Os desprezados

1- O jornal Correio dos Açores abriu a sua edição do dia 2 de Outubro titulando o seguinte: “Aqui na Ilha tratam-nos com desprezo”.
2- Tal frase foi proferida por um entrevistado que parece bradar ante uma sociedade indiferente e desumanizada, como que fazendo um apelo em nome de muitos que deambulam pelas ruas das cidades desencontrados de si mesmo.
3- São pessoas sem nome e sem rosto perante a colectividade que os acolhe e fazem do ócio profissão, cultivando, por isso, o sentimento de que são tratados na ilha com desprezo.
4- Recebem apoios oficiais que não chegam para viver, mas com os quais têm de sobreviver.
5- Além de tudo, falta-lhes o bem imprescindível que alimenta a esperança que é o calor humano porque, regra geral, não têm família, ou ela está lá longe, no país que os mandou embora, alguns por terem praticado delitos de bagatela.
6- Essas pessoas são migrantes/repatriados que nos Açores formam uma comunidade disforme, desligada da sociedade, e da qual se deixou de falar, porque as futilidades do dia-a-dia preenchem o social e consomem o tempo sobrante com a intriga barata, ficando sem espaço para que se fale de coisas sérias.
7- O provérbio chinês diz: “Não dê o peixe, ensine a pescar”, e a pergunta que se coloca é saber se essa comunidade de migrantes/repatriados não precisa de ser auto responsabilizada, criando-se para o efeito um programa integrado de formação profissional de média duração, sobretudo virado para tarefas do sector primário.
8- Finda a formação, e de acordo com o aproveitamento de cada um, o programa teria de aproveitar os novos formados para os colocar nos vários trabalhos públicos de limpeza, conservação e ajardinamento das vias regionais e municipais, mantendo-se e até melhorando em função do comportamento e do rendimento do trabalho, os valores dos apoios sociais.
9- Se assim não for, os repatriados continuarão a sentir-se desprezados, e o único caminho que encontram, levá-los-á a engrossar a comunidade dos delinquentes e dos viciados nas dependências.
10- A delinquência é um problema sério que deve ser preventivamente tratado, começando por ter-se em conta o alerta deixado pelos agentes de segurança quando, ao reclamarem numa acção reivindicativa por melhores condições para a profissão, exprimiram o sentimento de “impotência” que sentem para cumprirem a sua missão nos Açores, por falta de meios humanos e de transportes da corporação na Região.
11- Muitas são as denúncias e os protestos que conhecemos dando conta da falta de resposta pronta das forças de segurança quando chamadas a intervir. Ficamos agora a saber que falta de pronta resposta por parte das polícias se deve à patenteada falta de meios capazes para acudir prontamente à chamada.
12- A segurança é uma obrigação do Estado, mas a Região, além do esforço e do apoio que tem prestado à PSP, precisa de reclamar do poder central meios humanos suficientes e equipamentos que permitam às forças de segurança cumprir com eficiência o trabalho de prevenção e combate à criminalidade, que é maior do que aquela que é comunicada às autoridades.
13- A segurança continua a dar que falar desde o dia em que foram roubadas em Tancos as armas militares que o Ministro da Defesa dizia nem saber se existiam.
14- Apareceram a 18 de Outubro de 2017, como que por obra e graça do Espírito Santo.
15- A forma como agiu a Polícia Judiciária Militar remete-nos para o tempo da guerra colonial, pois primeiro que tudo estava o interesse do País.
16- O sentido de hierarquia das Forças Armadas leva-nos a acreditar que tudo isso foi comunicado aos superiores onde se inclui o Ministro da Defesa.
17- Só uma forte “irmandade” consegue segurar no lugar o Ministro que em qualquer outro país já teria posto o lugar à disposição, ou teria de demitir-se sem mais.