Pranchas de surf de criptoméria dos Açores tão normais como todas as outras pranchas

Prancha-de-criptoméria

Gonçalo Belmonte, proprietário da empresa Breklim, com oficina principal em Alenquer, vende pranchas de surf de madeira de criptoméria açoriana para países do Norte da Europa. Este ano a empresa pretende vender 200 pranchas todas iguais nas características e performance, todas diferentes na estética. E a empresa pretende crescer, “de forma sustentada”, nos próximos anos.
Gonçalo tem três filhos e todos eles fazem surf. As suas pranchas são de criptoméria açoriana certificada com o FSC de sustentabilidade. O jovem empresário, que já vendeu pranchas para o Norte da Europa, Holanda, Alemanha e países escandinavos, considera “interessante” que as escolas de surf de São Miguel possam utilizar este tipo de prancha ecológica.
Foi há quatro anos que encontrámos Gonçalo com um expositor em frente ao stand dos Açores na Bolsa de Turismo de Lisboa onde exibia algumas pranchas de criptoméria que fazia à mão. Nesta altura, afirma, “surgiram muitas oportunidades de desenvolvimento e de colaboração com as direcções regionais do Turismo e das Florestas que, ainda hoje, têm sido uma alavanca espectacular” do projecto.
Quando estive na BTL, a prancha era feita à mão com resinas e colas mais ecológicas. Na altura, a prancha custava à volta de dois mil euros. Mas o preço foi baixando, ao longo do tempo, com a automatização da construção da prancha…
À quatro anos fazer uma prancha de surf era um hóbi. A sua profissão, foi, durante 15 anos, publicitário, mas as pranchas foram-lhe ocupando todo o tempo. Há cerca de um ano e meio a dois anos, passou a dedicar-se, a 100%, à empresa.
Cedo Gonçalo Belmonte viu que as suas pranchas de surf de criptoméria certificada dos Açores ‘tinham mar para surfar” e, então, procurou formas de produzir melhor e mais barato. Ou seja, industrializaram, ao máximo, a produção. E, em simultâneo, começaram a melhorar o produto.
Como explica, as pranchas de madeira “são, normalmente, associadas a pranchas mais antigas, com maior peso, com menos performance do que as pranchas que são feitas à base de produtos petrolíferos. E a grande evolução que nós conseguimos fazer foi transformar um produto que era bonito mas de nicho num produto mais universal. Reduzimos o peso da prancha, mantivemos a madeira de criptoméria que é o material principal das pranchas e conseguimos um produto mais universal. Um produto que pode ser usado por qualquer surfista em qualquer onda do mundo como se fosse uma prancha normal”, afirma.
O foco principal da empresa é o seguinte: as pranchas de surf são construídas “com produtos altamente poluentes, essencialmente derivados de petróleo. Quando se deixaram de construir pranchas de madeira, começaram a usar-se materiais (porque o mercado assim o exigia) que levassem a uma maior produção e a ter pranchas de forma mais rápida, com menos peso. E, nesta altura (anos 40 a 50), até hoje em dia os materiais evoluíram muito pouco e continuam a ser, essencialmente, derivados do petróleo.
Em contraponto ao uso de produtos petrolíferos, o propósito de Gonçalo Belmonte “é reduzir o impacto ambiental da produção das pranchas, fugir ao máximo de materiais com base em petróleo, embora isso não aconteça a 100% hoje em dia. O facto é que já conseguimos, em muito, diminuir a quantidade destes materiais de maneira a ter uma prancha mais ecológica, mais durável que mantém a criptoméria açoriana como o elemento fundamental da prancha”.
Para conseguirem evoluir, “trabalhamos com engenheiros, com as pessoas que fazem as pranchas que são os shapers e temos um em específico que é o Luís Lacrau. Conseguimos passar de um processo essencialmente artesanal para um processo já semi-industrial e em grandes quantidades”. O facto é que uma prancha feita à mão leva cerca de 60 a 80 horas a fazer e a mesma prancha consegue-se fazer hoje em dia em 12 horas. “É um grande passo que conseguimos dar, mais uma vez mantendo os elementos essenciais que são a criptoméria açoriana, usando neste processo os materiais menos poluentes existentes no mercado. É o início de um ciclo”, sublinha.
A empresa funciona muito com base em encomendas mas tem um stock mínimo entre 40 a 60 unidades dos modelos que produz. E quando aparece um comprador “podemos vendê-las logo mas, essencialmente, temos funcionado por encomenda. Ou seja, uma pessoa quer uma prancha, contacta-nos e nós produzimos a prancha para aquela pessoa…
Actualmente, uma prancha de criptoméria normal custa entre 800 a 1.700 euros. “Depende dos tamanhos, das horas de trabalho empregues, e da quantidade de material”.
Com o evoluir do processo, as pranchas de criptoméria dos Açores “tornaram-se muito mais leves e com uma performance muito parecida às pranchas que são feitas nos processos normais com base no petróleo. Ou seja, o caminho da Breklim foi aproximar o produto de madeira de criptoméria açoriana para a performance de uma prancha feita com os materiais actuais”, reforça.
O próximo passo da empresa “é tentar que o projecto cresça no sentido de ter mais expressão nos mercados internacionais. O nosso mercado, apesar de estar a crescer muito, cinge-se quase só muito ao mercado nacional. O grande investimento agora é o da internacionalização de uma empresa relativamente pequena como é a nossa e esperamos o apoio – que tem sido continuado – das direcções regionais do Turismo e das Florestas dos Açores”.
Quando questionado sobre porque é que se compra uma prancha de surf de madeira, o empresário explica que a opção resulta de “uma consciência mais ecológica, pelo aspecto estético do objecto e espero eu que se passe a comprar porque a prancha, efectivamente, funciona a alto nível de competição. E é este o nosso trabalho de consciencialização das pessoas”, reforça.
Quando diz que a prancha funciona, está a dizer que tem os mesmos performances que uma prancha normal feita à base de produtos petrolíferos? “Exactamente, que funcione tecnicamente em termos de performance. E esta é a grande questão: os surfistas perceberam que este produto funciona tão bem uma prancha produzida por outros materiais. Este é o nosso desafio porque, apesar de tudo, as pessoas ainda têm uma ideia – que tem existido até agora – de que uma prancha de madeira não funciona tão bem como uma prancha de materiais petrolíferos. O nosso trabalho tem sido exactamente provar o contrário – que é chegar a um produto que funcione tão bem como aquela prancha normal à base de produtos petrolíferos. Este é o nosso grande desafio. E nós temos resultados de pranchas com características praticamente iguais às pranchas normais. A nossa grande evolução foi ao nível de produto e a outra grande evolução foi marcar (e temos isso como um objectivo permanente) um ponto na compra de madeira de criptoméria dos Açores com certificado SFC.
Na opinião de Gonçalo Belmonte, a gestão das florestas nos Açores “ está ao nível das melhores práticas da Europa e mesmo do mundo. E este certificado SFC atesta isso e esta é a nossa preocupação. E este tem sido um aspecto muito importante”, completa, a propósito.
Outra pergunta é se cliente que compra uma prancha de criptoméria dos Açores sai da loja satisfeito porque tem um produto diferente? A resposta do empresário é positiva: “Sai satisfeito porque tem um produto diferente, sai satisfeito porque tem um produto com as mesmas características técnicas que uma prancha normal. Para o nosso cliente, o aspecto estético também conta muito porque estas pranchas são diferentes de todas as outras que e vêem no mercado e sai satisfeito porque a performance da prancha é muito parecida com todas as outras”.
“Estas são pranchas de colecção mas para usar. Não são pranchas para ter na parede porque é bonito. São pranchas para usar dentro de água. Se fossem pranchas para serem bonitas, o nosso trabalho de desenvolvimento do produto no sentido de aumentar a sua performance não valia a pena. E, então, para além do aspecto estético que é mesmo muito atraente, o aspecto funcional também tem de estar muito presente na cabeça das pessoas”, afirma.

Prancha de criptoméria é única
mas com a mesma performance

As pranchas em madeira são todas iguais ou são todas diferentes? “As pranchas são todas diferentes porque não se conseguem fazer duas pranchas iguais com madeira. Isso é óbvio. Portanto, quando compra uma prancha em madeira, tem uma prancha diferente de todas as outras que existem. Aquela já não se repete. Portanto, em termos de características funcionais, são todas iguais. Em termos de aspecto visual são todas diferentes. Não se conseguem fazer duas iguais”, sublinha
Gonçalo Belmonte elogia muito o apoio do Governo dos Açores. Afirma mesmo que os Açores “têm sido fundamentais para o desenvolvimento deste projecto, ao nível das entidades responsáveis pelo Turismo como das Florestas. Têm visto com muitos bons olhos. Graças a Deus temos tido sempre as portas abertas para aquilo que vamos precisando e, sem estas ajudas, seria difícil conseguir chegar onde chegámos”.
“Um projecto destes”, prosseguiu”, “serve para cumprir objectivos do projecto mas também pode servir e esta é a nossa intenção, para promoção da Região como destino, para atrair públicos mais jovens a este destino espectacular que são os Açores, para atrair mais pessoas que queiram praticar este desporto aqui. Há todas as condições nos Açores para fazer surf e de boa qualidade. E este projecto tem de servir também como atracção por esta beleza que existe nas ilhas e que é inquestionável”.
Gonçalo Belmonte está em São Miguel, a convite da organização do ‘Master’ que está a decorrer no Areal de Santa Bárbara para entregar uma prancha de madeira de criptoméria certificada dos Açores como prémio “a uma das lendas do surf, quase todos eles ex-campeões que trouxeram consigo as famílias e vivem hoje o surf de forma mais próxima às localidades onde se realiza o campeonato”.
Este é um campeonato, acentua Gonçalo Belmonte, que “trás um olhar diferente sobre as ilhas e sobre o surf nas ilhas”. E o seu desejo é que o seu prémio, uma prancha de surf, “contribua para a divulgação tanto da Região como da criptoméria como da minha marca”.