Baralhar e voltar a dar


Num frenesim inquietante o governo anuncia medidas avulsas enquadradas em vários pressupostos, sem objectivos definidos, sustentadas apenas pela sofreguidão premente de angariar receitas, sob o ímpeto do “custe o que custar”, de que vale tudo e de não importa os meios para se atingir os fins.
Atirando medidas para a praça pública, dissimulando assim o seu impacto junto dos visados antes de discuti-las com os parceiros sociais, o governo descredibiliza-se perante todos, na medida em que indisponibilizado para as modificar, apesar de dizer o contrário, fá-lo porque a isso é obrigado, aceitando como normal o desacordo dos mesmos.
Num ambiente tóxico, medidas anunciadas por várias vozes, vazias de conteúdo que se contradizem e que se anulam pelas suas intenções, atónitos, vivenciamos um período de rutura com sequelas várias e que tem como propósito uma nova realidade, trabalhada sob uma pretensa Reforma do Estado.
O momento é de mudança e o pensamento neoliberal que o preenche tem a força duma convulsão social invertida, picada por um capitalismo sem freio fazendo desaparecer aos poucos um estado social, arrastando por contágio outras realidades tidas como adquiridas.
Apercebemo-nos que o amanhã está a ser feito hoje e que as dificuldades do agora serão potenciadas, porque a este ritmo e neste clima de insensibilidade social teremos um outro estado, num país que não desaparecerá mas que será diferente, pelo que se impõe mudanças nesta rutura usando-se para o efeito numa tática de contra fogo, a alternância política com recurso a eleições ou outras num compromisso esclarecido, no qual possamos ser parte na resolução dos ditos problemas, biombo doutros e que a curto e a médio prazo se tornarão realidade.
A meio duma legislatura o governo ergue una arquitetura legislativa complexa em todos os domínios que tudo altera, e num ritmo sôfrego de deixar marca lança os pressupostos dum estado que não se sabe como será, apegado aos ditames internacionais e indiferente aos destroços que produz, porque nesta caminhada caem as pessoas e ficam os castelos.
No meio deste ritmo alucinado, picado por um neoliberalismo radical, que se imponha a ética numa mudança política, liderada por outros e que, enquanto não ganhamos a inteligência apropriada para granjear as alternativas a aplicar neste jogo, faça com tudo isto e o que está para vir um baralhar e um voltar a dar.