Partidos em ebulição
- Categoria: Opinião
- Criado em 13-08-2018
- Escrito por João Bosco Mota Amaral
Não será apenas em resultado das altas temperaturas provocadas pelas vagas de calor, mas o certo é que se nota um certo frenesim dentro dos partidos políticos, nuns mais do que noutros, nas semanas do Verão em curso, apesar da pausa propiciada pelo período de férias.
O PS, primeiro responsável do Governo, discute, desde os tempos do congresso realizado meses atrás, as opções políticas para a legislatura a iniciar após as eleições legislativas de 2019. Predominam os entusiastas da fórmula “gerigonçal”, já que bem poucos se atrevem a sonhar sequer com uma maioria absoluta, cada vez mais fora do radar socialista, quando tantos problemas se estão agravando nos serviços públicos cruciais da saúde e da educação. Mas mesmo aí há divergências, mais ou menos disfarçadas, uns exigindo a conversão dos parceiros PCP e BE aos dogmas da União Europeia e da NATO, outros cheios de entusiasmo por um acentuar da viragem aos temas caros à extrema esquerda, nomeadamente a reforma das leis laborais e a questão societal fracturante que ainda resta, isto é a liberalização da eutanásia.
O líder do PS, por seu turno, finge que esse debate não lhe diz respeito e debita optimismo a propósito de tudo, incluindo perante o grande desastre ambiental do recente fogo em Monchique, que devastou a serra algarvia e causou graves prejuízos. Não vai, porém, poder permanecer indefinidamente no Olimpo das suas indefinições.
O PCP tem vindo a dar sinais de vida, jogando na desestabilização laboral nas áreas onde goza de maior influencia, com destaque para a dos professores. Mas está dilacerado perante a necessidade de aprovar o OE 2019, apesar das restrições impostas pelo cumprimento dos requisitos financeiros europeus, a fim de permitir o cumprimento da legislatura em curso, evitando a queda do Governo e a antecipação das eleições.
O BE está a curar as feridas causadas pelo caso Robles, que atingiram a credibilidade do discurso habitual do partido. Dá sinais de querer chegar ao Governo, em acordo com o PS, desejavelmente com a sua posição eleitoral fortalecida e a do parceiro enfraquecida, mas isso pode vir a revelar-se apenas whishfull thinking…
O CDS anda eufórico com os resultados alcançados pela sua líder nas eleições últimas autárquicas e pensa já que vai transpô-los para todo o País nas próximas eleições gerais. Mas o tema europeu também arrelia os seus dirigentes e é significativo que já tenha sido anunciado o cabeça de lista para as eleições de Maio de 2019, por sinal o mesmo de sempre…
No PSD há a confusão e o ruído comunicacional do costume, sempre que o partido está na Oposição. A saída de Pedro Santana Lopes para fundar o seu próprio partido foi finalmente concretizada. Além disso, ao líder eleito há escassos meses são feitos ataques contínuos por parte de militantes com pretensões de promoção mediática, todos se pondo em bicos de pés para serem lembrados quando soar a hora do ajuste de contas face aos iminentes resultados eleitorais do partido, que antevêem desastrosos e já agora colaboram activamente para que de facto sejam negativos.
Com amigos destes, Rui Rio não precisa mesmo de inimigos! Acresce que no meio das redes sociais, em que boa parte do debate político hoje, tristemente, decorre, quaisquer sinais de divisão interna do PSD são logo empolados para fragilizar a liderança legítima do partido, em benefício objectivo do statu quo, dominado pelo PS.
Ora, nem todos os que se auto propagandeiam como capazes para encabeçarem futuras, arrasadoras e vitoriosas movimentações politico-partidárias, têm reais e demonstradas qualidades para aspirarem ao desempenho das mais altas responsabilidades governativas nacionais, implícitas na liderança do maior partido da Oposição. Os seus méritos situam-se as mais das vezes na manipulação aparelhística, bem longe de uma verdadeira projecção de credibilidade nacional. Melhor fariam em estar quietos, reduzindo-se à sua reduzida significância!
É certo que a degeneração das práticas democráticas tem permitido, em vários países, alguns até prestigiados, o acesso ao poder de personalidades evidentemente medíocres, várias delas ao fim de pouco tempo envolvidas em lamentáveis casos de falsificação de currículos e até de escandalosa corrupção. Mas os cidadãos têm vindo a aprender à sua custa que o correcto funcionamento do regime democrático exige, mais do que palavrosas declarações de intenção e ondas de apoio habilmente forjadas, qualidades de carácter e comprovada experiência no desempenho de cargos públicos. Rui Rio tem isso a seu favor e não deve tal ser desvalorizado!
Por cá, nas nossas ilhas dos Açores, também há sinais de ebulição partidária. Talvez me venha a referir a isso futuramente, após madura ponderação.
(Por convicção pessoal, o Autor não respeita ao assim chamado Acordo Ortográfico)