Desigualdade na distribuição de riqueza é a principal causa para os Açores serem a região portuguesa onde se morre mais cedo

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O sociólogo açoriano, Fernando Diogo, apontou ontem, ao Correio dos Açores, que uma das razões plausíveis para que a esperança de vida na Região seja a mais baixa em Portugal é o facto de a distribuição de riqueza no arquipélago ser a segunda mais desigual do país.
Quando questionado porque, em Portugal, se morre, em média, com menos idade em Portugal, Fernando Diogo começa por salientar que “esta é uma questão que não é nova, mas que nunca foi estudada. “Quem poderia fazer este estudo são os nutricionistas, os biólogos e os médicos, os especialistas das ciências da vida”.
Fernando Diogo sublinhou, contudo, que um trabalho profundo desenvolvido pela Universidade de Nottigham, em Inglaterra “(a terra de Robin dos Bosques), mostra que há uma grande ligação entre desigualdade e distribuição de riqueza e esperança de vida. Ou seja, quanto maiores são as desigualdades, menor é a esperança de vida e os Açores têm a segunda maior desigualdade de distribuição de riqueza das regiões portuguesas, logo a seguir à região de Lisboa e Vale do Tejo”, referiu.
Este estudo da Universidade de Nottigham é considerado universal, embora tenha sido feito para um grande número de países europeus, estados norte-americanos e para o Canadá. “E, portanto, os Açores têm um nível de grande desigualdade de distribuição de riqueza no contexto português”, sublinhou.

Alimentação pouco saudável
pode ser outra das causas

Já sem base em estudos, mas dando a sua percepção sobre outras razões que podem condicionar a esperança de vida nos Açores, Fernando Diogo afirmou que, sobretudo em São Miguel, “é possível constatar que há determinados hábitos alimentares de pessoas que podem potenciar uma menor esperança de vida, nomeadamente o uso do sal, o uso de muita pimenta da terra. A pimenta da terra, em si, é um condimento que eu, pessoalmente, aprecio bastante mas tem que ser consumida de forma moderada porque é agressiva para o organismo, sobretudo para o estômago. E a verdade é que, em São Miguel, não há moderação nenhuma no consumo de pimenta da terra”.
Em sua opinião, “é possível que o sal, mais a pimenta da terra, mais o vinho de cheiro de São Miguel (que não é igual ao outro e prejudica mais o organismo), mais a questão de muita açúcar, mais a questão de cozinhar muito os alimentos. Cozinhar em São Miguel implica cozinhar muito os alimentos. Portanto, uma alimentação pouco saudável, em especial em São Miguel, pode ter um efeito numa menor esperança de vida nos Açores. Mas estou a fazer especulação. Não se baseia em estudos”, afirmou o sociólogo.
O jornalista colocou o sociólogo perante uma frase que se houve muito nos Açores. Costuma-se dizer-se: “esta humidade mata”. Matará mesmo?
Segundo Fernando Diogo, a questão do clima, eventualmente, mas é preciso aí alguma prudência. Por exemplo, a Madeira tem um clima semelhança e a esperança de vida deles, não sendo também tão muito alta, sempre é mais elevada do que os Açores”.
O sociólogo chamou a atenção para o acto de, ao longo das várias informações que se vai recolhendo, “há uma coerência em existir nos Açores a menor esperança de vida de Portugal. Não é um fenómeno episódico. Mas, em relação á humidade, não tenho numa relação que possa levar a falar sobre este fenómeno. Não faço nenhuma ideia se tem ou não efeito sobre a esperança de vida. É possível, mas eu não sei”.
O que é praticamente certo é que “maior desigualdade, menor esperança de vida”. Também se fala muito de outras causas, como o sol e os gases vulcânicos. “Mas, sobre isso, não faço a mínima ideia”, completou Fernando Diogo que aconselhou o jornalista a ouvir colegas seus ligados à ciência da vida”.

A evolução da esperança
de vida nos Açores

A esperança de vida nos Açores, no triénio 2015/2017, (77,48 anos) é mais baixa de Portugal, ficando abaixo da média portuguesa (80,78 anos para o total da população, sendo de 77,74 anos para os homens e de 83,41 anos para as mulheres), segundo dados revelados ontem pelo Instituto Nacionbal de Estatística.
A esperança de vida para os homens nos Açores era, em 2015/2017 de 73,89 anos e, para as mulheres, era de 81 anos, ou seja, mais sete anos que os homens.
A esperança de vida na Madeira era em 2015/2017 de 78,18 anos. Para os homens, na Madeira, a esperança de vida era de 74,25 anos e para as mulheres a residir na Madeira a esperança de vida era, no mesmo período, de 81,43 anos. Ou seja, na Madeira, as mulheres vivem, em média, mais 7.18 anos.
Nos últimos sete anos, observaram-se melhorias na esperança de vida à nascença em todas as regiões portuguesas. Contudo, o maior aumento registou-se na Madeira. Nesta região, a esperança de vida à nascença passou de 76,13 anos para 78,18 anos, o que significa que as pessoas podiam esperar viver à nascença em 2015/2017, em média, mais 2,05 anos do que em 2008-2010.
As maiores diferenças de longevidade entre homens e mulheres no período 2015-2017 registaram-se nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, onde as mulheres podiam esperar viver em média, respectivamente, mais 7,18 e 7,11 anos do que os homens.
Por comparação, nas regiões Área Metropolitana de Lisboa e Norte observaram-se as menores diferenças de longevidade entre os dois sexos (5,47 e 5,53 anos, respectivamente).
A esperança de vida aos 65 anos mais reduzida, com valores abaixo de 19 anos, verificou-se nos Açores e Madeira, no Baixo Alentejo e Oeste.
A esperança de vida aos 65 anos nos Açores era, em 2008/2010, de 16.18 anos; e no triénio de 2015/2017, de 17, 12 anos.
Já na Madeira, a esperança de vida aos 65 anos, em 2008/2010, era de 16,40 anos; e no triénio de 2015 a 2017, era de 17,75 anos.
É significativo que em nenhuma região do Continente a esperança de vida aos 65 anos está entre os 17 e os 18 anos como sucede nos Açores e na Madeira. Aliás, a média de esperança de vida aos 65 anos no Continente era de 18,60 anos em 2008/2010 e de 19,65 anos no triénio 2015/2017.
As regiões continentais portuguesas com a esperança de vida aos 65 anos mais próxima dos Açores e Madeira são o Baixo e o Alto Alentejo, a região do Tâmega e a região do Douro.
A esperança vida média em Portugal aos 65 anos era de 18,59 anos em 2008/2010 e de 19,45 anos nos anos de 2015/2017.