Festa do Milho na Bretanha é uma oportunidade para juntar a família
- Categoria: Destaque Principal
- Criado em 21-09-2018
- Escrito por Patrícia Carreiro

Sob o tema “Valorizar as pessoas e o território”, a comunidade da Bretanha e a Norte Crescente organizam pela quinta vez a Festa do Milho. A mesma teve início ontem e prolonga-se até amanhã, num convite aberto a toda a comunidade micaelense para participar num evento que nos leva ao antigamente.
Em entrevista ao Correio dos Açores, Mário Miranda, Presidente da Direcção da Norte Crescente, falou-nos sobre o evento e sobre a envolvência da comunidade com o mesmo. “A Festa do Milho é um evento de afirmação do território, em que se pretende enfatizar as potencialidades que temos sobretudo ao nível do património, seja ele material, imaterial ou natural. Neste caso, aquilo que se quer é divulgar as tradições da zona da Bretanha, que é bastante afastada do centro de Ponta Delgada, mas que tem muito para mostrar e que recebe muito bem quem a visita”, explica Mário Miranda.
Este ano, o programa tem algumas novidades. “Com o arranque da festa, fizemos uma tarde inclusiva. Quisemos mostrar que o património e as tradições são para todos. Por isso, juntamos crianças, jovens e pessoas com deficiência para realizarem em conjunto várias actividades, como jogos tradicionais, aprender a fazer flores em folha de milho, visitarem o moinho e saborearem os pratos mais tradicionais à volta do moinho, num ambiente inclusivo em que todos são bem-vindos. No Domingo teremos também outra inovação que se prende com os showcookings. Teremos dois cozinheiros em simultâneo a preparar a gastronomia à base de milho e a interagir com o público para que possam eles próprios usar o milho em casa na sua gastronomia do seu dia-a-dia.” Neste sentido, “o chef Cavaco fará uma abordagem tradicional, porque o milho era muito utilizado como base alimentar no passado, e a chef Sónia Melo terá uma perspectiva mais inovadora e contemporânea de utilização do produto, tendo em conta aqueles que são os hábitos actuais de cozinha. Estes chefs vão estar connosco no Domingo, pelas 20h00”, conta Mário Miranda, fazendo um convite a todos os interessados.
Tendo em conta o tema da edição deste ano, Mário garante que é necessário manter estas tradições vivas, “porque muitas destas práticas agrícolas já não são utilizadas no dia-a-dia, e ainda bem que não porque são bastante onerosas para quem explora a agricultura. Contudo, ainda há muita gente que a sabe fazer e cabe a nós perpetuar esta tradição e mostrá-la aos mais novos”. Segundo nos disse um dos organizadores, neste âmbito “os jovens das actividades da Norte Crescente têm um papel fundamental, pois são parte integrante da festa, porque vão participar nela e estiveram a preparar todo o cenário construído à volta do moinho. Vão estar lá a utilizar as ferramentas e os utensílios agrícolas de outrora e participarão no desfile etnográfico”. O desfile etnográfico acontece amanhã, “com uma grande participação de jovens e dos pais. Assim sensibilizamos os mais novos para a valorização das nossas tradições que identificam cada um dos seus territórios. As nossas tradições não nos devem envergonhar, muito pelo contrário, devem ser valorizadas e perpetuadas para o futuro”.
A Festa do Milho terá como “cenário principal o Moinho do Pico Vermelho que fica numa zona da Ajuda da Bretanha, perto do acesso ao porto, logo no início da freguesia. Ao longo da rua temos vários pontos da gastronomia tradicional e convidamos todos a irem lá jantar durante a festa e a saborearem tudo o que é comida tradicional, à base da matança, como os torresmos, o inhame da Bretanha, as papas do carolo, as malassadas, o milho torrado, o milho cozido e o milho doce das Furnas”.
Nesse sentido, “a gastronomia é muito importante para esta festa. As barracas estão organizadas e foram feitas por organizações locais, como os romeiros, os idosos da Ajuda, os mordomos do Pilar, os jovens da Ajuda, por exemplo, todas elas com a missão de vender produtos tradicionais. A gastronomia tradicional é o prato forte da festa, por isso é que a feira tem o nome de “Feira de Sabores Tradicionais””. Ontem, “os produtos da matança foram aproveitados para se vender nas barracas, como o debulho e os enchidos. Por isso, há muitos e bons motivos para as famílias e os amigos virem jantar nestes dias à Ajuda da Bretanha. Há muito espaço para estacionamento e poderão ser saboreados muitos e bons produtos típicos da gastronomia açoriana, que aqui estão muito bem guardados pois é o que se sabe fazer na Bretanha”, explica Mário Miranda estendendo o convite a todos.
Além da gastronomia, “à volta do moinho decorrerão dois workshops de artesanato. Ontem, aprendeu-se a fazer bonecas de folha de milho com uma artesã certificada e hoje podem aprender a fazer capacho em folha de milho com a D. Maria dos Anjos”. Também se encontrarão fotografias e outros artefactos à volta do moinho, o que cria “um cenário que foi esmeradamente montado” para impressionar quem visite esta festa.
Este evento tem a particularidade de juntar os mais novos e os mais velhos, tornando-se um evento intergeracional. “Lembro-me de, na primeira edição, alguns idosos estarem com lágrimas nos olhos por causa da desfolhada. Foi muito bonito, porque as pessoas já não faziam aquilo há anos e estiveram lá a desfolhar, a amarrar e a debulhar o milho com muita alegria. Ao lado tinham os seus filhos e netos trajados à época, e todos aprendiam uns com os outros. São de facto momentos muito bonitos desta interacção e intergeracionalidade de toda a festa.”
Quanto à adesão, Mário Miranda garante que “tem havido uma grande participação todos os anos, mas o tempo é muito importante para a participação das mesmas, pois já nos estamos a aproximar do fim do Verão. Porém, a perspectiva é boa; queremos que haja pelo menos um tempo agradável durante estes dias, principalmente no Domingo que é o dia do desfile etnográfico”.
Quanto à organização, o Presidente da Norte Crescente contou-nos que a dedicação das pessoas é tão grande “que merece o nosso respeito”. Desde as crianças aos idosos, todos participam empenhadamente para que a festa aconteça. As freguesias de Pilar, Ajuda e Remédios da Bretanha são efectivamente as organizadoras, assim como a Norte Crescente. “Há uma comissão que organiza a festa e esta é composta pelas três juntas de freguesia, pelos vários grupos informais e pela Norte Crescente. As coisas não devem ser impostas por ninguém e deve haver uma participação democrática e entusiástica de todas as forças vivas locais.”
Este ano, a organização quis diversificar a proveniência dos participantes, pelo que participará no evento “o Grupo de Teatro de Ponta Garça, um carro de bois de Ponta Garça e outro dos Arrifes, um artesão de Água de Pau, e haverá ainda uma participação da Ribeira Grande”. Mário Miranda explica, então, que “houve uma preocupação em convidar mais pessoas, pois é preciso inovar a tradição e a festa não pode ser igual todos os anos. Temos ter motivos que tornem a festa mais dinâmica e mais interessante de ano para ano para que as pessoas continuem a ver motivos para rumarem à Bretanha durante estes três dias, para verem a festa, conhecerem as freguesias e os produtos e as suas gentes. As pessoas da Bretanha são fantásticas, muito acolhedoras, gostam muito de receber e recebem muito bem”.
Como mensagem final, o organizador quis “deixar um convite a todos os leitores do Correio dos Açores para encontrarem um tempinho ao longo destes dias para visitarem a Ajuda da Bretanha, o moinho, saborearem os produtos gastronómicos locais, conhecerem as pessoas, as tradições e assim contribuírem para o desenvolvimento deste território que, sendo afastado de Ponta Delgada, tem muito para oferecer a quem o visita”.
O programa apresenta-se muito diverso com momentos de bênção das colheitas, arrematações, música, folclore, cantigas ao desafio, desfolhada e muito mais. O convite fica feito, numa ambiência entre o antigamente e a actualidade e entre os mais novos e os mais velhos, com a possibilidade de se viver este fim-de-semana, em São Miguel, uma tradição conhecida e querida por muitos açorianos.