“Estou muito preocupada, e até revoltada, com o aumento da extrema direita, o xenofobismo e o racismo ”
- Categoria: Destaque Principal
- Criado em 22-09-2018
- Escrito por Nélia Câmara

Gilberta Margarida de Medeiros Pavão Nunes Rocha, professora catedrática da Universidade dos Açores, é doutorada em Ciências Sociais, especialidade de Demografia. Tem trabalhos publicados a nível nacional e internacional nas áreas da Dinâmica Demográfica, Migrações, Envelhecimento Populacional, Família e Género. É autora de cerca de duas centenas de títulos nacionais e internacionais e de vários estudos sobre a emigração e o envelhecimento. Reconhecida e respeita pelo seu trabalho em prol do ensino universitário e também pela sua investigação, que se destaca no mundo académico. Como mulher, mãe e avó, assume que à família dedica muito do seu tempo afectivo e efectivo.
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Gilberta Rocha - Mulher com 67 anos, aposentada mas com actividade relacionada com a profissão que exerci durante mais de 40 anos, investigadora na área das Ciências Sociais.
Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Iniciei a minha actividade profissional como professora da Escola Roberto Ivens durante 3 meses, em Novembro de 1976, e em Fevereiro de 1977 fui para o então Instituto Universitário dos Açores, hoje Universidade dos Açores, onde trabalhei até me aposentar, em Outubro de 2017.
Actualmente ainda me encontro vinculada a esta instituição como membro do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (Centro que surge na sequência do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores- CES-UAc).
Iniciei a minha vida académica no que é hoje a Faculdade de Economia e Gestão, uma vez que sou licenciada em Finanças, e em 1982 passei para o então Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais, onde fiz toda a minha carreira académica, designadamente o Doutoramento em Ciências Sociais, especialidade de Demografia, em 1989. Nele realizei todas as provas conducentes à categoria de professora catedrática em 2004.
Exerci vários cargos na Universidade dos Açores, como fora dela, designadamente na Associação Portuguesa de Sociologia, Associação Portuguesa de Demografia, Conselho Superior de Estatística, sendo desde 2013 representante da Região no Conselho Económico e Social.
Como se define a nível profissional?
Realizada.
Quais as suas responsabilidades?
As que desejo assumir.
Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Em termos genéricos, a família é hoje mais diversificada do que no passado, com menos filhos, na qual todos os membros são tidos mais em consideração na sua individualidade, nomeadamente a mulher e os filhos e onde existe uma maior partilha das actividades domésticas.
À minha família reservo todo o meu espaço afectivo e algum efectivo, isto é de apoio concreto aos filhos e netos.
Que importância tem os amigos na sua vida?
Foram sempre muito importantes embora sejam em número cada vez mais restrito.
Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Ler, ver cinema e debates na televisão.
Que sonhos alimentou em criança?
Não me recordo de sonhos especiais, tive uma infância muito feliz e era mais do que suficiente.
O que mais o incomoda nos outros?
A mentira, a inveja e o “carreirismo”.
Que características mais admira no ser humano?
A justiça, a verdade e a frontalidade.
Sabe-se que gosta de ler. Diga o nome de um livro de eleição e porquê?
Não tenho um livro de eleição, mas um conjunto de livros que me tocaram de modo muito especial e as preferência foram variando ao longo do tempo e contextos. Tanto gosto de romances, como de ensaios, nomeadamente de cariz político.
Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Se se refere ao FB e similares confesso que ligo pouco, fetenho-me em algumas opiniões de amigos que prezo, vejo um ou outro comentário de humor e pouco mais. Cansa-me.
Costuma ler jornais?
Confesso que cada vez leio menos.
Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que os valores da igualdade, justiça e solidariedade se tinham generalizado a todo o mundo.
O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
Entendo que a política é uma actividade imprescindível ao nosso viver em sociedade. Infelizmente vivemos tempos maus, que se avizinham ainda mais negros. Estou muito preocupada, e até revoltada, com o aumento da extrema direita, o xenofobismo e o racismo.
Procuro ter alguma participação social de cariz político, nunca me neguei a dar a minha opinião política, tanto em associações, como na comunicação social. Acho que não tenho temperamento para um enquadramento partidário, embora ache que os partidos são fundamentais na nossa vida colectiva.
Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer? Qual a que falta fazer?
Gosto muito de viajar, é uma associação óptima de lazer e aprendizagem. Não tenho uma viagem de referência, gostei de quase todas, por vezes por razões muito distintas.
Conheço mal a América Latina e gostava muito de conhecer vários países, quem sabe todos, da América Central e do Sul.
Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Também a este respeito não tenho um prato de eleição, gosto de comer e gosto de praticamente tudo, com excepção de melância. Gosto tanto da comida de confecção mais tradicional, como a dita “gourmet”. De criança ficou-me o gosto pela batata frita (bem feita).
Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Nunca pensei em ter um cargo governativo e como tal nas respectivas medidas. Sem dúvida que me preocuparia com a Educação, para mim a base das necessárias mudanças sociais.
Qual a máxima que o/a inspira?
A Verdade a Justiça.
Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Aquela em que se acreditava que o mundo ia ser melhor.
Quem é Gilberta Rocha fora do âmbito de Professora e de investigadora?
Uma mulher como tantas outras, que tem procurado conciliar a vida profissional, com a familiar e de participação social e cultural.
Como surgiu o seu interesse pelo ensino ao nível superior?
Aconteceu e ainda bem.
É militante do PS? Hoje qual a sua participação política e qual o seu interesse pela política ou pretende ficar por uma cidadania activa?
Não sou, nunca fui, militante do PS, embora seja o partido político em que mais me revejo. Continuo e pretendo continuar a ter uma cidadania activa.
Em seu entender, acha que na Região devia haver uma maior preocupação do Serviço Regional de Saúde com a saúde dos açorianos? Quer fazer uma reflexão neste domínio?
Confesso que não sei medir o grau de preocupação dos nossos responsáveis políticos. Contudo, acho que tem de haver uma atenção especial à formação e condições de trabalho dos profissionais, como também à educação dos utentes. O financiamento da saúde é hoje uma questão problemática em todos os países desenvolvidos por diversas razões, principalmente as decorrentes dos maiores custos dos meios de diagnóstico e do prolongamento da vida. Na Região acresce-se a pobreza e a má qualidade de vida em que cresceram muitos dos nossos idosos de hoje e a dispersão geográfica.
Constroem-se nos Açores ‘escolas douradas’ e a Região continua nos últimos lugares do país ao nível de ensino. Em sua opinião, o que é que falta? Mais formação? Mais família na educação dos filhos?
Sem dúvida que a formação, bem como as condições de trabalho dos professores são essenciais.
Sou crítica de mais família na aprendizagem dos alunos. Seria um aspecto muito interessante se todas as famílias tivessem as mesmas condições para apoiar, mas não têm. Num contexto de desigualdade social, como o que vivemos, acaba por acentuar e reproduzir as desigualdades.
A pobreza ainda é um problema. Acredita que há solução para erradicar a pobreza ou haverá sempre pobres e nenhum governo consegue ter a solução?
Não quero pensar que a pobreza sempre existirá, que é uma condição natural das sociedades, porque não o é.
No entanto, os valores economicistas que regem as sociedades actuais têm levado a um aumento da pobreza e das desigualdades, e esta uma realidade que não podemos ignorar.
Não penso que mesmo sem conseguir erradicar, ou até a minimizar, a pobreza, os governos sejam todos iguais. Há uma enorme diferença entre pensar que ela sempre existirá e que se deve fazer caridade e procurar ter Políticas Públicas que atendam aos mais desfavorecidos, o que defendo.