benjamim Moniz recorda que “a emigração está fechada no Canadá e nos Estados Unidos”. Mas há sempre “quem tente ir numa aventura, mas dpara todos os que aparecem fazemos o possível para os ajudar, ao nível de trabalho, de residência, e o que é possível, fazemos”, ressalva o Presidente da Casa dos Açores do Quebec.
Essa também tem sido “uma obrigação” de quem está à frente da Casa dos Açores, “transmitir o que é nosso mas também ajudar naquilo que as pessoas necessitam e isso tem acontecido com muita frequência na Casa dos Açores”, ressalva Benjamim Moniz.
Manter a ligação com a terra natal também é a grande preocupação de quem está à frente da Casa dos Açores do Quebec e Benjamim Moniz recorda por exemplo que os seus três filhos, “dois americanos e um canadiano” já estiveram várias vezes nos Açores e gostam do que encontram por cá. “As minhas netas chegam e ao fim de duas semanas já falam português”, refere o presidente da Casa dos Açores do Quebec que destaca que duas das suas netas “falam português, inglês e francês e italiano”, devido às ligações familiares e à escola. Benjamim Moniz considera importante “saberem o que é a realidade dos Açores e a origem dos avós, onde nascemos e onde continuamos a manter as nossas origens”.
É por isso que ao longo dos anos, “quando pensamos em férias, pensamos em Rabo de Peixe”, refere Benjamim Moniz que reconhece que “ao longo dos anos Rabo de Peixe tem sido prejudicado mas não é tão mau como é divulgado pela comunicação social”, diz com algum bom humor. Rabopeixense “de gema”, Benjamim Moniz explica que Rabo de Peixe é uma vila de 10 mil habitantes e “tem muito de mau porque é muito grande e é normal que haja mais problemas sociais do que uma freguesia mais pequena”.
No entanto, Benjamim Moniz ressalva que até aí as comunidades emigradas também estão sempre dispostas a ajudar. “Desde que haja pedido de apoio, estamos sempre prontos e fazemos tudo para ajudar, por exemplo para que os estudantes consigam completar os seus estudos, por exemplo”, e recorda o apoio a um jovem estudante de Rabo de Peixe para dar continuidade ao curso superior que está a tirar. “Vamos fazer também uma angariação de fundos para ajudar e isso faz parte da nossa obrigação e da nossa própria identidade”, salienta.
Benjamim Moniz tenta comparar Rabo de Peixe actualmente, com a freguesia de onde saiu aos 15 anos de idade, mas não há comparação. “Rabo de Peixe aumentou, teve uma grande expansão ao nível de habitação e de infra-estruturas que evoluíram e onde estão vários jovens empresários e onde se empregam bastantes pessoas. Tem o maior porto de pescas, os maiores exportadores de pesca dos Açores para todo o mundo” e portanto, as comparações que se podem fazer são poucas.
Mas, em jeito de remate, Benjamim Moniz avisa que “não admito que ninguém fale mal de Rabo de Peixe. Rabo de Peixe é uma grande terra e orgulho-me de ser rabopeixense”, conclui.