O Caminho do Mato de ontem e de hoje
- Categoria: Opinião
- Criado em 21-05-2013
- Escrito por Hermano Aguiar
Conheci um Caminho do Mato, na minha Lombinha da Maia, que nem buracos apresentava no betão. Porque não tinha betão! Era um lamaçal, em dias de chuva. Em que os meus companheiros da sala de aulas da Professora Albertina tinham que chapinhar com os seus pés descalços.
Eram os tempos da não Democracia. Os tempos em que o Regedor – qual figura em muito semelhante a alguns “ditadorzinhos” democráticos de hoje – representava o povo sem o povo depositar nele a sua confiança política.
Eram os tempos da não Autonomia. Os tempos em que a Região não era Região. Os tempos em que não tínhamos um Orçamento Regional próprio, embora os nossos pais tivessem que pagar impostos, multas, e demais “obrigações” à Fazenda Pública. Os tempos em que os meus colegas de carteira – alguns deles, alunos brilhantes – não tiveram a oportunidade de trilhar outros caminhos que não o do trabalho aos onze anos de idade.
Hoje, o Caminho de Mato, na minha Lombinha da Maia, não conhece pés descalços. Poderá conhecer outras agruras … mas estas são indícios de “modernidade” que vão cortando o futuro dos filhos da minha terra.
Hoje, são os tempos da Democracia. Em que todos têm voz. Poderão é alguns terem que falar baixinho para que não sejam ouvidos os seus desagrados, os seus desacordos. Porque têm filhos para sustentar e filhas para empregar. Mas voz têm!
Hoje, são os tempos da Autonomia. Em que temos autoestradas, com quatro faixas de rodagem. E nem sequer tivemos que pagar por elas. Os nossos filhos e os nossos netos ficaram com esta herança.
Hoje, são os tempos da Autonomia. Em que temos uma Região com ilhas a ficar sem gente, porque emigram, não para Toronto ou Boston, mas para Ponta Delgada ou para Lisboa. Em que temos um Orçamento que cresceu tanto que já não dá para pagar as dívidas que temos.
Hoje, são os tempos da Autonomia. Em que os nossos filhos vão para a universidade educar-se, cultivar-se … e ganhar um “canudo” que de pouco ou nada lhes vale.
Hoje são os tempos da Autonomia. Em que, graças ao modo como fomos gerindo os nossos dinheiros públicos, temos que pedir autorização a Lisboa para irmos ao banco levantar uns trocos, ou para sabermos se gastamos em viagens e hotéis ou na construção de um relvado de futebol.
Estamos a dar cabo da nossa Autonomia. E não venham culpar os centralistas do Terreiro do Paço ou de Bruxelas. Ou será Berlim?
A continuarmos a desbaratar a nossa credibilidade como estamos a fazê-lo, o caminho da Autonomia será cada vez mais estreito.
Todos já percebemos que não basta “berrar” contra Lisboa, por tudo e por nada, como não tivéssemos sido nós os responsáveis pela gestão que fizemos dos milhões e milhões de euros que tivemos à nossa disposição – muitos deles oferecidos pela bonomia de Bruxelas e de Berlim.
Está na altura de repensar o caminho da nossa Autonomia.