Aliviar encargos das famílias e empresas com o IMI

Proposta de José Contente, candidato do PS/A à Câmara de Ponta Delgada

O candidato do PS/Açores à Câmara de Ponta Delgada apresentou ontem um conjunto de propostas que visam a revisão das taxas do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), de forma a "aliviar as famílias e as empresas do esforço penalizador que fazem agora após a reavaliação dos imóveis".

Em conferência de Imprensa, José Contente anunciou a redução faseada, num espaço temporal de 4 anos, da taxa mínima de IMI dos actuais 0,35 para 0,30 e o alargamento, dos actuais 5 para 7 anos, da isenção de IMI para quem integra o programa Reviva, de forma a tornar mais atractivo o investimento na reabilitação.

Para além destas alterações, o candidato socialista anunciou ainda a intenção de aumentar de 30 para 50%, a redução de IMI, para os edifícios conservados e habitados que se destinem ao arrendamento.

Por outro lado, José Contente propõe ainda que, no caso dos edifícios habitados sem conservação, onde a lei prevê um agravamento de até 30% do IMI, passe a ser efectuada uma avaliação prévia, para perceber se nestes prédios vivem famílias com baixos rendimentos, o que fará com que a Câmara apoie a necessária conservação.

Noutra frente, o candidato socialista à maior autarquia açoriana quer isentar, fora do horário de funcionamento do comércio, os lugares de estacionamento para as empresas do Centro Histórico, que actualmente pagam 877 euros por ano por um aluguer.

Assim, no dia de aniversário da cidade de Ponta Delgada, José Contente salientou que "a intervenção do município deverá ter como objectivo estimular o investimento de outros agentes públicos e privados em projectos de reabilitação urbana e do edificado" e ainda "de revitalização de funções sociais, culturais, económicas e residenciais. Nesta dimensão assume prioridade a Reabilitação do Centro Histórico".

Garantindo que, caso tenha a confiança dos munícipes de Ponta Delgada, irá "afirmar e defender sem rodeios e sem acanhamentos o prestígio de Ponta Delgada no todo regional", o candidato socialista assegurou ainda que "a revitalização económica e social centrada em sectores baseados no conhecimento e criatividade e a inovação (tecnológica) ao nível da reabilitação do edificado e das infraestruturas e serviços urbanos, são duas premissas essências para fomentar a reabilitação do Centro de Ponta Delgada".

Para José Contente, se muito se tem falado, discutido e diagnosticado, em termos de reabilitação dos centros históricos, agora "é tempo de acção", sendo necessário "criar planos de salvaguarda de espaços históricos e culturais", e dar vida ao centro histórico, através da criação de condições para que seja possível "fixar maior número de pessoas no coração da cidade, sobretudo jovens".

 

Dj Ecs vem actuar na Lagoa

O natal e o final do ano estão à porta e estas comemorações começam a movimentar a sua preparação, mormente com animação própria desta quadra, com eventos apelativos, para que os açorianos possam celebrar com alegria a entrada num novo ano em reveillons extraordinários.
Por outro lado, a aposta em nomes sonantes do panorama musical português, no intuito de cativar foliões para a grande noite da passagem do ano, onde a oferta é mais do que muita, é determinante para o sucesso comercial dos organizadores dos espectáculos e bailes que perduram pela madrugada.
A reserva e venda de bilhetes está em curso e o Coliseu Micaelense ou mesmo o sofisticado Clube Micaelense, como é tradição, constituem o auge, onde os foliões se concentram numa animada noitada, imperando a descontracção e convívio, sobretudo entre os mais novos, já que os pais se juntam em ambientes familiares com menos agitação e ruído.
Mas os espaços nocturnos das nossas cidades e vilas também se preparam para oferecer aos convivas um reveillon de qualidade, com artistas e djs de renome, como forma de atrair clientes e brindá-los com uma animação condigna. De acordo com uma nota divulgada, virá a S. Miguel o Dj Ecs, actualmente um dos nomes em ascensão e mais badalados, para animar o conhecido espaço Montemira, na Lagoa, que assim aposta no autor do hit “vou-te seguir”, em voga.
Trata-se de um nome na afro dance da cena portuguesa, considerado por muitos como um dos melhores da nova geração, e membro da Ondeando e que rapidamente se destacou no mundo da música.
Ecs é apontado por artistas conhecidos como Anselmo Ralph, CHUS & CEBALLOS, Angélico Vieira, Nelson Freitas, Guettozoukmusic, Loony Johnson, Kayha, Denisgraça, Massivedrum, Bill Famil, Mika Mendes, Pete Thazouk, Carlos Manaça, entre outros, nomes com quem teve, não só a oportunidade de tocar, como efectuar trabalhos a nível de produção.
Este Dj já passou por clubes famosos como 7ª Art, W Disco, Queen’s, Luanda/Khaombo, Pessidonio, Clube 8, Império Romano, Buddha Club, VCI, Café del Rio, e tem actuado em vários países como França, Holanda, Inglaterra e Suíça. Actualmente, é residente na discoteca Ondeando e iniciou o projecto “Guetto Class Studio”, que se destaca pelo seu conteúdo dinâmico e inovador do quotidiano cultural e social.
Seguramente, outros nomes do mundo da música começarão a ser divulgados para que o reveillon nestas ilhas continue a ser um acontecimento onde os açorianos possam dar largas à sua alegria, já que o resto do ano as agruras da crise invadem a vida da maioria das pessoas. APC

Sofia Ribeiro pede à Comissão pacote de mobilidade laboral mais justo

A eurodeputada Sofia Ribeiro interveio, esta Terça-feira, na sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, alertando para a importância de tornar a mobilidade laboral na União Europeia num “processo mais justo e de garantir que os trabalhadores em mobilidade da UE não sofrem de abusos”.
Num momento em que a Comissão Europeia tem em cima da mesa o importante pacote de mobilidade, Sofia Ribeiro afirmou, perante a Comissária responsável pela pasta do Emprego e Assuntos Sociais, Marianne Thyssen, que “a mobilidade de trabalhadores no espaço europeu assume, neste momento, um papel fundamental: é desafio e solução. Desafio, por ser um dos elementos-chave para que se cumpra um dos verdadeiros propósitos desta Europa dos cidadãos, numa Europa sem fronteiras. E solução, por constituir uma resposta aos ainda elevados níveis de desemprego, desemprego jovem, desemprego de longa-duração e aos problemas laborais, de protecção social e de competitividade colocados pelo envelhecimento da nossa população”.
A eurodeputada deixou claro que “não podemos ficar retidos nas dificuldades, nem ceder a quaisquer formas de pressão, por aqueles cujo único intuito é destruir a união na nossa Europa ou que lhe atribuem as responsabilidades pelo seu fracasso na governação nacional”, referindo-se aos movimentos nacionalistas e eurocépticos a emergir na Europa. “É, por isso, urgente que sejamos capazes de lançar um pacote de mobilidade laboral eficaz, que assegure aos trabalhadores em mobilidade os mais fundamentais direitos laborais. É necessário assegurar-lhes condições de trabalho condignas, garantir que tenham acesso ao acompanhamento na saúde e a sistemas de protecção social dos Estados-Membros que os acolhem, bem como, que no futuro, as suas pensões reflictam todos os esforços de uma vida”, acrescentou Sofia Ribeiro.
A eurodeputada alertou ainda a Comissária para as reformas a implementar a nível nacional numa fase de implementação deste pacote “são necessárias reformas da legislação laboral de forma a garantir estes direitos, é necessário articular este pacote com as competências exclusivas dos Estados-Membros”, questionando Marianne Thyssen, no fim da sua intervenção, sobre como tenciona por em prática esta articulação.

Projecto “Desperdício Zero” na Fajã de Baixo avança

A Câmara Municipal de Ponta Delgada inaugurou, ontem, as instalações do Projeto “Desperdício Zero”, na Fajã de Baixo. Durante a cerimónia de inauguração, José Manuel Bolieiro, Presidente da Câmara de Ponta Delgada, afirmou que com este projecto “queremos cultivar uma nova mentalidade de aproveitamento do desperdício”. Leonor Anahory agradeceu à Câmara Municipal de Ponta Delgada por ter disponibilizado e reabilitado este espaço, que agora acolhe este nobre projecto que terá início em Janeiro e é gerido pela ASS- Associação de Seniores de S. Miguel e coordenado por Isabel Cássio. Isabel Cássio também aproveitou o momento para apelar à “integração de mais doadores de excedentes e voluntários para este projecto”. A inauguração deste espaço, que servirá para o armazenamento e recondicionamento de alimentos recolhidos, surge no âmbito do protocolo de colaboração assinado entre a Câmara de Ponta Delgada e a Dariacordar – Associação para a Recuperação do Desperdício. No fundo, este projeto visa o combate ao desperdício na alimentação e a consequente ajuda a famílias carenciadas, numa primeira fase, das freguesias de São Roque e São Pedro.

A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida - que é não ser apagada de todo pela morte

Antigamente os serões eram passados a amarrar o milho, onde se comia castanhas ou milho cozido e se contavam histórias. Eram “tempos mais divertidos, ao contrário de agora”, confessam António Arruda e José Cabral que admitem que se ia ajudar os vizinhos “a troca de um cestinho de carrilhos” que se levavam depois para casa para fazer o lume. António e José ainda se lembram de quando iam buscar lenha para a rocha das Sete Cidades para que em casa se pudesse fazer a comida no lume

José Cabral e António Arruda estão sentados à beira da estrada a olhar os poucos carros que a meio da tarde passam nos Remédios de Ponta Delgada. António, de 74 anos, confessa que é natural de Santo António mas há cerca de 50 anos que vive nos Remédios, enquanto José, de 79 anos, nasceu ali e sempre ali viveu.
José nunca foi à escola. Começou a trabalhar com 12 anos “por causa da vida de casa, íamos para uns e para outros, cavar com o sacho. Depois fui para lavrador, tratar de vacas do meu padrinho e foi sempre assim”. Naquele tempo, confessa, “era pés para o chão, não havia roupas de água nem botas de cano. Era só uma saquinha de lona a servir de capuz para guardar a água. Ia trabalhar de noite e de dia cheio de lameiro”. Conforme a distância a que estavam os animais, tinha de se levantar “pelas 2 ou 3 da manhã se fosse para ir para o Pico da Cruz mas se estavam mais perto levantava-me pelas 5h00 ou 5h30, admite.
Já António tem a 4ª classe, mas mesmo durante as férias da escola sempre trabalhou “a acarretar leiva à giga, debaixo de água e tudo”, e assim continuou durante uns anos até que acabou por ser coveiro na freguesia durante 21 anos.
Durante os anos em que trabalhava a terra, António Arruda admite que a maior parte das vezes comia-se “um pão grande com um litro de leite e pimenta da terra” e se por vezes sobrava “uma nisca, trazíamos à noite para baixo e íamos comendo com favas verdes que são docinhas”, e que eram apanhadas nos campos que encontravam pelo caminho de regresso a casa. “E sabiam mais do que hoje em dia guisadas”, confessa. José acrescenta que “naquele tempo era muita fominha” que se passava.
António Arruda aponta em direcção ao mar e recorda que as terras que hoje em dia se encontram com pastos “era tudo trigo, favas, beterraba, milho e quando era para apanhar o milho carregava-se aqueles grandes lençóis de milho às costas até à noite”. José acrescenta que “carregava-se com o milho e às vezes vinham misturados com bogangos e quando calhava um bogango no pescoço era maduro porque o caminho era longe”, recorda.
Antigamente tudo se carregava às costas, contam, fosse o milho, fosse o tabaco “que se trazia para o caminho desde a rocha. Acabava-se de se acarretar os milheiros e tinha de se amarrar aqui em cima”, no caminho. “Agora, quem me dera ter saúde”, suspiram os dois.
À noite, recordam os serões para amarrar o milho “com mulheres, raparigas e homens” e onde os namoros “eram a eito”, recordam entre sorrisos. Tempos “mais divertidos, ao contrário de agora”, concordam ambos. No fim do serão “comia-se castanhas ou milho cozido e diziam-se histórias uns aos outros. Era tudo em família e passava-se assim o tempo”, refere António e José acrescenta que “fazia-se serões a debulhar à noite por causa de um cestinho de carrilhos que se levava para casa para fazer o lume. Não havia dinheiro”.
António Arruda recorda que antigamente se ia dos Remédios “buscar lenha à rocha das Sete Cidades para trazer para casa para fazer a comida” no lume. Além da lenha traziam também, às costas, “tocas de cana” que iam encontrando pelas terras. “Era tudo aproveitado”, dizem.
António ainda se lembra que “muitas vezes cheguei a cavar um alqueire de terra de milheiros para dar um carro de esterco”, que ia recolhendo pelas ruas e canadas e levava para casa assim como as folhas de árvores que iam caindo pelos caminhos. “Levávamos para casa para fazer p esterco que depois era usado nas terras e quem não tinha terra vendia depois”, como era o seu caso em que “davam um alqueire de terra de milheiros, em que tinha de amarrar os milheiros para trazer para a minha casa e dava-lhe o esterco. 32 cestos dos grandes davam um carro de esterco para semear a novidade”, recorda.
A água que se usava em casa ia-se buscar às fontes e António Arruda confessa que “eu, casado de novo, tive dias que não dormi com a mulher. Porque ela levantava-se à noitinha para ir esperar pela vez para apanhar uma pinga de água para voltar de manhã para casa. Para lavar a roupa. Se alguém tirava a vez, eram guerras”, recorda.
O dinheiro era pouco, concordam os dois que ainda se lembram que uma nota de 500 escudos “guardava-se para não se trocar, mas aqueles 500 escudos rendiam e agora 250 euros não dá nada”, admitem. António dá o exemplo dos chicharros que se vendiam antigamente. “Os chicharros eram a cem escudos, perguntávamos logo se não fazia a 50 escudos. Hoje em dia o chicharro é a 2,50 euros o que corresponde a 500 escudos. O euro dobrou o triplo”, refere e garante no entanto que “enquanto houver a reforma está bom”.
Isto porque quando retiram do pouco que recebem “300 euros por mês para viver e para os remédios”, refere José, pouco mais fica. “Antigamente passava-se necessidades mas vivia-se melhor, não se pagava luz, água e não se pagava nada. Agora, do pouco que se ganha tem de se tirar para tudo”, conclui António Arruda. 

“Fui trabalhar para uma casa em Rabo de Peixe e só vinha de ano a ano a casa”

Escolástica Raposo tem actualmente 71 anos mas recorda-se que sempre trabalhou na terra para ajudar os pais enquanto estava na escola. Depois de terminar a 3ª classe, com 10 anos, foi “para casa de uma senhora trabalhar para uma casa com 10 pessoas. Estive lá durante três anos e depois vim para casa”. O pai fazia terras e por isso passou a ir ajudá-lo “mas não era com o sacho porque nunca soube trabalhar com o sacho”, refere. Por isso “trabalhava com as mãos, ajudávamos assim” a fazer terras de trigo, milho, tremoço, favas para pagar a renda das terras e “como não comíamos tudo, vendia-se o resto para ajuda das despesas”.
Comia-se tudo o que a terra dava “não é como hoje que se comem hambúrgueres e salsichas, que para mim são porcarias”, admite ao acrescentar que em sua casa comia-se “um dia favas, no outro dia feijão, a minha mãe cozia quase sempre duas vezes pão por semana, pão de milho”.
Escolástica Raposo aponta para um molho de folhas de milho que tem na garagem onde está e afirma que “com as folhas de milho fazíamos tranças que depois serviam para fazer chapéus, malas, que ainda hoje em dia há na Madeira. Aqui fazia-se muitas mas hoje já não faço nada disso”.
No tempo, refere, “não havia dinheiro” e ainda se recorda do dia em que a professora lhe disse que “tínhamos de pagar a caixa mas nem isso a minha mãe tinha para dar”. Por isso recorda-se que foi “à cerca das galinhas” buscar um ovo para ir vender para poder dar o dinheiro à professora. Mas, Escolástica andou pouco tempo com o ovo que deixou cair e se partiu “e nem a minha mãe ficou com o ovo nem tive dinheiro para pagar a caixa à professora”, diz entre sorrisos.
Entretanto o tempo foi passando e “fomos trabalhar para sustentar os pais em casa. Não é como hoje, que é tudo para elas quando começam a trabalhar”, refere. Foi, juntamente com uma irmã, trabalhar para uma casa em Rabo de Peixe onde havia “um casal que era um professor e uma professora, e a senhora que era a proprietária da casa. A senhora casou-se, teve meninos e precisava de duas mulheres, uma para a limpeza da casa e outra só para tomar conta dos meninos”. Escolástica revela que só se deslocava de Rabo de Peixe aos Remédios uma vez por ano para passar a festa da sua freguesia. No entanto era a mãe que “chegava-se ao fim do mês e já estava lá no dia para ir buscar o troquinho e ficávamos na mesma”. Certa vez, recorda para ilustrar a distância a que ficavam as duas freguesias, veio com a irmã passar as festas aos Remédios e “fomos andando e andando e chegámos a Rabo de Peixe a pé porque nunca houve transporte. Havia camionetas daqui para Ponta Delgada mas fomos pelas Calhetas e chegámos lá a pé. Foi terrível”, admite.
Naquele tempo criou os três filhos da família, mas a irmã conheceu um rapaz do Pico da Pedra e começou um namoro de janela que não era bem visto pelos patrões. Certo dia houve até “um cumprimento, um aperto de mão” e os patrões vieram transmitir aos pais das duas irmãs o sucedido e começou a gerar-se algum mal-estar. “Um dia disseram-me que a minha irmã já estava comprometida de mão, que já dava apertos de mão ao noivo” e nesse mesmo dia Escolástica decidiu vir-se embora. “A minha irmã não gostou muito porque o noivo era do Pico da Pedra e já era tarde”, mas acabou por pedir “uma saca à vizinha” que encheram com a sua roupa e apanharam uma camioneta para Ponta Delgada e uma outra para a Bretanha. “Chegámos a casa de noite porque já era 7h30 e era meio Inverno” mas tudo se resolveu e a irmã acabou por casar com o noivo e emigrou para o Canadá.
Escolástica Raposo recorda que naquele tempo “estar comprometida de mão” era quase uma afronta e compara com os tempos de hoje em que “hoje vêem-se crianças com 13 anos agarradas umas às outras. É um escândalo, uma patifaria”, refere.
Escolástica Raposo admite que os tempos hoje em dia estão muito mudados e por isso refere que “apesar das dificuldades, vivia-se melhor antigamente, as pessoas eram mais amigas até”, conclui. 

“Cheguei a ir a pé para o Santo Cristo e íamos tão contentes nessa caminhada”

Maria Isabel Costa e Evangelina Gonçalves estão à conversa. A primeira na rua, junto ao muro de casa da segunda, que está à janela. Com 65 anos, Maria Isabel Costa diz que o que se comia mais na sua casa era “açorda arrebitada”, ou seja, “água fervida com salsa, cebola, alho e migava-se pão de milho para dentro para comermos”, refere.
Havia também sopa “sem manteiga nem nada, era uma sopa deslavada. Batatas cozidas com cebolada e era assim. Passava-se muita fome”, salienta Maria Isabel Costa e Evangelina Gonçalves que se encontra à janela confirma.
Maria Isabel conta que a mãe dava dias “para um lado e para o outro” e quando chegava a casa trazia sempre alguma coisa que lhe davam nas casas onde trabalhava. “Quando chegava a casa já estávamos à espera dela como quem esperava por Nosso Senhor. Parecia que era Nosso Senhor que entrava pela porta dentro, porque estávamos cheios de fome”, lembra.
Apesar das dificuldades e de serem seis pessoas em casa (três filhas, um filho juntamente com pai e mãe), as raparigas nunca trabalharam fora de casa e por isso lamenta porque “agora não tenho reforma minha tenho do meu marido que já faleceu”. Entretanto o pai faleceu novo e o irmão é que ficou a trabalhar nas terras para ajudar a família e mais tarde foi mestre.
Maria Isabel lembra que a família só tinha um pequeno quintal junto de casa e por isso pouco ou nada lá se plantava, mas quando um tio foi para o Canadá e deixou o pai cultivar algumas das suas terras “é que tivemos mais fartura, mas nessa altura eu já estava casada”.
Nos tempos em que ainda vivia em casa dos pais, Maria Isabel Costa recorda que nos Remédios “era tudo terreiro e não havia carros, só mais tarde é que apareceram mas era raro passar aqui algum”. As idas a Ponta Delgada eram praticamente para as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e tinha de se fazer o percurso a pé. “Eu cheguei a ir a pé para o Santo Cristo e íamos tão contentes a pé nessa caminhada. Vínhamos no mesmo dia para cima”, comenta Maria Isabel e Evangelina Gonçalves complementa que “também cheguei a ir muitas vezes” a pé para as festas do Senhor Santo Cristo porque não havia camionetas.
Antigamente havia muitas dificuldades e chegou a passar-se fome, concordam ambas, que admitem que actualmente “vive-se mais ou menos porque a reforma não é muito grande”, lamenta Maria Isabel Costa. Completa que recebe 200 e poucos euros por mês que têm de chegar “para remédios, luz, água, telefone e comida. É pouco mas temos de nos amanhar porque não há mais”, salienta.
Maria Isabel Costa lamenta que não tenha trabalhado durante toda a sua vida porque agora “fiquei só a receber isso porque o meu marido morreu”. A idade também já não lhe permite trabalhar o quintal que agora é cultivado pelo filho “e daquilo que faz, ele dá-me uma coisinha”, refere.