Desfazendo ideias feitas

O que significa existencialmente a palavra crença?
Acreditar em algo ou em alguém significa apenas querer acreditar em algo ou em alguém como afirmava o poeta português José Régio, no seu livro Confissão de um Homem Religioso, ou é algo de diferente?
O que significa existencialmente a palavra convicção?
Quando uma pessoa afirma estou convencido disto, creio naquilo, tenho a convicção daquilo qual é a realidade que subjaz a essas palavras?
Anselm Grunn um conhecido monge alemão, afirma, a dado passo na sua conversa com um gestor da empresa de artigos desportivos Puma “Quem é corajoso não se verga nem se deixa vergar, a coragem de defender as suas convicções quando se é atacado ou ferido”.
Nesta frase do monge alemão há duas palavras chave: convicção e coragem.
Mas o que é a coragem?
Depois de ouvir na Ágora um discurso inflamado sobre a coragem proferido por um governante na Antiga Grécia Platão, perguntou-lhe no final: “disseste que só revela coragem quem não recua perante o inimigo numa guerra mas supõe tu que a táctica militar num determinado momento exige um recuo?
Portanto a coragem não pode ser avançar nem recuar e foi-se embora deixando o demagogo político a meditar no assunto.
Numa outra ocasião Platão perguntou a um concidadão ilustre o que era a Beleza.
O interlocutor admirado olhou á sua volta e viu passar uma mulher bonita e respondeu a Platão: “olha ali vai um beleza, uma mulher bonita”.
Platão no entretanto avistou ao longe um belo cavalo e o seu companheiro também achou que o cavalo era realmente belo.
Platão perguntou então: “Mas o que é que o cavalo e a mulher têm em comum?
Nada - respondeu o interlocutor do filósofo.
Então o que é A Beleza voltou a perguntar Platão?
Confesso que realmente não sei, diz-me o que é então a beleza”
Também não sei; eu não sei e tu não sabes, a única diferença entre nós é que tu estavas convencido que sabias enquanto que eu estava e estou convencido de que não sabia.
O homem é habitado interiormente por forças antagónicas que lutam constantemente entre si, vive numa permanente instabilidade intima porque a correlação de forças está constantemente a alterar-se ao longo da vida, o mesmo homem em certos momentos, age corajosamente, noutros age cobardemente, em certos momentos vacila, perante um obstáculo, outras vezes avança audaciosamente para o obstáculo.
Do que não tenho dúvidas é que, apesar disso, é verdadeiro o juízo que permite dizer que há mais cobardes no mundo do que pessoas corajosas moral e fisicamente.
Julgo por isso que a coragem está indissociavelmente associada à crença, à força ou capacidade da convicção, isto é se a força da convicção é maior do que a força do medo (o medo é uma força gigantesca da alma e não uma fraqueza como vulgarmente se entende) o indivíduo torna-se corajoso, se acontece ao contrário o indivíduo torna-se cobarde. Portanto tudo depende da força da crença, da força da convicção interior da alma. Quando o indivíduo sente cá dentro uma força enorme e inexplicável ele consegue vencer o medo consegue vencer sozinho todos os obstáculos que a vida lhe coloca mesmo que essa resistência implique sofrimento e solidão, Não se trata aqui de um heroísmo acidental trata-se do verdadeiro heroísmo, o heroísmo essencial, que é a substância do homem que age corajosamente não em função da circunstância exterior mas a partir do seu próprio interior, da essência do seu ser.
Isso permite concluir que não há, deste ponto de vista, homens fracos e homens fortes, existem sim homens que agem e outros que ficam paralisados, que optam por não agir perante a realidade adversa da vida.
O fraco, o cobarde não é portanto o que não tem força mas sim aquele que não usa a força que tem para enfrentar os riscos da acção face aos perigos e obstáculos da vida.
Tem medo de morrer, de ficar só, de ser rejeitado, tem medo de perder; é sempre dominado na vida pela força do medo.
Se bem entendo a frase de Cristo “quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, quem quiser perde-la salvá-la-á”.
O homem só está realmente perdido nesta vida quando tem medo de perder seja o que for. Mas não há nada a temer porque se ele vir bem está tudo perdido para ele à partida. Só pode salvar e justificar a sua existência se salvar a sua alma, isto é, a essência do seu ser.
É na essência que está a força e a verdade do homem, o homem é por isso tanto mais forte quanto menos se afasta da sua essência. Manter-se ligado á sua essência profunda significa existencialmente ser autentico, ser ele próprio, viver de dentro para fora sem deixar que as expectativas dos outros determinem as nossas acções.
Creio que quando o próprio Sócrates filósofo grego afirmou “Conhece-te a ti mesmo” estava realmente a pensar que só através da auto-consciência se pode viver a vida verdadeira.
Para estar à altura do conselho de Sócrates o tempo de uma vida humana é muito curto.
Por outro lado o ser não se deixa capturar porque flui constantemente como as águas de um rio, no grande rio do tempo o que levou Montaigne nos seus Ensaios a dizer que “não pinto o ser pinto a passagem”.
Na intensidade da força da emoção profunda reside a força da crença e a luz da razão. A fé é a força da vida, é ela que nos salva na medida que é ela que nos dá a força para percorrer sem medo e até ao fim os caminhos da nossa vida.