Morrer na ilha grande fechada...
- Categoria: Opinião
- Criado em 29-05-2013
- Escrito por Osvaldo Cabral
Há dois mestres da literatura açoriana contemporânea que ficarão na história como exemplos da perfeição da escrita: Fernando Aires e Daniel de Sá.
Ambos admiravam-se e nós, humildes seguidores das suas obras, admirávamos a limpidez da escrita de ambos, desde a síntese de Fernando Aires à “prosa enovelada e tensa, plena de subentendidos, a tecer sua urdidura através de achados linguísticos” de Daniel de Sá, como escreveu Luis António de Assis Brasil.
Ambos partiram quando menos se esperava.
Daniel de Sá decidiu sair da sua “Ilha grande fechada” no dia seguinte às celebrações da Santíssima Trindade, assumindo a sua forte convicção e formação religiosa, sacrificando a família e amigos, como o protagonista João do referido romance.
Ao deixar-nos, Daniel dá vida à frase mais bonita que inventou: “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.
Daniel de Sá ficará para sempre na ilha, mesmo naquela que reside na memória de cada um de nós.
A minha ilha esteve sempre rodeada pelo Daniel.
Desde os tempos do “Correio dos Açores” até há poucas semanas atrás, guardava com enlevo tudo o que recebia do amigo, mentor e inspirador.
Era rara a semana que o Daniel não me enviava um ‘email’, a propósito das minhas crónicas neste jornal: apoiava, discordava, sugeria-me, corrigia-me, inspirava-me, acrescentava e até esclarecia-me sobre as dúvidas mais misteriosas da nossa história insular.
A última, que guardo religiosamente nos meus arquivos, ocorreu há pouco tempo, dias antes de ele ter adoecido.
Fiquei confuso com algo que tinha lido na nossa imprensa, a propósito de uma eventual presença de romanos, fenícios e outros povos de há milénios na ilha Terceira.
Na mesma hora em que interrogava Daniel de Sá sobre tal mistério, ele respondeu-me de rajada: “Meu Caro, para perceber a história dos Açores, é essencial conhecer um pouco de náutica antiga. Aquilo de os romanos terem andado por aqui é uma variante da versão fenícia. Ora os romanos só criaram navios para combater Cartago. Até então quase não os usavam. Mas eram navios preparados para o Mediterrâneo apenas, sem capacidade de viagens muito longas, tanto mais que a maior parte da sua capacidade de carga teria de ser, em tais casos, para armazenar alimentos para os remadores, talvez os mais desgraçados condenados de sempre. Os próprios fenícios, que viajavam também só com terra à vista, e que iam até às ilhas britânicas, diziam que no mar do Norte a terra subia e se aproximava dos navios. Era o fenómeno das marés, desconhecido no mediterrâneo. Outra razão para não se atreverem a viajar para longe da terra”.
Escrupuloso nas suas investigações, não o era menos sobre os historiadores: “Não se pode dizer isto em voz muito alta, mas antes do Dr. José de Torres e do Ernesto do Canto, não se fez História credível nos Açores, porque o próprio Gaspar Frutuoso tem dias...”.
O humor do Daniel era outra vertente contagiante.
Vê-lo a contar histórias do arco da velha, com o Onésimo, na esplanada da Praia dos Moinhos, como no Verão passado, era uma delícia para o intelecto.
Tive o privilégio de apresentar um dos seus livros na tertúlia de então do Solar de Lalém, já lá vão uns anos, mas sempre que nos encontrávamos, geralmente na Livraria Solmar para o lançamento de algum livro, dizia que tinha uma dívida para comigo e, no seu jeito brincalhão, perguntava: “quando é que apresento o teu?”.
Infelizmente já não vai a tempo, amigo Daniel.
Mas fica a certeza de que os teus ensinamentos, as tuas sugestões (e a tua riquíssima colaboração como revisor), ficarão gravadas na memória deste pobre escriba que te admirou muito.
Como disse o Onésimo, logo após conhecermos a tua morte, “perdemos um irmão e um amigo. Quem só o conhecia dos livros perdeu um escritor. Os Açores perderam uma voz. Que vai fazer muita, muita falta. Sobretudo quando ela, nas nossas contas humanas, ainda deveria intervir por muitos, muitos mais anos”.
Termino com o que Daniel de Sá escreveu, em Novembro de 2010, na morte de Fernando Aires: “Hoje não me levantei. Não volto a levantar-me, já disse. Não me cansei da vida, nem da família, nem dos amigos. Nem sequer me cansei de mim. Mas tinha de haver este dia. O dia de nunca mais. Até qualquer dia companheiros”.
Pico da Pedra, Maio de 2013