REMEXER A AGRICULTURA REGIONAL (V)

O Tremoço (Lúpus lupinus,L.), outra planta interessante da família das Leguminosas, também fazia parte dos cultivos antigos e tradicionais da Agricultura micaelense. E, da mesma maneira, certamente, também nas outras ilhas. E era, um cultivo cuja produção integrava as exportações para o mercado do Continente.
Não conseguimos ter acesso a muitos elementos estatísticos acerca da produção de Tremoço, relativos a tempos mais recuados da Agricultura açoriana. Porém, voltando ao descrito no numero 120 do semanário da Ribeira Grande “A UNIÃO”, de 9 de Fevereiro de 1860 (Biblioteca Publica de Ponta Delgada) e conforme o contido no Relatório da Administração do Distrito de Ponta Delgada referente a 1859, enviado ao Governo de Sua Majestade pelo então Governador Civil, Félix Borges Medina, a produção de Tremoço neste distrito havia sido de 321.070 alqueires. Assim, se voltarmos a considerar o peso de cada alqueire em 14 quilos, esse quantitativo total traduzir-se-á em 4.494.980 quilos. Quase 4.495 toneladas de Tremoço!
Mais recentemente, já no Sec. XX, voltando aos elementos que nos disponibilizam os boletins da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, na mesma biblioteca, verificamos que no quinquénio de 1949 a 1953, somente no concelho da Ribeira Grande, em números médios anuais, o cultivo do Tremoço interessava a 2.630 Agricultores; ocupava uma área de 465 hectares (4.650 alqueires de 968 metros quadrados - vara pequena); produzia 1.462 quilos de grão por hectare/ano, o que totalizava, em média anual, 679.830 quilos; o rendimento bruto obtido por hectare era de 3.342$00 (a Pastagem, rendia, por ano e na mesma área^ 2.097$00). A produção do concelho da Ribeira Grande representava 26% da totalidade da ilha. Assim, nessas alturas, S. Miguel ainda produzia cerca de 2.615 toneladas de Tre¬moço.
Este cultivo integrava as rotações habituais na Agricultura micaelense. Quando se destinava à produção de grão, ocupava os terrenos durante um pouco mais de cinco meses, o que possibilitava, a realização de uma segunda cultura dentro do mesmo terreno. A produção de grão destinava-se à renovação de sementes; à exportação e à produção caseira dos “tremoços curtidos”, que, pela sua parte, ainda devia representar uma quantidade apreciável. Agora, o Tremoço que se consome curtido, todo ele provém da importação.
Nesses tempos áureos da nossa Agricultura, o Tremoço cultivava-se, também, integrando os “outonos” que, quando se destinavam a ser comidos pelo gado vacum, era usado misturado com outras leguminosas (fava; favica; erva da casta e azevéns). Os restos que ficavam depois do gado os pastar, eram enterrados e ajudavam a re¬por a fertilidade dos solos.
Muitos Agricultores, usavam o Tremoço para ser integralmente incorporado no solo, como fertilizante.Isto era a “sideração”. Quando a planta estava próxima da floração, era manualmente arrancada e disposta numa vala que, também manualmente e com a ajuda do sacho, ia-se abrindo na terra, e logo a seguir, coberta dela. Isto era um trabalho violento e só possível quando a mão-de-obra agrícola era abundante. Mas, equivalia a uma boa estrumação; equilibrava a fertilidade dos solos e permitia a prática de uma Agricultura rica e diversificada.
Quem já teve a oportunidade de ler jornais açorianos dedicados à Agricultura (o “Agricultor Micaelense”, pioneiro português desta imprensa especializada; o “Cultivador “) encontrou, certamente, várias referências ao cultivo do Tremoço e à sua utilidade na “sideração”. E, o insigne Micaelense José do Canto, que também foi um Agricultor competente e muito importante, propagandeava essa prática, usando-a regularmente nas suas terras e incentivando os seus Rendeiros para ela. E, tudo isso acontecia em S. Miguel a meados do Sec. XIX!
E, essa boa prática da “sideração” ainda chegou bem aos nossos dias e já com a substituição do trabalho manual pelo dos tractores agrícolas, sobretudo, antes da ocupação exagerada das terras de baixa altitude pelas Pastagens.
Acerca de tudo isto, agora, são várias as ilações que se podem tirar sobre as alterações que vieram a acontecer.
Tecnicamente, o Tremoço é uma planta “calcicula”. Isto é, só vegeta nas melhores condições em solos que estejam bem providos de Cal (com um ph superior a 6,5). Há outras plantas que não são assim. Por exemplo, o Maracujá, é uma delas. Por is¬so, chamam-se de “calcifugas”. E, de um modo geral, as ervas daninhas, incluindo aquelas que, por vezes, invadem as pastagens, são, também, parecidas com o Maracujá.
Ora, com as grandes quantidades de Tremoço que se produziam em S.Miguel, muito dele destinado a aqui ser semeado, quer nos “outonos”, quer como cultura extreme para a “’sideração*pode-se deduzir que, nesses tempos, os nossos solos agrícolas estavam muito mais bem equilibrados nos seus componentes e na sua riqueza em Cal, um dos elementos essenciais para a garantia da melhor produtividade, do que aquilo que, agora, estão.
Um dos exemplos mais flagrantes desta situação de penúria em Cal está no cultivo da Beterraba sacarina, com as produções médias por hectare/ano que se alcançam, da ordem das 47 toneladas, ao contrário daquelas outras alcançadas pelos países da União Europeia que se dedicam a este cultivo, da ordem das 80 e mais toneladas. E isto sem contar com os terrenos que a Empresa que aqui lidera esta cultura, agora, o Governo Regional, recusa para a instalação dela, apenas pelo facto de se encontrarem “ácidos” em demasia!
E pelas outras ilhas da nossa Região, não temos dúvidas de que este problema é idêntico ou, ainda, mais grave. E a importância disto é muito grande, pois, com a escassa formação da grande maioria dos nossos Agricultores, ele continua a “atacar” de maneira silenciosa e permanente!
Contudo, infelizmente, mesmo possuindo uma Universidade e um Governo Regional, para muita gente, parece nada disto está a acontecer. Parece que está tudo a decorrer “às mil maravilhas”, sobretudo, enquanto a União Europeia mantiver bem aberta a boca da saca que nos vem alimentando e viciando cada vez /atóis.
Parece-nos que está mais do que chegada a altura de abrirmos os olhos e sabermos enfrentar os problemas que nos afetam e entravam o bom caminho da nossa Agricultura, um dos últimos esteios a que nos podemos agarrar com confiança!!!

Vamos continuar.
Ponta Delgada, Maio de 2013