Os materiais regionais como revestimento
- Categoria: Opinião
- Criado em 21-05-2013
- Escrito por Luís Leite
Desde sempre que a arquitectura praticada numa determinada região sofre a influência directa dos materiais localmente disponíveis e, nesse aspecto, o nosso Arquipélago não é diferente. O contacto sensorial com os materiais ocorre ao nível das superfícies e do seu acabamento. Nesse sentido, pretendem-se tecer algumas considerações sobre as aplicações de revestimento existentes com base em materiais endógenos.
Os materiais utilizados na construção até ao século XX cingiram-se praticamente ao aproveitamento dos recursos naturais existentes, que consistiam na madeira, na pedra, em argilas pobres, escórias e tufos locais, limitando-se a importação a materiais específicos como a cal e a argila. Ao longo do século XX, foram surgindo novos materiais e processos construtivos, tendo-se assistido a uma progressiva utilização de materiais e processos importados, destacando-se claramente, e de uma forma generalizada a nível mundial, o cimento e o betão. Este contexto levou ao desuso, não só de alguns materiais tradicionais, como também de algumas lógicas inerentes aos processos construtivos e às regras das boas práticas.
Dos recursos locais, a madeira era utilizada em elementos estruturais e em revestimentos de edifícios, recorrendo a madeiras locais como a acácia, a faia, o cedro, o castanho e, mais recentemente, a criptoméria, num contexto em que as madeiras importadas eram utilizadas a título excepcional. A madeira é um material natural e versátil que pode ser utilizado como elemento estrutural e como revestimento, tanto em aplicações interiores como exteriores, podendo ter inúmeros acabamentos e, facto importante nos Açores, podendo contribuir para o controlo higroscópico do ambiente interior dos edifícios.
Os recursos litológicos eram, e em alguns casos ainda são, utilizados em cantarias, pavimentos, fabrico de telhas, agregados de betão, argamassas e estatuária. Salienta-se a utilização de pedra na erecção de muros em geral, destacando-se os muros de pedra solta para delimitação de pastagens e terrenos agrícolas que constituem, ainda hoje, um elemento forte da paisagem construída açoriana.
A construção em alvenaria de pedra vulcânica, que caracteriza a arquitectura açoriana, é um acabamento frequente e valorizado pela maioria dos arquitectos. Em edifícios antigos e de construção tradicional a cantaria e o aparelho da pedra são mantidos à vista. Neste aspecto, salienta-se que nem todos os tipos de pedra e de aparelho devem ser deixados desprotegidos, sendo esta uma área de possível investigação e desenvolvimento. A pedra é hoje amplamente utilizada, porém já não cumprindo funções estruturais, mas como revestimento e em diversas aplicações decorativas. Em novas construções são frequentemente aplicadas “forras” de pedra às paredes de betão, e surgiram novos acabamentos, fruto da evolução das técnicas, como a pedra serrada ou polida para revestimentos de paredes, pavimentos ou remates de edifícios. Neste campo refere-se que há um caminho a explorar em termos de métodos de fixação e ancoragem dos revestimentos de pedra, assim como das possibilidades do seu tratamento superficial.
Entre os outros recursos litológicos, a bagacina constitui uma matéria-prima que actualmente possui uma exploração expressiva e abrange uma diversidade significativa de aplicações, desde agregado no fabrico de blocos de betão até ao paisagismo, podendo nesta área substituir o recurso a rochas ornamentais importadas.
De referir ainda, no que respeita às argamassas, que apesar do ligante utilizado tradicionalmente ser a cal e, actualmente, o cimento (ambos importados), no passado a cal era misturada de vários modos, com materiais locais tais como tufos, areia, argilas, óleo e pozolanas, consoante a natureza da aplicação. Este constitui outro campo onde a investigação é necessária e poderia dar um contributo positivo para o desempenho das nossas paredes.
Embora a Região não seja rica em argila, apenas existente em Santa Maria, os cerâmicos, cuja produção actual se restringe às fábricas da Lagoa e da Ribeira Grande, sempre tiveram grande aplicação. Actualmente a sua utilização na construção é reduzida, motivada sobretudo pelo elevado custo de fabrico manual, sendo necessário a sua promoção, nomeadamente em reabilitação de edifícios com um carácter menos urbano.
Hoje verifica-se uma importação massiva de diversos produtos para a construção, perde-se progressivamente, até à anulação, um modo tradicional de actuação, que não tem que ver com estilos ou formas, mas com a capacidade de utilização e gestão dos recursos naturais, com a relação com a paisagem e organização territorial. O repensar destas questões, de uma forma contemporânea, possibilitaria a manutenção e valorização das características que podem tornar o arquipélago num pólo dinâmico e operativo, em detrimento da adopção de estratégias e soluções importadas que muitas vezes falham na sua aplicação directa, desfasada das condições locais e com critérios indefinidos. Será fundamental fazer um esforço de promover a utilização dos recursos locais, de criar novas técnicas e novas aplicações, tal não é possível sem uma aposta na investigação e desenvolvimento. Um contributo considerável seria recorrer à atribuição de bolsas de investigação para assuntos relacionados com a riqueza endógena.
A valorização e promoção dos materiais regionais como revestimentos contribui para a manutenção de uma construção identitária, não se tratando apenas de uma questão formal ou estética, mas da gestão de recursos e auto-conhecimento. Obviamente que nem sempre é fácil de compatibilizar estes assuntos com as actuais exigências dos regulamentos, como o desempenho térmico ou a acústica. Acredita-se que a actual aposta do Governo Regional de adaptar os referidos regulamentos às especificidades dos Açores terão esses aspectos em conta, contribuindo para a promoção de utilização dos nossos materiais e consequentemente para a dinamização da economia local.
Luís Leite, Arquitecto
Francisco Câmara, Eng. Civil
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.