Traída pelo espelho no elevador

Faltavam três meses para completar 5 anos de trabalho no Hotel Avenida. Embora em regime de part-time, tinha mesmo assim de fazer 30 horas semanais, depois de sair do jornal que tão bem me acolhe, há mais de 20 anos.
Lembro-me perfeitamente do primeiro dia de trabalho no bar, sem perceber nada daquilo, tentava equilibrar uma bandeja com bebidas, que ao princípio não era tarefa fácil.
Mais tarde, e por interferência da gerência de então, passei para o serviço de portaria, donde, por ignorância de alguns e gozo de outros, me apelidavam de Mandarete. Já quarentão, estranhava tal denominação, porque sabe-se que Mandarete é um moço de recados, rapaz a quem se incube um serviço pequeno fora de casa.
Certa noite, uma colega de trabalho pediu-me que acompanhasse uma hóspede a um dos pisos, porque tinha pavor de andar de elevador, e assim fiz. A senhora mais calma entrou no elevador, mas ficou de frente para o espelho. Chegado ao andar pretendido, a porta abriu-se, e para preocupação minha, a senhora foi de encontro ao espelho, ficando toda despenteada e com os óculos desacertados na cara. Aflito em tentar ajudar a cliente, endireitando-lhe os óculos, mas acabei por me contagiar com a sua boa disposição, ao aperceber-se que tinha sido traída pelo espelho.