Armando Pereira - Um Adeus para sempre

Nesta terra dos Ginetes, apesar de, como repito algumas vezes já não ser o que era, ainda somos uma boa família. Sempre que a morte arrasta um dos nossos, mesmo que não ligados por laços de sangue é praticamente toda uma terra que sofre. Evidentemente que uns se distinguem mais que outros, mas chegado o momento fatal cá estamos em família, unidos, para apoiar os que ficam recordando do mesmo modo sobretudo as coisas boas dos que partem. Ninguém é perfeito, e felizmente que nesses momentos esquecem-se mágoas, discordâncias e até o amor que por vezes se extraviou acaba por regressar mais forte que nunca. É bom que assim seja, pois como diz sabiamente o nosso povo, “esta vida são dois dias e o presente já é um deles”.
A história dos Ginetes na sua maioria é feita de gente simples, de gente corajosa, de gente que se distinguiu sobretudo pelo amor às nossas Instituições. Nem todos licenciados, alguns mesmo analfabetos mas com grande capacidade de liderança. Sem esses heróis do passado tudo seria diferente. São os nossos heróis desconhecidos, muitas vezes ausentes das luzes da ribalta mas presentes no coração da maioria das gentes dos Ginetes pelo trabalho que nos deixaram.
Na última quarta-feira, dia 15, faleceu um dos grandes desta terra, admirado por muitos pela grande simplicidade que lhe era caraterística, mas sobretudo pela imagem exemplar que nos deixou sobretudo como músico dedicado durante mais de cinquenta anos ao serviço da nossa Filarmónica Minerva. Por cá era bem conhecido e estimado por todos. Era dos poucos de uma geração em ouro que ainda existe mas que vai partindo lentamente levando consigo parte do orgulho tão importante para a sobrevivência das nossas tradições nesta terra dos Ginetes. Sei que alguns dos seus amigos mais diretos estão abalados, sobretudo daqueles que com ele se ligaram por uma amizade especial porque mobilizados para a guerra do Ultramar. Foram dos primeiros a partir levando apenas a esperança do regresso que felizmente dois anos depois se concretizou. Recordo-me ainda desse dia que trouxe para a rua toda a população dos Ginetes alegre e orgulhosa para receber esses jovens na altura que regressaram sãos e salvos.
Recordo já com saudade também a sua presença no ano passado ao lado de antigos companheiros por ocasião da festa anual da nossa banda, mesmo se o seu estado de saúde já não permitia participar diretamente, mas lá estava perto, sorridente, com ar feliz, contribuindo assim com o seu sentido de humor para a formação de um ambiente agradável à sua volta. A sua presença era inspiradora.
Dediquei-lhe a minha crónica na semana seguinte com a colaboração de uma das suas filhas que me forneceu alguma informação sobre o passado. Sei que ficou muito satisfeito, pois logo num dos dias imediatos quando me encontrou, com alguma emoção testemunhada também por uma pequena lágrima que não conseguiu esconder me disse simplesmente “muito obrigado”. Fiquei contente pois senti que também contribuí à minha maneira para fazer de certo modo um amigo feliz.  
Para ele a Filarmónica Minerva era uma Instituição sagrada, não se dando a pena de perder tempo com quezílias que de nada servem mas que infelizmente são correntes nas nossas filarmónicas, pois todas elas têm os respetivos historiais constituídos de “altos e baixos”. Infelizmente não somos únicos nos Ginetes.
Toda essa admiração que possuía pelo mundo da música vem de uma longa tradição familiar, pois já o seu pai fazia parte desta Instituição que muito deu durante os mais de cem anos de existência a esta terra dos Ginetes.
Foi o Armando Pereira pai de sete filhos, cinco dos quais estiveram em diversas ocasiões ligados à Filarmónica Minerva como músicos. Já lá estão igualmente dois netos, garantindo assim a continuidade da família. Estou certo que a sua recordação servirá de motivação a estes mais novos.
Resta-me uma palavra de conforto para a sua grande família, de um modo especial para a sua mulher. Sei que são uma família unida e que a dor da separação embora nunca passe, mesmo assim o tempo se encarregará de suavizar esse sofrimento que faz parte da vida e do qual ninguém escapa.

Adeus, Armando.