“Não queremos que os Açores se transformem em mais uma ilha de Maiorca” alerta especialista
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- Criado em 26-09-2018
- Escrito por Carla Dias
Mark Orams diz que os Açores são especiais e únicos e é preciso haver uma mentalidade diferente para se definir o que se pretende quanto ao futuro dos Açores. Dá o exemplo da maior e mais procurada ilha das Baleares como um exemplo a não seguir, e por oposição apresenta a protegida ilha de Lord Howe, que controla a presença de turismo de forma muito criteriosa, como uma visão para o futuro dos Açores. “Mais não é necessariamente melhor”, defende.
Os Açores “são especiais e únicos” e para se manterem assim é necessário equilibrar os benefícios do desenvolvimento do turismo mantendo, no entanto, a sustentabilidade.
E porque é possível haver turismo e sustentabilidade, há que definir “muito bem” o que se pretende para os Açores para que a “oportunidade de se ter desenvolvimento do turismo, não degrade a qualidade de vida das populações e a qualidade do ecossistema local”. Esta é a opinião do investigador, navegador profissional, atleta, treinador, que actualmente é professor na Universidade australiana Sunshine Coast, Mark Orams, que está em São Miguel a participar no “Seascape International Symposium 2018” [Simpósio Internacional de paisagens subaquáticas 2018].
À margem da comunicação “maximizar o valor das paisagens subaquáticas para o turismo de iates nos Açores”, Mark Orams explica que “estamos a falar da oportunidade de definir um turismo sustentável apropriado em oposição a promovermos o destino de maneira a termos cada vez mais turismo”. Ou seja, “não queremos que os Açores se transformem em mais uma ilha de Maiorca”, a maior das ilhas Baleares muito procurada pelas suas praias pelos turistas, “não é essa a oportunidade”.
É que Mark Orams entende que “os Açores são especiais, quer pelas pessoas destas ilhas quer pelas pessoas que as visitam, porque é um sítio único e tem um ambiente natural de grande qualidade”. Por isso entende que “mais não é necessariamente melhor”.
O especialista, que também é surfista, mergulhador e praticante de stand-up paddle, acredita que é necessário pensar e definir “como podemos promover os Açores de forma a que as pessoas que cá venham compreendam que vir aqui é uma experiência especial que requer respeito, devem cuidar do ambiente natural e relacionar-se de forma própria com as pessoas que cá vivem”.
Mas isso, revela o investigador, requer uma mentalidade diferente da parte dos políticos, e de outros, “que dizem que temos de promover os Açores para ter mais turismo. Mas eu digo que não, não é essa a ambição aqui”. O que a classe política deve pensar, refere Mark Orams, é como se pode promover e gerir o turismo para que seja apropriado para a Região. “Os Açores são especiais e únicos e o que podemos fazer para garantir que a experiência de visitar o arquipélago é única também?”, questiona ao dar a indicação que há muitos locais pelo mundo que já tomaram essa decisão. Dá mesmo o exemplo de uma pequena ilha do Pacífico Sul chamada Lord Howe, que controla a presença de turismo de forma muito criteriosa.
“De um lado temos Maiorca ou Ibiza e do outro lado temos Lord Howe. Como é que os Açores querem ser? Como vê o seu futuro? Querem ser mais uma Maiorca? Acho que não. Lord Howe que é Património Mundial da Humanidade da UNESCO, é uma jóia e é um local que já tive a sorte de poder visitar e quero voltar porque é tão maravilhoso. Isso para mim é onde o futuro dos Açores deve estar”, explica Mark Orams.
O professor de recreação marítima e turismo, diz que depende “se os Açores querem mais visitantes ou não. É uma decisão importante a tomar”, embora reconheça que o turismo é importante em termos económicos porque cria postos de trabalho e “é algo que dá orgulho aos locais por poderem partilhar o ambiente local e a comunidade local com visitantes e providenciar benefícios a pessoas, que como eu, vêem este local como um local fantástico”. Mas “se tivermos demasiado turismo pode também ter efeitos negativos”, refere.
O que atrai iatistas aos Açores?
Mark Orams, que pela primeira vez ouviu falar sobre os Açores e do seu anticiclone quando participou na Whitbread Around The World Yacht Race em 1989, falou ainda sobre como “maximizar o valor das paisagens subaquáticas para o turismo de iates nos Açores”. Sendo natural da Nova Zelândia, e tendo desde cedo usado o mar como local privilegiado de brincadeiras, Mark Orams refere que “o mar é muito importante para todas as pessoas e não apenas para quem vive em ilhas pequenas. O mar é importante e conjuga-nos a todos”.
Mas é preciso chegar a um consenso sobre o valor das paisagens subaquáticas. “O que é o valor?”, questiona o especialista que revela que o valor de uma paisagem pode ser económico mas também se lhe pode atribuir um valor cultural, valor psicológico ou mesmo valor espiritual.
No entanto, para um iatista há vários pontos que é necessário ter em conta enquanto se escolhe um local para visitar ou atracar. Nomeadamente a “localização” e para os navegadores “o valor das ilhas é importante principalmente num mar tão grande”, e daí a importância dos Açores “para quem atravessa o Atlântico. Os Açores são revelados como um porto seguro pela comunidade de navegadores”.
Há também que ter em conta “a meteorologia”, já que na perspectiva de um navegador “o tempo é muito importante, nem se quer muito mau tempo nem muito bom tempo”. E o Anticiclone “é algo a que os navegadores têm muita atenção”, recorda Mark Orams.
Mas os “locais de atracagem” também são de extrema importância já que os navegantes dão muito valor a certos pontos nomeadamente “quando os locais de atracagem são muito populosos ou com tempestades trazem esgotos para o local”.
Os iatistas dão também valor aos “serviços” disponibilizados já que necessitam sempre de parar para reabastecer e muitas vezes precisam de pequenas reparações. Quanto à “informação” disponibilizada sobre o destino, convém estar actualizada juntamente com previsões meteorológicas para 2 ou 3 dias. Juntamente com “atracções” que são mais valorizadas por quem chega de barco do que por quem chega de avião, nomeadamente actividades ligadas ao mar como mergulho ou surf.
No fundo, os navegadores procuram “fugir” da rotina e por isso é necessário lembrar que “o desenvolvimento pode ser um factor contra, já que normalmente os navegadores afastam-se do desenvolvimento que é o que encontram no seu dia-a-dia”.
Procuram a simplicidade e estabelecem prioridades, já que “o importante não são as coisas, mas a experiência em si”. Mas acima de tudo procuram a proximidade com a natureza e é isso que encontram nos Açores.
No entanto, Mark Orams deixa o alerta “os Açores querem desenvolver o turismo, mas há muitos sítios em que os turistas já superam os habitantes. Temos de pensar em valores e que valor representa o turismo para nós, para os Açores”, conclui.
Governo empenhado
em apoiar investigação
Na abertura do “Seascape International Symposium 2018” [Simpósio Internacional de paisagens subaquáticas 2018], esteve o Director Regional da Ciência e Tecnologia, Bruno Pacheco, que garantiu que o executivo tem vindo a garantir maior previsibilidade nas medidas de financiamento. Um trabalho que Bruno Pacheco garante que irá ser estabilizar já a partir de 2019 quando em Janeiro serão abertas as candidaturas para medidas de financiamento ao ProCiência, para “participação e organização de congressos e eventos de divulgação de cultura científica”. Uma medida “que vai ao encontro das necessidades do sistema científico”, explicou Bruno Pacheco.
O Director Regional da Ciência e Tecnologia garantiu que entre 2017 e 2018 o Governo Regional co-financiou em média 70 actividades por ano, representando um investimento de cerca de 200 mil euros por ano.
Bruno Pacheco deixou ainda a necessidade de se envolver a comunidade nos eventos científicos que são co-financiados pelo Governo e, por isso, desde este ano que a título experimental é pedido nas candidaturas para que as iniciativas a apoiar demonstrem as iniciativas que vão tomar para a abertura à comunidade. “Queremos cultivar esta ligação. A nossa sociedade tem de ter conhecimento daquilo que se faz na comunidade científica”, explicou. Em 2019 o Governo Regional pretende também “privilegiar os jovens investigadores, recém-formados ou em formação avançada”, no acesso à participação em reuniões científicas.