Inge e Roland vieram de férias aos Açores e agora não conseguem encontrar razões para saírem “do sítio mais limpo do planeta”

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Inge Perreault é natural da Alemanha e aos sete anos, na escola primária, começou a ter aulas de Inglês de forma voluntária e o gosto pelas línguas ficou-lhe. Foi para a Universidade e depois foi intérprete e tradutora, até que aos 22 anos deixou o “velho continente” e rumou para o outro lado do Atlântico. Viveu em Nova Iorque, viajou muito, até que conheceu Roland, o seu marido, e teve dois filhos. Decidiu deixar de ser tradutora, dedicou-se aos filhos e optou por uma carreira enquanto escritora. Pelo meio ajudava o marido na empresa de construção de ambos, de construção de casas eficientes energeticamente, aprendeu francês, italiano, dedicava-se a sessões de leitura de poesia, era activista ambiental, e conheceu muitos açorianos na zona de residência, em West Island, em Fairhaven, New Bedford.
Entretanto, Inge e Roland reformaram-se e depois de muito ouvirem falar sobre os Açores decidiram marcar uma viagem para as ilhas, para comemorar o seu 35º aniversário de casamento. “Nunca tínhamos estado aqui, tínhamos sempre tendência a ir para os lados da Caraíbas”, explica.
Passaram uma semana em São Miguel “e adorámos. Podíamos andar nas ruas à meia-noite e ninguém nos incomodava. Tudo era tão limpo”, explica Inge Perreault que confirma que em West Island “foram acontecendo muitas coisas que fizeram com que não fosse já agradável viver ali. Pessoas muito ricas mudaram-se para lá e acabou por perder o seu charme”.
Depois de encantados com as férias de uma semana em São Miguel, disseram adeus à ilha e chegaram à América “debaixo de um nevão”. Mal aterraram, Inge disse a Roland que se queria mudar para os Açores. O marido lembrou-lhe a barreira linguística e o facto de não conhecerem ninguém por cá, mas Inge “disse-lhe que aprenderíamos a língua”.
Decidida, foi ao Consulado Português pedir os impressos para virem viver para os Açores. Preencheram os papéis, entregaram-nos e tiveram uma reunião no Consulado onde “toda a gente foi muito simpática e amigável, ao contrário do Consulado Americano”. Passaram duas semanas e receberam um telefonema do Consulado “e disseram que o Governo Português queria que viéssemos e perguntaram quando estávamos prontos para vir. Isto foi talvez em Junho e eu disse que Novembro era bom. A única coisa que perguntei foi se podíamos trazer os nossos dois gatos”. Com uma resposta afirmativa “tudo se encaixou. Era o nosso destino estar aqui”.
Apesar da motivação do casal, os amigos e conhecidos sempre foram cépticos. “Perguntavam-nos: aos 59 e 63 anos, vão-se embora? Para um sítio que nem falam a língua? Vão vender tudo? Dizíamos que não fazia mal e que aqui havia gente a falar inglês”, explica Inge. Nos Açores, diz “aqui as pessoas vivem num ritmo mais lento, não se importam de esperar em filas. Num supermercado se uma pessoa tiver apenas dois itens e outra pessoa tiver um carro cheio, deixam passar à frente. Isso nunca aconteceria na América. Nunca”.
A 6 de Novembro saíram dos Estados Unidos da América “debaixo de um nevão” e aterraram no dia seguinte “com um tempo maravilhoso de Primavera, com com caixas e dois gatos” e instalaram-se na Caloura, Água de Pau. Ainda chegaram a ir ao Faial, “porque um senhor britânico tinha um sítio para vender onde podíamos começar um “Bed & Breakfast”, mas decidimos que o Faial era muito pequeno para nós”.
Voltaram à Caloura e Inge até se lembra que “um dia as pessoas estavam com flores nas mãos e conhecemos duas mulheres já idosas que tinham frísias. Deram-me uma, agradeci e uma das senhoras levou-me pela mão para dentro de casa e mostrou-me o seu forno de lenha onde tinha estado a cozinhar biscoitos. Tirou-os do forno e encheu um saco para nos dar”, recorda Inge.
Ao casal, a vivência em São Miguel começou a soar a “liberdade, foi como se tivéssemos renascido” e Inge refere um facto que muito lhe agrava fazer no início: “estender roupa. Já ninguém faz isso na América mas eu quando era criança estendia roupa no estendal. Hoje lá, ninguém faz isso”. Por isso considera que vir para os Açores “foi uma aventura. Uma aventura adulta” e não sente arrependimentos de há 12 anos terem seguido nesta aventura.
Mudaram-se entretanto, há 8 anos, para um apartamento na cidade da Lagoa, e “nunca me senti tão em casa em mais lado nenhum como me sinto aqui. Em 12 anos não há um arrependimento. Estou tão grata por nos termos mudado. A qualidade de vida aqui é muito melhor. Muitas pessoas vão para a América, ganham muito dinheiro, mas tudo lá custa muito dinheiro. Há muitas pessoas que moram em quartos de motel porque não conseguem pagar renda de casa, outros em tendas, ou nos carros, quando é ilegal ser sem sem-abrigo”.
Inge diz que adora o facto de se poder ter galinhas e patos no quintal e admira o facto de todas as manhãs quando acorda ouvir os patos a grasnar. “Aqui as pessoas cultivam coisas, são flexíveis, deixam-se ir com a corrente. Lá já estávamos reformados mas a diferença é grande entre estar reformado aqui e lá”, conta Inge que revela que aqui também se sentiu posta de parte “por ser diferente, por ser alemã. Noutros países da Europa encontrávamos pessoas com sentimentos anti-alemão. Aqui não encontro isso, as pessoas perguntam mas não ligam ao facto de ser alemã e isso é bom”.

Dar e receber

Com tanto que sentem que receberam, Inge e Roland decidiram começar também a retribuir. Ajudam financeiramente uma associação de apoio aos animais, “estão referenciados no nosso testamento”, e no Natal têm “a tradição” de ajudar famílias carenciadas. “na véspera de Natal levamos três famílias connosco e fazemos grandes compras para as suas necessidades e também algo especial para o Natal. Mas nunca álcool nem cigarros”, explica Inge que conta que “as pessoas ficam muito gratas, nunca vi nada assim”. Roland intervém para dizer que a primeira vez que fizeram tal acção “foi muito emotiva”, quando chegaram a casa de uma mulher com “três filhos e outro que estava na reabilitação, e onde também morava a avó da mulher com 90 anos. Estava tudo muito limpo e os rapazes estavam bem comportados e cordiais, ajudaram a levar as coisas. Quando entrámos a mulher começou a chorar. Acontece sempre, mas aquela foi a primeira vez. Foi muito emotivo”.
Mas Inge queria retribuir mais e como dava aulas de inglês aos filhos dos donos de um alojamento na Caloura, cujos pais são alemães “como eu, queria dar mais e tinha tempo para isso”.
Decidiu dirigir-se à Universidade dos Açores “e disse que queria ajudar, queria dar explicações”, mas a resposta foi negativa apesar de serem explicações gratuitas porque “disseram que assim tirava o dinheiro aos professores que faziam isso”. Dirigiu-se então à Biblioteca e Ponta Delgada e explicou a sua vontade de ensinar conversação em inglês “para os jovens se sentirem mais à vontade com o inglês e poderem praticar. Disse-lhes que fazia isso de forma gratuita e puseram a Morada da Escrita à minha disposição. Arranjei um grupo de jovens e com alguns ainda mantenho contacto. Íamos ao cinema, víamos filmes ingleses sem legendas, saíamos para tomar um café e discutir tudo, tudo mesmo. Foi óptimo”.
Entretanto, como gostava de escrever Inge dedicou-se ao seu blog e ia relatando vivências e paisagens dos Açores que muito agradavam aos internautas. No “Azores Journal” escrevia mensalmente “com fotos os eventos que eu via, sítios onde íamos, pais natais pendurados nas varandas. Ao fim de um ano fui inundada com pessoa de todo o mundo que queriam vir cá conhecer os Açores, e alguns vieram. Houve tantas pessoas nos últimos 12 anos, pessoas até que se mudaram para cá, depois de se reformarem”, explica Inge que conta ainda a história de um jovem da África do Sul que nasceu na Madeira que veio de férias aos Açores com um amigo e a namorada “a quem fez o pedido de casamento nas Sete Cidades e no ano seguinte vieram para casar aqui”.
Mas Inge foi entretanto diagnosticada com fibromialgia “e tive de parar”. Ainda manteve a espécie de newsletter mas em vez de escrever mensalmente fazia um resumo anual das suas vivências nos Açores, até que no ano passado teve de terminar o projecto “porque as dores são muito fortes e os médicos não me deixam ficar mais de meia hora no computador”.

Diferenças de há 12 anos para cá

Inge e Roland ainda se recordam “do charme dos primeiros anos que estivemos cá. Havia carroças pelas ruas, havia burros e o Roland tirou muitas fotografias nessa altura, mas agora já não se vê. Temos o dobro dos carros, ou mais, agora a circular nas estradas e vemos muitas mudanças ao longo destes últimos anos”. No entanto, o casal é unânime em afirmar que “vemos muitas mudanças nestes tempos mas ainda é o melhor lugar para se viver”. Inge continua a afirmar que “este é o sítio mais limpo onde já vivi”, embora reconheça que há algumas coisas que se possam mudar agora que o turismo tem chegado em grande força à Região. “Em alguns locais, como na Caldeira Velha ou na Vista do Rei, talvez as carrinhas de gelados e de comida possam dar um ar de feira ao local. Talvez isso se pudesse resolver com pequenos stands feitos de material tradicional, que combinasse com a natureza e com o que é tipicamente açoriano. Provavelmente seria mais simpático para quem visita”.
Sendo tão activa em termos ambientais nos Estados Unidos, Inge diz que nos Açores não tem conhecimento de grandes atentados ambientais como os que se verificavam do outro lado do Atlântico em que “tivemos um grande derrame de petróleo e comecei um grupo que lutava para se limpar a zona”.
Nos Açores admite que só interviu uma vez em termos ambientais “mas esclareceram-me logo”. Foi quando começaram a cortar árvores de mata na Lagoa de Santiago e junto à Lagoa Verde, nas Sete Cidades. “Fiquei transtornada, escrevi à Direcção Regional das Florestas a dizer que assim ficava terrível e para o turismo não daria a melhor impressão quando se passasse, parecia que um furação tinha passado ali. Recebi uma carta muito simpática a dizer que aquela zona era terreno privado e que havia uma lei que em cada 25 anos permitia aos proprietários cortar, mas tinham de replantar. Para mim, fez sentido essa resposta”, explica ao afirmar que hoje em dia “passamos nas zonas onde foram feitos grandes cortes de árvores e praticamente em três anos já está quase tudo igual, porque foi tudo replantado”.
Inge Perreault volta a referir que “este é o sítio mais limpo em que vivi em toda a minha vida. A maneira como se vê as ruas limpas. Mesmo quando cortam as ervas das bermas de estrada, varrem tudo, colocam num camião e de certeza que vai ser comida para vacas. Aqui nada se desperdiça. Amo isso nos Açores. Os paus que usam para pôr nos tomates, nos feijões verdes, são cortados na beira da estrada ou estão abandonados. Nada se desperdiça. Na América isso não acontece”. E dá alguns exemplos: “costumava limpar as praias lá, tinha de usar luvas, era a única a fazê-lo, todas as semanas o fazia e vinha para casa com um grande saco de lixo. Aqui não se vê. As praias estão bem cuidadas, estão sempre limpas, duches, sanitários, é coisa que não se encontra na América. E aqui as praias são grátis. Na América paga-se para ir à praia e depois paga-se o estacionamento também”, diz em jeito de comparação.
E as comparações com os Estados Unidos não ficam por aqui e Inge vai desfiando situações com as quais não encontra comparação.

Nada de mau a apontar

Por exemplo, e a propósito da sua fibromialgia, qual a opinião sobre o sistema regional de Saúde? “É fantástico” e começa a comparar os 1.300 dólares que paga nos Estados Unidos para manter o seguro da saúde activo “e que não cobre condições pré-existentes, nem metade das coisas que se precisa, nem mesmo o transporte de ambulância e ser transportado numa ambulância lá custa caro. Por isso há mais de 40 milhões de pessoas na América que não têm seguro de saúde nem têm maneira de ter cuidados médicos”.
Nos Açores “os médicos levam o seu tempo e falam realmente connosco. Na América, espera-se 3 horas para se ser atendido, tem de se pagar antecipadamente antes de ver o médico apesar dos 1.300 dólares por mês que pagamos de seguro e a consulta é paga à parte, custa 20 dólares. É muito caro, as pessoas não conseguem pagar, ou têm de comer ou pagar os remédios. A diferença é enorme”, refere ao acrescentar que “estamos muito contentes com o sistema de saúde aqui”.
E até a polícia nos Açores “é muito amigável, são justos, educados e não nos arrastam do carro e nos batem antes de perguntarem o que se passa”. O mesmo se passa com a população, diz.
“Lembro-me da primeira vez que estivemos aqui, o Roland perdeu uma nota de 10 euros na rua. Caiu-lhe do bolso e não notámos. Mas de repente um homem bateu-nos no ombro e devolveu a nota. Isso na América jamais acontecia”, refere.
Noutra situação “estava no centro histórico em Ponta Delgada e comprei um vestido que estava em saldos numa loja. A empregada supostamente esqueceu-se de me fazer o preço do saldo mas eu nem me apercebi. Saí e numa rua mais à frente, a empregada veio a correr ter comigo, para me dar a diferença do dinheiro. Isso não se encontra na América, nem na Alemanha”.
Quando já se encontravam a viver nos Açores “na primeira vez que fomos às Furnas alugámos um carro, fomos pela estrada velha e não sabíamos ir lá ter. Perguntámos a um senhor como se chegava às Furnas. Eu tinha um dicionário comigo mas ele disse que falava inglês e disse que nos levava lá. Que só tinha de apanhar um amigo e fazer um desvio. Na América nunca se pode seguir uma pessoa assim, nem mesmo se fosse polícia”, diz divertida. Mas lá seguiram o homem “que apanhou o tal amigo, que devia ser pescador ou trabalhador, com longo cabelo e longa barba. O Roland perguntou se tinha a certeza que era para os seguirmos mas seguimos. Ele deixou o amigo e mandou-nos segui-lo e levou-nos lá”, conta surpreendida.
Inge conta ainda uma história que se passou numa loja de Água de Pau nos primeiros meses em que viveram na Caloura. “Estava um casal dinamarquês com um bebé pequeno, que estava hospedado no Hotel da Caloura. O casal só tinha uma nota de 100 euros, e compraram fraldas, coisas para o bebé, e quando foram pagar a senhora da loja disse que não tinha troco, mas que podiam ir lá no dia seguinte pagar. O dinamarquês disse que não, e começou a por as coisas no sítio e a mulher não queria aceitar isso, pediu que levassem as coisas e que fossem pagar no dia seguinte. Eu cheguei-me e disse que ela estava a falar a sério, mas para ir mesmo no dia seguinte pagar, porque só assim se continuava a ter tanta confiança nas pessoas Ele ficou de boca aberta. Não sabia o que dizer. Mas no dia seguinte foi lá pagar”, recorda.
Outra situação passou-se em Santa Maria, em 2015, quando foram passar o aniversário de Inge àquela ilha. O dia de aniversário coincidiu com o aniversário da proprietária de hotel e como Inge já estava doente, naquele dia não podia andar e ficou na cama. “No fim do dia a dona do hotel traz-me metade do seu bolo de aniversário. Já não se encontram essas coisas. As pessoas tornaram-se muito solitárias, sem querer saber. Na América não se toma café como se faz aqui, nem se encontram os amigos. Os Açores têm uma cultura muito virada para a família e a América não é assim”, refere.
É por isso que Inge e Roland escolheram os Açores para viver e nem mesmo a língua, 12 anos depois, se pode considerar uma barreira. E Inge, apesar de falar maioritariamente em inglês, vai intercalando com algumas palavras em português. Diz que é assim que vai aprendendo “a sétima língua mais difícil de aprender do mundo em termos gramaticais”. Consegue perceber as palavras graças ao seu passado enquanto tradutora e conhecimentos de francês e italiano, que têm a mesma raiz. “Vou ouvindo e agora, só muito raramente vou ao dicionário procurar uma palavra. Mas leio português fluentemente”, explica ao afirmar que se consegue fazer entender junto dos locais. “Quem não me compreende a falar português são os que falam micaelense cerrado, que comem as vogais” e até diz que já fala “o dialecto” e demonstra com a palavra “vento, que aqui dizem é vent. Se disser assim percebem-me”, explica entre uma sonora gargalhada.
Tudo para se tentar integrar numa comunidade e numa Região que já considera também um pouco sua e de onde já não quer sair e sobre a qual não consegue apontar uma coisa má. Quer dizer, “talvez o barulho das motas quando passam pela rua”, mas isso admite o casal, também já faz parte das vivências de se viver nos Açores.