AçoresMel inaugura na Primavera produção de geleia real para venda em farmácias

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Já a partir da próxima Primavera, a empresa AçoresMel espera ter reunidas todas as condições para produzir geleia real na ilha de São Miguel, com vista à sua respectiva comercialização nas farmácias locais, procurando assim colmatar a inexistência de produção deste produto nos Açores, fabricado pelas jovens abelhas operárias nos primeiros dias das suas vidas e destinado a alimentar a abelha rainha da colónia para que esta mantenha a fertilidade e viva durante mais tempo.
De acordo com José Gomes, a empresa açoriana dedicada ao mel está já “munida de todo o equipamento necessário para iniciar na Primavera de 2019 a produção de geleia real”, pretendendo avançar em seguida para a sua comercialização nas farmácias locais por ser uma substância com características energéticas e de anti-envelhecimento, tal como o pólen, substância que têm também produzido nos últimos dois anos.
Segundo o proprietário desta empresa, constituída em 2017 tanto “pela necessidade de criar uma empresa privada que se dedicasse à produção de mel (…) como para conseguir uma maior dimensão para exportação” dos seus produtos, o objectivo é o de vender este produto natural “no seu estado puro, e não para a sua transformação ou para que seja adicionado a outros produtos que o tornem numa cápsula ou comprimido”, considerando-se que esta geleia poderá ser consumida em pequenas quantidades e ser assim absorvida pelo organismo.
De acordo com o empresário, um dos objectivos deste investimento passa também por poder, futuramente, cativar outros mercados que usufruam também deste produto consoante aquilo que for possível produzir ao longo do tempo, uma vez que nos Açores não existe actualmente produção de geleia real, e pelo facto de a maior parte deste produto que existe à venda em Portugal ser “oriundo da China e ter muito pouca qualidade”.
Assim, para além do trabalho de divulgação e sensibilização que a AçoresMel terá que fazer em relação ao seu produto, embora José Gomes considere que “a população está sensibilizada em relação aos benefícios desta geleia, este é um projecto que requer “um trabalho enorme”, sendo que “o processo da produção de geleia é praticamente igual ao processo de construção de uma abelha rainha”.
Para isso, é necessário colocar as abelhas mais jovens encarregues desta tarefa, uma vez que só elas têm a capacidade de produzir o alimento das abelhas rainhas através de “métodos que dão imenso trabalho”, já que esta geleia é produzida em pequenas quantidades, que obrigam a que sejam colocadas bastantes colmeias em simultâneo a produzir a substância. No entanto, José Gomes considera que este é um processo que, “para além de trabalhoso, é também muito cativante”, uma vez que envolve várias etapas que classifica como desafiantes, incluindo “o trabalhar com larvas muito pequenas e que têm até três dias de vida”.
A geleia real irá então aliar-se aos restantes produtos da empresa AçoresMel, nomeadamente ao pólen que é produzido desde há dois anos, embora com uma produção mais reduzida devido às alterações climáticas, e às três variantes de mel: mel de incenso, mel de trevo e o multiflora, “composto por pólen de variadíssimas flores tornando-o no mel mais completo”, aponta José Gomes, indicando ainda que estes são produtos 100% biológicos.
Estes produtos podem ser encontrados não só nos mercados locais, mas também no mercado nacional, incluindo na Loja Açores, no Porto e em Lisboa e ainda no mercado internacional, sendo comercializado ainda por pequenas lojas direccionadas para a venda de produtos biológicos tanto em Frankfurt, na Alemanha, como em Toulouse, na França, marcando a tendência do aumento da procura de produtos biológicos.
Para além daquilo que é produzido pelas abelhas, como o mel, a geleia real ou a cera de abelha, e tendo em conta o “franco crescimento” de que a Açoresmel tem beneficiado, a empresa tem-se dedicado também à produção de enxames. Neste sentido, para José Gomes, a exportação de abelhas é vista como “uma mais-valia, já que existe um mercado com bastante procura não só a nível nacional como internacional”, acreditando por isso que “num futuro próximo se possam criar condições que permitam a exportação não só de colónias mas também de abelhas rainhas”.
No entanto, mesmo com o crescimento do negócio, José Gomes adianta que a qualidade e o selo biológico atribuído ao mel nunca serão postos em causa, ao contrário do que acontece noutras partes do globo onde este produto é alterado através da adição de açúcares e da mistura com outros méis menos ricos, por exemplo. “Isto nunca vai acontecer na apicultura (nos Açores) porque esta é feita de modo natural, o mel é enfrascado da mesma forma que sai das colmeias, não passa por nenhum outro processo que o possa alterar”.
Actualmente, a empresa de apicultura de José Gomes funciona com os esforços das abelhas que povoam as perto de 300 colmeias espalhadas um pouco por toda a ilha de São Miguel, mas com especial concentração na zona do Nordeste, tendo começado por ingressar nesta ocupação com apenas 19 colónias que comprou ali mesmo, na vila do Nordeste, há cerca de dez anos, quando começou a despertar interesse por esta actividade.
Apesar desta concentração de colónias naquele concelho, José Gomes afirma que a localização da colmeia não interfere com a qualidade do mel. “O mel é todo bom e varia apenas consoante as flores. A única diferença é que no Nordeste, no que diz respeito ao mel de incenso, consigo mais pureza no pólen que é extraído dessa planta, porque em pleno Inverno não existem mais plantas nenhumas, e como ali existem áreas maiores com esta flor consigo também uma maior pureza no seu pólen”.
Para José Gomes, os Açores são ainda “um paraíso” no que diz respeito à qualidade das abelhas, afirmando também que em relação ao número de abelhas com que lida diariamente tudo parece estar bem. “No que toca às abelhas nós estamos bem. Pelo menos por enquanto não temos doenças graves nas nossas abelhas, e somos das poucas zonas no globo assim. Isso leva a que não tenhamos que fazer tratamentos que são realizados com químicos e que se reflectem no produto final, nomeadamente o mel”.
Uma das preocupações actuais dos apicultores passa também por, afirma José Gomes, “dar alguma formação nas camadas jovens relativamente à iniciação na apicultura, também para que se possa fazer a renovação dos apicultores que já têm uma certa idade, o que fez com que tenha existido uma diminuição deste tipo de campanhas”. No entanto, desde que se envolveu seriamente nesta área de negócio, o empresário afirma ver “uma maior afluência de jovens apicultores”, o que poderá no futuro contribuir para a renovação destes produtores.
Contudo, José Gomes alerta os novos apicultores para a importância de não fazerem importação de animais vivos nem de produtos de alimentação artificial para as abelhas, “porque isso pode trazer doenças e nós temos toda a vantagem de não as termos nas nossas abelhas. Somos das poucas zonas do mundo isentas de doenças nas abelhas e por enquanto vivemos no paraíso no que toca à apicultura”.
De acordo com o empresário, os apicultores açorianos têm desde já “uma abelha excelente que vive aqui há 500 anos e que já está adaptada ao nosso clima, por isso só há vantagens em trabalhar com a nossa abelha”, e arriscar trazer uma doença para as colónias de abelhas nos Açores e também assumir riscos na prosperidade destas espécies.
“As doenças que se podem desenvolver nas colmeias destroem praticamente toda a criação e são doenças muito difíceis de erradicar. Mesmo que se queime as colmeias elas ficam na terra durante um máximo de cinco anos e aquele sítio fica interdito durante este espaço de tempo”, explica o empresário.