Osório Goulart 150 anos

Poeta e jornalista que se evidenciou nos apelos contínuos para dar a conhecer a ilha do Faial e as outras ilhas, para relançar temas históricos e promover a salvaguarda do património
material e imaterial

Figuras de representação pública, em diversas áreas da cultura e da política, nasceram na década de 60 do século XIX. A lista que é abundante, envolve Manuel Teixeira Gomes e António José de Almeida, dois presidentes da República, o primeiro um dos maiores prosadores da língua portuguesa. Mas também se estende a poetas com a singularidade de António Nobre e a escritores e dramaturgos com a amplitude de Raul Brandão.
Todos se encontram ligados a jornais e revistas, mas há, pelo menos, quatro jornalistas, que, devido aos locais e órgãos de comunicação, onde exerceram a profissão, se destacaram com repercussão internacional, com projeção nacional, com militância regional e, ainda, com evidência insular. Evoquei-os, em traços sumários, no auditório da Biblioteca da Horta quando, recentemente, falei dos 100 anos da génese do Mau Tempo no Canal, obra-prima de Vitorino Nemésio, recorrendo a fontes documentais da época como o jornal Telegrapho que, durante décadas, registou a vida quotidiana da cidade, da ilha, das outras ilhas e do que ocorria em Portugal e no resto do mundo.
Os quatro jornalistas são: António Lobo de Almada Negreiros  correspondente de O Seculo durante mais de 30 anos em Paris(Aljustrel, 15 de Agosto de 1868 - Paris, 12 de Junho de 1939); Tito Martins, nascido em Lisboa a 17 de maio de 1886 e, em Lisboa, falecido a 9 de novembro de 1946) fundador com Manuel Guimarães d’A Capital e durante 30 anos subdiretor d’ O Século; João Arruda, nasceu em Santarém em 18 de Novembro de 1867  e faleceu em Santarém,  a 14 de Maio 1934, que fundou o Correio da Estremadura, que depois adotou o nome  Correio do Ribatejo; e, finalmente, Osório Goulart ( nascido na Horta a 12 de Dezembro de 1868 e falecido na Horta 9 de Janeiro de 1960), poeta, professor, jornalista, fundador e diretor do Correio da Horta.
Osório Goulart escreveu, desde o final do seculo XIX, em muitos outros jornais do Faial, (caso d’O Telegrapho) da Terceira e de São Miguel onde, por exemplo, no semanário O Norte, da Ribeira Grande, manteve uma coluna regular, na qual assinalou a morte de Paul Verlaine.
Empenhou-se Osório Goulart na defesa e a valorização do património edificado e do património imaterial, adotando o critério preconizado por Almeida Garrett, nas Viagens na Minha Terra e, posteriormente, na Etnografia Portuguesa, de José Leite de Vasconcelos que conheceu, durante a visita do grupo de intelectuais que, em 1924, se deslocou aos Açores.
A obra poética de Osório Goulart iniciou-se, em 1892, com Murmúrios e prolongou-se, até 1956 com Névoa Dourada, numa sucessão de dezenas de livros e opúsculos em que conjuga a confidência lírica, o arrebatamento místico, o fervor patriótico e a exaltação dos Açores, em especial do Faial e da estreita relação com o Pico e São Jorge, as ilhas que constituem o triângulo e acentuam a imagem e o conteúdo do arquipélago.
Insere-se no conjunto de numerosas publicações de Osório Goulart a obra Um Lusíada, poema em dez cantos, editado em 1934, um livro de incondicional louvor à ação governativa e à personalidade pessoal e política de Salazar.
Refira-se, a propósito, que outros poetas açorianos enalteceram, igualmente, Salazar e o regime. Entre os mais conhecidos podemos citar: Espínola de Mendonça no livro Gerânios; Oliveira San-Bento, em largas desenas de sonetos publicados no Diário dos Açores, durante mais de quarenta anos, para se congratular com as sucessivas viagens presidenciais e também de cada uma das visitas ministeriais a São Miguel. Também é de mencionar Armando – Cortes Rodrigues autor dos Autos de Saudação em honra dos presidentes Óscar Carmona, Craveiro Lopes e, ainda, Américo Tomaz, nas respetivas visitas presidenciais à ilha de São Miguel.
Contudo, o livro Um Lusíada de Osório Goulart destinou-se a concorrer ao Prémio Antero de Quental, instituído pela primeira vez pelo Secretariado da Propaganda Nacional, presidido por Antonio Ferro, que viria a contemplar A Mensagem de Fernando Pessoa.
Na opinião de Rui Galvão de Carvalho, divulgador de poetas, escritores e dramaturgos açorianos no seculo XX, a poesia de Osório Goulart exprime «nobres ideais, ao mesmo tempo que acusa uma inspiração superior e uma sensibilidade muito requintada». Em contrapartida, Pedro da Silveira excluiu Osório Goulart dos 83 poetas da Antologia da Poesia Açoriana do seculo XVIII a 1975 (1977– Edição Sá da Costa).
A exclusão motivou fortes reações de José da Silva Peixoto e Tomaz Duarte. Este último, membro do Governo Regional presidido por Mota Amaral promoveu, entre outras homenagens, a colocação de um monumento com o busto de Osório Goulart, em lugar emblemático da cidade da Horta, frente ao Pico, a São Jorge e à Graciosa proferindo, no ato inaugural, uma alocução com o título «Amortização de uma divida em Aberto».
Para avaliar a importância e a dimensão da obra de Osório Goulart, falta, todavia – e perante uma produção bastante desigual – a elaboração de uma antologia poética, com introdução crítica, tábua cronológica e bibliográfica e uma exigente seleção dos vários ciclos de criação literária.
Os quatro jornalistas sesquicentenários enquadram-se nas possíveis comemorações a celebrar, ou não, este ano. Tito Martins, apesar do ruído que provocou na Imprensa e no teatro está, porventura, condenado ao esquecimento.
Para já António Lobo Almada Negreiros – pai do artista e poeta do Orpheu José de Almada Negreiros – com obra dispersa em jornais e revistas (e, por vezes, recolhida em livros, opúsculos e separatas) aguarda avaliação critica, em função das conceções políticas e ideológicas da época em que viveu ou do caráter pioneiro que, em alguns aspetos, manifestou ao escrever sobre as colónias portuguesas de África.
Osório Goulart, nos Açores e João Arruda, no Ribatejo, devido à proximidade que sempre mantiveram com o leitor, aos apelos sistemáticos para conhecer e amar a terra, para recuperar tradições, para relançar temas históricos e para salvaguardar monumentos vão certamente ter comemorações, tanto mais que continuam a ser, através do legado que deixaram, motivo de identificação e orgulho com as suas raízes.