São recusados e ignorados pela sociedade açoriana, ninguém lhes quer dar trabalho e nem todos são repatriados...

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Nem todas as pessoas que passam por dificuldades nesta vida são indivíduos repatriados que cometeram infracções nos Estados Unidos da América ou no Canadá.
Também existem aquelas pessoas que têm dificuldades de inserção e que também se queixam de discriminação por parte da sociedade.
Os nomes dos nossos entrevistados são fictícios para esconder as verdadeiras identidades.
Paulino disse que pagou pelos seus erros, mas encontra muita porta fechada, quando até tinha esperança de encontrar novos horizontes, num futuro que diz ser “cada mais escuro”, sentindo até pena de muitos repatriados que convive. “A sociedade discrimina-nos e pensam que somos todos iguais ou bandidos. Conheço por aí muitos repatriados que são boas pessoas e são até melhores do que muita gente que por aí anda”.
Este homem diz que “já há muitos roubos”, mas sente que a discriminação vai levar a um aumento da criminalidade.
Paulinho é natural de uma das freguesias limítrofes de Ponta Delgada. Apesar de não ser repatriado também sente falta de apoio. Era ainda uma criança quando perdeu os pais e não tem mais nenhum familiar em São Miguel.
Recebe o Rendimento de Reinserção Social de 180 euros, mas entrega 80 euros para pagar um quarto.
É ainda apoiado pelo Novo Dia, Associação para a Inclusão Social, que lhe dá 25 euros de quinze em quinze dias, que diz “servirem para compras”.
“Do Novo Dia só posso falar bem, mas não tenho mais nenhum apoio e ninguém me dá trabalho”, lamenta., para acrescentar que “com os meus pais nunca passei fome, mas agora tudo é diferente, para pior. Não tenho ninguém, nem tios e nem primos”.
“Aqui tratam-me com desprezo”

Por outro lado, também é verdade que muitos cidadãos que optam por sair da Região para fugir ao estigma de serem repatriados.
Não é o caso que se segue, já que ontem encontramos um cidadão que foi deportado de um dos países da União Europeia. Cumpriu quatro anos de prisão e confrontando com a possibilidade de vir a cumprir mais cinco anos para poder ficar a residir no país onde tinha cometido um delito preferiu regressar a São Miguel.
Questionado se foi maltratado no país que o acolheu, Anselmo foi peremptório: “Nunca. Bem antes pelo contrário sempre fui muito bem tratado e todos gostavam de mim mesmo na prisão. Aqui não, tratam-me com desprezo e nem connosco querem falar”.
Anselmo foi tentar a sua sorte noutro país em 2009, mas passados quatro anos regressou a São Miguel. Recebe uma reforma por invalidez de 240 euros mensais. Deste valor, paga 150 euros de renda de um quarto desembolsando ainda 20 euros para uma botija de gás. Sobram 70 Euros para comida e vestuário.
Já foi pedir uma ajuda extra à Segurança Social mas a resposta foi negativa. “Dizem que já ganho o suficiente para fazer face aos gastos que tenho, mas não chega”.
Na casa onde reside moram lá 10 pessoas que diz que mais “parece uma prisão”. A casa de banho é comum assim como a cozinha. “Não posso guardar nada no frigorífico porque fico sem nada e depois não foi ninguém”.
“Todos viram-me as costas e tem por aí muitos rapazes novos perdidos na droga, por causa desta indiferença. Quem tem padrinhos é que se baptiza. Como não tenho nenhum padrinho, é isto. E vamos andando assim, dia após dia”.