«Suspense»! Meandros secretos do cinema

O tema de hoje é Alfred Hitchcok, pai do «suspense», recordando o aniversário da sua morte, ocorrido há dias.
A semana prestava-se para falar de filmes de horror, porque ― com o País a afundar-se ― os deputados decidiram legalizar a co-adopção por parte de pares homossexuais. Até o conceito de «pares» é uma fixação absurda, aplicada a homossexuais. Compreende-se que pai e mãe são dois, mas «não-pais» podem ser quantos se quiserem. Dá igual. As crianças é que não têm culpa nenhuma e deviam ser poupadas. Os desvarios da nossa Assembleia merecem um comentário bem duro. Contudo, não vamos agora falar de horrores. O tema é Hitchcok e a sua pequena história, um pouco secreta.
O mundo inteiro ouviu falar de Hitchcock. Realizou mais de meia centena de filmes, que geraram um entusiasmo extraordinário e foram sucessos de bilheteira. O êxito foi de tal forma, que os dicionários de inglês têm a palavra «Hitchcockian», para designar filmes emocionantes. A cada filme, surgia a pergunta: será desta, que ele recebe o seu primeiro Oscar? A pergunta repetiu-se todos os anos, ao longo de sessenta anos de carreira brilhante. O Oscar nunca chegou.

Foi proposto 5 vezes para o Oscar de melhor realizador, propuseram-no 6 vezes para o prémio da DGA («Directors Guild of America»), propuseram-no 3 vezes para o prémio de Cannes. Não ganhou em nenhum caso. O «site» do IMDB comenta que «ainda hoje os fãs e os críticos não conseguem compreender como isto aconteceu».
Uns dizem que foi por Alfred Hitchcock ser católico. Outros, ao contrário, têm o cuidado de explicar que Hitchcock tinha deixado de ser católico. Um dos biógrafos, Donald Spoto, escreveu que Hitchcock «nunca autorizou um padre a entrar lá em casa, para o visitar ou para celebrar uma Missa sossegada, privadamente». Por isso, foi curioso ler na edição de 7 de Dezembro passado do «The Wall Street Journal» (página A-15 da versão americana) o artigo «Alfred Hitchcock’s Surprise Ending» (o surpreendente final de Alfred Hitchcok), escrito por Mark Henninger, um padre jesuíta que hoje é professor na Universidade de Georgetown.
Henninger conta que o padre Tom Sullivan lhe pediu que o acompanhasse no sábado a casa de Hitchcock. Na sexta-feira ia lá confessá-lo e no sábado ia celebrar-lhe a Missa. Henninger, recém-ordenado, ainda estudante na universidade, não esperava visitar um personagem tão famoso. No sábado, quando chegaram, Hitchcock dormitava na sala de estar. O padre Sullivan acordou-o e fez as apresentações: «Hitch, este é o Mark Henninger, um padre recém-ordenado, de Cleveland». «Cleveland?!, ― comentou Hitchcock ― que desgraça!». Ficaram um bocado a conversar e depois foram para o escritório, onde celebraram Missa para Hitchcock e para a mulher. O padre Henninger distraía-se com aquelas estantes com os «dossiers» de tantos filmes que ficaram na história, mas o espectáculo mais impressionante foi Hitchcock a chorar, depois da Comunhão. Silenciosamente, com as lágrimas escorrendo pelas bochechas volumosas.
O padre Sullivan e o padre Henninger voltaram lá mais vezes, sempre ao sábado, algumas vezes os dois, outras só um deles. No artigo, o Henninger recorda com mais pormenor uma dessas vezes em que foi sozinho e esteve a conversar na sala com Hitchcock, até que a certa altura o velho realizador se levantou: «vamos para a Missa». Tinha 81 anos e movia-se com dificuldade pelas galerias da casa. O relato da cena é encantador. Mas o que mais marcava Henninger era aquela reacção extraordinária, profundamente humana, de Hitchcock, quando chegava o momento de comungar.
Aquela era a sua verdadeira grandeza, longe do brilho dos holofotes. Tão diferente do que o representam alguns filmes recentes e alguns biógrafos.

        José Maria C. S. André