Força insulana

Para quem ainda não completara 11 anos por altura do 25 de abril, autonomia e democracia pareciam irmãs gémeas. Mas a primeira, a da Livre administração dos Açores pelos açorianos podia ser trisavó da segunda. Nascera forte e determinada. Depois da laranja, Lisboa cobiçava-nos o álcool da batata-doce, entre outros desaforos de Cirilo de Carvalho.
A Autonomia chega-me pela açorianidade de Nemésio. Era meu pai um menino quando o poeta escreveu, em francês, o Mito do Senhor Queimado, homem de muitos nomes, qualquer nome, desde que açoriano e autonomista, desde que Homo Açorensis.
O que Nemésio queria demonstrar era a nossa peculiar psicologia étnica, um carácter único, um «torpor», a nossa diferença em relação aos continentais, a açorianidade. Essa sua aventura marcou-nos. Não ignorava o facto de a maioria dos açorianos não se conhecerem uns aos outros. Dividiu-nos em três categorias: o Micaelense – que revela “uma preocupação de insulanismo tão extrema (…) como alguém que é alguém. (…) é ele que levanta a enxada mais alto, a crava mais fundo”; o homem das ilhas de baixo, com destaque para o terceirense, com “alguma manha e principalmente uma bizarria que trai a coabitação com o castelhano (…) é o mais festeiro” e o Picaroto – “a nata das ilhas (…) com uma concepção séria da vida, temperada embora por uma ingenuidade…”.
Revi recentemente um Se bem me lembro, sobre a independência dos Açores, a escaldar em 1975. Vale a pena, Vitorino Nemésio vale sempre a pena:
“ (…) Os Açores precisam de um grau de autonomia administrativa muito alto e muito elevado, e há com certeza formas, que sem derrogarem o nacionalismo português, absolutamente inegável, indeclinável e inalienável dos açorianos, há formas que se podem aproximar muito disso que se chama independência. (…) Agora, que não chega propriamente ao que se fez na última etapa do regime autonómico, que é tirar com uma mão e dar com a outra, terem as Juntas Gerais dos Açores o luxo e fama de que têm uns serviços pecuários muito bons e uns serviços agronómicos e que podem dar umas bolsas a uns rapazinhos para vir estudar para Lisboa, porque têm um orçamento de tantos e depois chegar ao fim do ano e terem um défice de 5, 6, 7, 8, 9 mil contos, ou mais, e então, para tapar o buraco, lá vai uma fatia das receitas aduaneiras, porque entretanto deitaram-lhes para as costas o encargo do pagamento, nem mais nem menos, pagamentos que pertencem à soberania nacional e aos encargos de Estado centro, o pagamento dos serviços de instrução, primária e secundária, isto é um liceu (…) para as costas do orçamento das Juntas Gerais da autonomia… e uma autonomia absolutamente nulificada que paga os seus liceus mas não escolhe os professores do liceu, paga os professores do liceu mas não diz que tipo de liceu precisa, agora que estamos nesta livre – demasiado livre – estruturação universal de todos os graus de ensino e entrosamento. (…) nesse sentido de Res Puplica, coisa pública, pois viva a República Açoriana! Com esta me vou.”